Daniel Traça
Daniel Traça 29 de agosto de 2018 às 10:00

A humanidade da tecnologia

Numa competição recente entre uma equipa de advogados e um algoritmo de inteligência artificial para detetar vulnerabilidades jurídicas em acordos de confidencialidade, o algoritmo detetou 95% dos problemas contra os 88% dos advogados.

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O potencial do desenvolvimento tecnológico das próximas décadas para tornar realidade a sociedade da abundância, onde todas as necessidades essenciais da população são satisfeitas a custos muito baixos, é a promessa dos tecnólogos futuristas de Sillicon Valley. Por exemplo, segundo Ramez Naan, da Singularity University, o custo de produção de energia eólica e solar diminuiu, 15 e 250 vezes (respetivamente) desde o princípio dos anos 80. E, em conjunto com o desenvolvimento da tecnologia de baterias, estas tecnologias exponenciais prometem, segundo o perito, uma era de energia abundante num futuro muito mais próximo do que o previsto ainda há poucos anos.

 

Ramez Naan, bem como outros importantes visionários, estiveram reunidos na semana passada na conferência da Singularity University, em São Francisco, para falarem das promessas das tecnologias exponenciais e da sociedade da abundância. No entanto, este ano, o tom do encontro foi diferente do tradicional. A conversa mudou de foco: da tecnologia para as pessoas. O fio que conduziu todas as conversas foi o papel que cada um de nós, enquanto cidadãos, líderes, trabalhadores, pais e mães teremos de assumir para assegurar que a distopia que temos vindo a sentir como ameaça nos últimos anos fique apenas pelos ecrãs das produções de Hollywood. E que consigamos encontrar, como humanidade, uma forma de nos reinventarmos para assegurar que inteligência artificial, energia renovável e baterias, impressão 3D, "blockchain ou quantum computing" possam criar uma sociedade da abundância que seja para todos.

 

Primeiro, surgiram as referências aos malefícios da overdose tecnológica, sobretudo das redes sociais. O Facebook afinal já não promove transparência e democracia. É fator de subversão democrática e de alienação neurológica, desligando o cérebro e criando habituação, segundo estudos recentes. E apesar de o pecado não ser da tecnologia, a responsabilidade dos criadores e fundadores que a divulgam sem se preocuparem com as implicações não passou despercebida: Mark Zuckerberg é o novo vilão da comunidade! A proposta foi a de nos focarmos nos problemas historicamente insolúveis que, alavancando a tecnologia, conseguiremos resolver; problemas reais que afetem seres humanos e o planeta.

 

Segundo, a ansiedade e o medo que esta transformação digital está a causar em todos os setores da economia foram também o foco de muitas das intervenções. As implicações para a desigualdade e para o modelo tradicional que associa o trabalho, cada vez mais sujeito à automação, ao rendimento da classe média foram reconhecidas como o maior desafio. E a noção de que a educação resolverá todos os problemas está longe de reunir consenso, pois mesmo tarefas atualmente desempenhadas por graduados do ensino superior estão já a ser automatizadas. Numa competição recente entre uma equipa de advogados e um algoritmo de inteligência artificial para detetar vulnerabilidades jurídicas em acordos de confidencialidade, o algoritmo detetou 95% dos problemas contra os 88% dos advogados. Conseguiu fazê-lo em menos tempo também, tendo demorado 22 segundos a completar a tarefa contra os 90 minutos que as equipas humanas demoraram.

 

Deste modo, a transformação digital da humanidade implica uma alteração fundamental das competências que serão relevantes. A abordagem atual, que se tem focado nas competências que permitem alavancar a tecnologia (como a capacidade de programar e gerir os robôs) e nas que hoje são mais difíceis de automatizar (como a criatividade, a empatia e a capacidade de resolver problemas e tomar decisões), continuam a reunir algum consenso. No entanto, alguns futuristas são mais radicais, argumentado que o futuro será não daqueles que resolvem problemas, mas dos que fazem as perguntas; que regressam ao "ser humano explorador". Este será um desafio apaixonante para a universidade do futuro, que implicará um retorno à sua origem no século XVI.

 

Por último, o desafio maior será existencial e implicará a capacidade de encontrar sentido para ser humano nesta sociedade de abundância. Neste novo mundo, caberá a cada um definir o seu próprio propósito, a sua Estrela do Norte e desenvolver a determinação e a coragem que permitam manter sempre a fidelidade a esse caminho. Em suma, os peritos da Singularity University propõem, a esta sociedade da abundância, uma humanidade responsável no uso e na divulgação da tecnologia, que se deve sempre empenhar  em resolver os problemas e explorar o desconhecido, com um propósito e uma coragem reencontradas para essa missão. Para quem cresceu a ver o capitão Kirk e o almirante Spock a bordo do Enterprise, a inspiração é óbvia. Agora falta mostrar que somos capazes. Como incentivo último para agir,… imaginem a alternativa.

 

A Nova SBE, a Beta-i e a Câmara Municipal de Cascais criaram a SingularityU Portugal, que conta como parceiros a Galp, a Ageas e a Semapa, e que organizará o seu primeiro evento a 8 e 9 de outubro no Campus de Carcavelos.

 

Professor na Nova SBE

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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