Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 21 de Novembro de 2016 às 20:55

Não deixemos que o populismo nos leve a democracia representativa

O sucesso do discurso anti-sistema não se fica pelos resultados dos populistas, já de si assustadores, mas vai ao ponto de nos impor as respostas com que o pretendemos combater. É como se fosse o inimigo a escolher as armas com que o pretendemos derrotar.

É o que sucede com os mecanismos de democracia directa, vistos como resposta eficaz ao populismo, um instrumento de aproximação dos cidadãos à política: se as pessoas não se identificam com os políticos ou com as dezenas de partidos que existem, então devolva-se-lhes a palavra em referendos, em directas, em plenários.

 

Sucede que a democracia directa confirma, não combate, o discurso anti-sistema. Ela fortalece a ideia de que o mundo se divide entre políticos e pessoas, entre sistema e pessoas: de um lado, os interesses, os corruptos; do outro, as pessoas, as vítimas.

 

Há muito a fazer, muito mesmo, na aproximação entre eleitos e eleitores, entre cidadãos e instituições - um trabalho sem termo. Mas uma coisa é criar mecanismos de transparência e de participação, melhorando a democracia; outra, bem distinta, é pôr em causa alguns dos seus fundamentos, cedendo aos pressupostos dos populistas.

 

É que a democracia directa apela implicitamente a pressupostos que me preocupam: as eleições não traduzem bem o sentir das pessoas, os políticos não servem para decidir, os resultados eleitorais respeitam-se até a rua impor outros, os mais fracos não estão representados pelos partidos.

 

Se aceitarmos esses pressupostos, colocamos em causa a democracia representativa, que tem os seus ritmos e os seus procedimentos também, para assegurar a ponderação das decisões, o respeito das minorias, a existência de oposição, a possibilidade de reversão de políticas, a não absolutização de conjunturas momentâneas, a garantia de alternância, a consciência de uma complexidade que escapa ao mundo binário.

 

E esses ritmos, que podem parecer lentos num mundo em que notícias falsas fazem as vezes da verdade, em que caixas de comentários julgam factos ao segundo, em que indignações se geram diariamente, são esteios de uma sociedade tolerante, aberta à diferença, em que há espaço para alternativas. 

 

É uma ilusão pensar que os populistas desaparecem se adoptarmos mecanismos de democracia directa. É exactamente o contrário: os populistas fazem-se, impõem-se, nesse estilo de mecanismos. É por isso que qualquer populista se pela por uma democracia directa. Em Espanha, o Podemos não ganha eleições e por isso diz que os políticos não representam "la gente"...

 

No mundo em que vivemos - de informação circular, nem sempre verdadeira, nas redes sociais - existe melhor instrumento para a instrumentalização das indignações, para a manipulação das massas, para a imposição de totalitarismos, do que a democracia directa?

 

Se prescindirmos dos ritmos, tempos e procedimentos da democracia representativa, que podem parecer lentos para o mundo das redes sociais, acabaremos num sistema em que a discussão política se transforma numa enorme caixa de comentários, em que as decisões são tomadas ao ritmo de "likes", em que momentâneas indignações alimentam políticas públicas, em que complexos problemas são tratados como simples questões de bem ou de mal, em que o circunstancial ressentimento arrasta um país para decisões imponderadas.

 

São esses ritmos e esses tempos e esses procedimentos da democracia representativa que nos protegem dos totalitarismos. Seria bom preservá-los na hora de propor medidas que aproximem eleitos de eleitores.

 

Advogado

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Guerra Há 1 semana

Sabe o que eu gostava? era de saber quando voto num Partido, saber qual é o deputado que me está a representar na A.R., e que foi eleito com o meu voto, para eu poder ir junto dele, questionar, interrogar, discordar e até levar um qualquer assunto individual ou colectivamente à A.R. isso eu gostava!

Anónimo Há 2 semanas

Os social média foi a melhor coisa que aconteceu a democracia - tudo está a ser julgado, diariamente. Sobre tudo, é de facto cada vez mais difícil "controlar" a sociedade pelos grupos pequenos, interligados, como a família Portas, com um irmão no CDS e outro no Bloco. Este mundo morreu, felizmente.

Anónimo Há 2 semanas

Para quem quer avaliar a que ponto chega o populismo neste país, é esclarecedor ver o "nível" da maioria dos comentários que se aglutinam neste jornal.

Vitor Há 2 semanas

Populismo é a direita passar a vida a dizer que quer ajudar os pobrezinhos e os reformados miseráveis. É o CDS dizer que não se vai a lado nenhum com salários baixos e nem por uma vez votar SIM ao aumento do salário mínimo.

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