José Paulo Esperança
José Paulo Esperança 11 de setembro de 2018 às 20:00

O desafio do cicloturismo

O turismo consolidou-se como a principal atividade económica do país. Durante os anos da crise, continuou a crescer a um ritmo apenas semelhante ao do PIB chinês, em contraciclo com a economia nacional.

A balança comercial e o emprego, direto e indireto, por exemplo na construção civil, não poderiam equilibrar-se sem o contributo deste setor.

 

No entanto, o ritmo de crescimento dá sinais de desaceleração, agora que os principais destinos rivais recuperam da insegurança que os afetou tão drasticamente: Norte de África, Médio Oriente e Turquia já readquiriram parte da quota natural. Um segundo problema resulta da elevada assimetria do turismo nacional. Enquanto os destinos tradicionais, Madeira, Algarve, e os grandes centros urbanos, concentram uma elevada quota do turismo nacional, interno e externo, com desconforto percetível para os residentes, o resto do país é ainda largamente ignorado.

 

A captação de novos segmentos de turistas e a fidelização dos atuais passa pelo alargamento da gama de produtos. O turismo da natureza com observação da fauna, flora e paisagens, constitui uma oportunidade pouco explorada apesar do sucesso recente dos organizadores de caminhadas. Outras atividades com elevado potencial são o turismo equestre e o cicloturismo, sendo possível alguma partilha de percursos e infraestrutura. Em 2017, a maior feira de turismo do mundo (ITB Berlim) foi dedicada ao turismo sustentável e de aventura, com ênfase especial no cicloturismo, incluindo também o astro-turismo (contemplação noturna dos astros).

 

Um exemplo inspirador é o da rede ciclável ao longo do rio Danúbio, particularmente no percurso de cerca de 350 km entre Passau, Alemanha, junto à fronteira com a Áustria, e Viena. Inicialmente ignorado pela maioria dos autarcas da região, o empenho do governo austríaco acabou por permitir a criação de um dos mais populares destinos de cicloturismo do mundo. Rodeada de montanhas e florestas, a ciclovia é extraordinariamente plana dado que é construída junto às duas margens do rio, tirando partido dos caminhos existentes desde o tempo dos romanos, usados para rebocar embarcações a partir das margens. É um percurso muito fácil, ideal para famílias com crianças pequenas. A travessia entre margens é assegurada por pontes ou pequenos barcos. As raras subidas para acesso às pontes são suportadas por rampas em caracol que mesmo os principiantes sobem sem se descer da bicicleta.

 

Esta atividade é um excelente exemplo de apoio do setor público ao espírito empreendedor. O esforço do governo e das autarquias na construção e manutenção da infraestrutura, permitiu o desenvolvimento de um ecossistema em que o alojamento, a restauração, o aluguer de bicicletas, o suporte ao transporte de bagagens e a oferta de numerosas atrações complementares se desenvolveram em paralelo.

 

No entanto, o Danúbio é um rio poluído onde poucos se aventuram a tomar banho. Em comparação, Portugal possui condições naturais de que não sabemos tirar partido. É fácil imaginar o potencial de uma ciclovia dedicada junto à costa portuguesa. São mais de 1.000 km com centenas de praias e paisagens deslumbrantes. Enquanto a costa algarvia já dispõe de uma ciclovia razoável, embora pouco promovida, e existam outros troços junto ao mar, por exemplo no distrito de Leiria, a costa atlântica ocidental, do Minho ao Algarve, carece da visão e coordenação que permitam a construção de uma ciclovia contínua, com apoio de barcos na travessia dos grandes rios. Um segundo destino, paralelo, com grande impacto no desenvolvimento do interior do país, seria a construção de uma ciclovia junto à fronteira com Espanha, entre Miranda do Douro e Vila Real de Santo António. Este percurso de mais de 700 km, menos fácil, acompanharia o leito de rios - Douro, Côa, Guadiana -, dezenas de castelos e aldeias antigas, paisagens naturais em estado puro e noites sem nuvens para contemplação dos astros. Será possível persuadir centenas de presidentes de Câmara a desligar a iluminação pública e congregar esforços, entre o governo e as autarquias, que permitam a construção de uma rede integrada de ciclovias?

 

Diretor da ISCTE Business School

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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