Roland Berger Consultants
Roland Berger Consultants 13 de julho de 2014 às 18:30

A reindustrialização da Europa para enfrentar os desafios do futuro

A diminuição do peso da indústria na Europa tem levado a uma discussão interna sobre a estratégia para o seu "renascimento".

 

Existem actualmente duas realidades distintas na Europa, com a Alemanha e alguns países da Europa de Leste possuindo uma indústria competitiva e uma situação diversa nos países do Sul (e não só).

 

Este modelo não é sustentável dentro do mesmo espaço económico e é necessária uma nova abordagem que não se limite a tentar recuperar indústrias que se deslocalizaram ou imitar simplesmente outros modelos.

 

Apesar do seu poderio económico, a Europa apresenta grandes diferenças estruturais entre países

 

Mesmo em período de recessão, a União Europeia é a maior área económica mundial - com um PIB de 17,3 triliões de dólares, está um pouco acima dos EUA e quase duplica o PIB chinês. No entanto é impossível ignorar as divergências internas da UE: entre 2009 a 2013 o crescimento anual médio situou-se entre os -5% (Grécia) e os +1,3% (Suécia).

 

Será uma coincidência que os países com maior crescimento são também aqueles com um maior peso da indústria? Acreditamos que não.

 

A competitividade do Sul está abaixo do Norte em quase todos os aspectos: infra-estrutura, instituições, preparação tecnológica, educação, mercado de trabalho… Em certas dimensões, o Sul da Europa está já a ser alcançado (e ultrapassado!) pelos BRICS.

 

A desindustrialização é uma tendência global mas traz consequências nefastas para as economias

 

Esta tendência para a desindustrialização não é um fenómeno exclusivamente europeu nem um fenómeno recente: o peso da indústria no PIB mundial passou de 26% em 1970 para 17% em 2013. Vários factos explicam esta tendência, nomeadamente ganhos de produtividade divergentes com outros sectores que levaram a limitações no investimento.

 

Esta tendência teve no entanto consequências sérias nas economias europeias. Sem uma iniciativa séria de reindustrialização, a Europa arrisca-se a ser puxada para um círclo vicioso: perda de competitividade, diminuindo o seu peso no comércio, o que reduz o retorno do investimento e o próprio investimento, causando a obsolescência dos activos industriais, causando uma perda de competitividade adicional… Como consequência a Europa irá acabar por perder o "know-how" e o capital humano, muito difícil de recuperar. Assim, o problema inicial a ser resolvido o quanto antes é o da competitividade! 

 

É necessário avançar com um conjunto de acções concertadas ao nível da Europa que garantam a reindustrialização

 

Acreditamos que serão necessários cinco passos essenciais para a reindustrialização da Europa:

 

Primeiro, criar um ambiente político e industrial atractivo para o investimento, inovação e empreendedorismo. Para isso são necessárias não só políticas fiscais e económicas eficientes, mas também o funcionamento adequado das instituições, um mercado de trabalho flexível e um sistema de educação competitivo.

 

Adicionalmente, providenciar uma infra-estrutura de serviços de topo como base para uma indústria produtiva, desde uma rede de transportes eficiente a uma rede de comunicações de qualidade e uma política de energia eficiente. Estimamos que o investimento total necessário em infra-estrutura a nível europeu se situe em torno do 1 trilião de euros, focado nas telecomunicações e energia.

 

Será também essencial o estabelecimento de uma política de I&D a nível europeu. Alguns países europeus (Portugal incluído) têm já um peso de I&D inferior ao de países como a China, sendo necessário adoptar as melhores práticas mundiais de incentivo à inovação.

 

A criação de um ambiente propício a "startups" é o quarto passo-chave. Aqui a Europa tem ainda muito caminho a percorrer: se nos EUA 22% das principais empresas inovadoras foram criadas depois de 1975, na Europa esse valor é de apenas 2%. A Europa ainda é dominada por empresas grandes e antigas. Comparados com outros países, os empreendedores europeus têm mais receio do falhanço e uma maior dificuldade no acesso a capital. Terão de ser criados incentivos ao investimento em "startups" e fomentada uma cultura menos avessa ao risco, assim como o aparecimento de "clusters" de inovação semelhantes aos existentes nos EUA.

 

Por último, a Europa tem de acolher verdadeiramente a "Indústria 4.0", que requer a integração das indústrias da informação e internet no restante tecido industrial. A Europa está atrasada neste campo: nenhuma das maiores 10 empresas de TI são europeias. Aqui deve estar o foco da Europa e tal como na anterior revolução industrial, a competitividade industrial deverá sofrer um grande aumento.

 

Para aproveitar as oportunidades existentes é no entanto necessário estar bem preparado: as distintas realidades dentro da Europa criaram grupos de países em estágios diferentes. Se Portugal quiser posicionar-se para beneficiar desta revolução, tem de agir rapidamente! Está neste momento entre os países com menor preparação, arriscando-se a "perder o barco".

 

A Europa e Portugal têm as condições para se reindustrializar e manter-se um líder mundial, mas para isso terá de trabalhar e investir fortemente nos próximos anos.

 

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mais votado violas 14.07.2014

Depois de cavalo morto cevada ao rabo.

A destruição do setores industrial e pordutivo é fácil, cavaco que o diga. Reergue-los, se for possível, vai demorar várias gerações.
Até lá vamos continuando a endividar-nos e a empobrecer.javascript:void(0);

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violas 14.07.2014

Depois de cavalo morto cevada ao rabo.

A destruição do setores industrial e pordutivo é fácil, cavaco que o diga. Reergue-los, se for possível, vai demorar várias gerações.
Até lá vamos continuando a endividar-nos e a empobrecer.javascript:void(0);

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