Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 19 de abril de 2017 às 20:55

O aeroporto de Monte Real

Como é que se justifica que, nos tempos de hoje, os três aeroportos do país tenham entre si distâncias de cerca de 300 quilómetros?

Agora que se discute a extensão do aeroporto de Lisboa e que está prevista a criação do aeroporto do Montijo, talvez seja altura de retomar uma ideia que há muito defendo, que procurei afirmar quando exercia as funções de primeiro-ministro, mas que, até hoje, não "pegou". Refiro-me ao aeroporto de Monte Real. Sem entrar em pormenores técnicos, devo dizer que esse aeroporto reúne todas as condições para aterrarem aeronaves das mais variadas dimensões. Aliás, como é sabido, o Papa Francisco aterrará lá e não vem, que se saiba, em nenhum avião pequeno, mas sim num avião comercial normal. 


É muito difícil perceber como é que não há adesão a esta ideia. Se há algo que me faz sempre confusão, é quando vejo que aquilo que é óbvio não se faz. Costumo, aliás, dizer que o mais difícil, muitas vezes, é conseguir concretizar aquilo que é óbvio. Normalmente, são interesses privados ou lógicas públicas ultrapassadas que o explicam. Mas, neste caso, nem isso consigo descortinar. Na verdade, não é só desde que a ANA foi privatizada que a ideia de Monte Real não "pega", já assim acontecia antes. Será por causa das taxas aeroportuárias que não "pega"? Talvez esteja aí uma razão. Só que essa recusa prejudica o interesse nacional e, nomeadamente, o daquela região.

Há muitos anos que se fala na necessidade de um aeroporto para a região centro e como era bom que isso acontecesse. O aeroporto de Monte Real permitiria desenvolver, ainda muito mais, o turismo religioso, naturalmente à volta de Fátima. Mas, como se sabe, em toda aquela área há outros grandes motivos de interesse turístico, quer patrimonial, quer de desportos marítimos, nomeadamente o surf. Qual é a lógica que leva, com um aeroporto que está praticamente todo construído, só faltando o investimento nas aerogares, a que não seja devidamente aproveitado? Qual é a lógica de as pessoas terem de vir a Lisboa e depois fazerem cerca de 150 quilómetros para irem a esses lugares de enorme atratividade turística? Quando exerci as funções acima referidas resolvi fazer uma viagem no Falcon, que está ao serviço do Governo, de Lisboa a Monte Real. Como, na altura, tudo o que dissesse era um erro ou era depreciado, logo vieram conversas disparatadas, mas essa pretensão tinha o apoio de todos os autarcas da região centro, como é compreensível.

 

Como é que se justifica que, nos tempos de hoje, os três aeroportos do país tenham entre si distâncias de cerca de 300 quilómetros? Ainda para mais, o que é curioso é que isto representa uma subjugação do centro do país verdadeiramente incompreensível. Falei muitas vezes no tema enquanto fui presidente do Conselho da Região Centro no tempo em que presidi à Câmara Municipal da Figueira da Foz. Esta é das tais medidas que fariam bem à economia, fariam bem ao nível de vida das pessoas da região, fariam certamente crescer o PIB, crescer o investimento.

 

Durante muito tempo fizeram circular a ideia de que a NATO se oporia a que Monte Real passasse a aeroporto civil. Ideia que foi depois desmentida. Não sei se, entretanto, terá voltado, mas não acredito. Aliás, quase se pode caricaturar e dizer que temos um aeroporto que só é utilizado do lado civil quando temos uma visita papal a Portugal. É bom para um Papa aterrar, mas não é bom para as pessoas comuns. Caricatura à parte, não podemos é dar-nos ao luxo de continuar a desperdiçar estes ativos e estas oportunidades.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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mais votado JCG Há 2 dias

Começo por não perceber o subtítulo. Se calhar é porque as 3 principais concentrações humanas do país se centralizam em Lisboa, Porto e Faro.
Acho que para avião, 300 kms é logo ali. Uma Vez passei por cima de Portugal a caminho de Madrid, dei-me conta de quando o avião chegou à costa de Portugal aí para os lados de Peniche e creio que nem passou meia hora e já estava em cima de Madrid.
Por outro lado, não acredito que dentro de uns 25 anos não estejam já aí em força os aviões que poisam e levantam na vertical, tornando obsoleto o actual conceito de aeroporto com pistas com vários kms, podendo poisar muito mais próximo dos destinos dos passageiros como fazem hoje os helicópteros.
O que é preciso levar muito a sério em matéria de planeamento estratégico é fazer "resvalar o país" mais para o interior através de uma política de incentivo ao crescimento das cidades do interior desde Loulé a Bragança, distribuindo a população e protegendo-o de anunciado cataclismos costeiros.

comentários mais recentes
João Gomes Há 4 semanas

Caso uma empresa (ex. Ana Aeroportos) ou um politico (de peso), tivessem interesses na Região de Leiria e há muito que aeronaves militares e civis partilhavam esta infraestrutura (BA5), seguindo o exemplo da BA4-Lajes. Anexo link relacionado: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=baseaerealeiria

vitor frias Há 2 dias

Só não se justificava se houvesse o TGV com estação em Leiria como chegou a estar previsto.

Anónimo Há 2 dias

Desdobramento aeroporto Lisboa pra Montijo contra interesse nacional.Ninguém fala expansão possível do mesmo. Expande-se cidade e limita-se aeroporto. Criação facto consumado e "dogma de fé" "obrigando" a outro: especulação imobiliária. Zona Fátima credivél: Giesteira.FAP necessita base credível.

Anónimo Há 2 dias

aÉROPORTO ......... sR sANTANA lOPES, COMO O SR MUITO BEM SABE TUDO O QUE É DO ESTADO NÃO ACOMPANHA O RESCIMENTO----SO OS COMUNAS GOSTAM DISSO PORQUE DESSE MODO COLOCAM LA OS AMIGOS PESSOAIS . VEJAMOS A TAP........QUANDO É QUE O ESTADO TERIA LA A

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