Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 16 de maio de 2017 às 19:57

Negociar sem greves?

A negociação do conflito entre Governo e médicos resultou numa greve na semana passada, prejudicando muitas pessoas.

Idealmente, as situações de conflito deveriam resolver-se através da abordagem de conciliação de interesses, procurando maximizar os interesses das partes em conflito (pode traduzir-se pela abordagem "win-win"). Embora eu o ensine e aplique em projetos de consultoria e em empresas, também analiso outras duas abordagens de resolução de conflitos - pelo "direito" e pelo poder.

 

No primeiro caso, procura-se resolver os conflitos com base na aplicação do "direito" (por exemplo, legislação, regulamentos, tradição, precedentes). Se uma das partes quer resolver a situação deste modo, esta abordagem sobrepõe-se à dos interesses.

 

Contudo, no segundo caso, a abordagem do poder ainda se sobrepõe às demais. Por exemplo, uma entidade poderosa toma uma decisão contrariando o "direito" e os interesses dos outros, numa abordagem "win-lose". Ora, o uso do poder geralmente leva a que a outra parte também responda usando do seu poder, e, nesses casos, pode levar a situações "lose-lose".

 

No caso da greve, há (com exceções) uma situação de "lose-lose" no imediato (a entidade empregadora perde receitas e os trabalhadores perdem salário). Então porque há greves? Sendo geralmente legais, e, por vezes, justas, os trabalhadores recorrem à greve porque (entre outros) acham que, ao mostrarem que têm mais poder do que os empregadores pensavam, vão beneficiar a sua causa no longo prazo. Não me focando em setores específicos, o envolvimento de outras partes no conflito (por exemplo, clientes/utentes, comunidades, media) pressiona as partes a chegar a acordo.

 

Mas se no fim poderá haver um acordo que procura satisfazer interesses das partes, porque perderam entretanto dinheiro (entre outros) com a abordagem "lose-lose"? O empregador eventualmente considerava que os trabalhadores tinham menos poder do que a realidade demonstrou, ou pelo contrário, os trabalhadores não têm o poder que inicialmente pensavam ter, acabando um ou outro (ou ambos) por sair prejudicados no final face às expetativas que tinham.

 

Será que, em vez de medirem o poder uns dos outros numa atitude "win-lose" ou "lose-lose", a satisfação dos interesses das partes não seria uma melhor abordagem para ambos?

 

Gestor e docente convidado do ISCTE-IUL

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Invicta 17.05.2017

E como sempre, os prejudicados, foram terceiros - os utentes - que nada tem a ver com politiquices e aproveitamentos. Um aparte: alguém deu pela greve a não ser os prejudicados? Foi noticiada na comunicação social com os alaridos de antigamente, digo, anterior governo?

Não há paciência 17.05.2017

Caro autor a greve dos médicos prejudicou muitas pessoas? E nós médicos que fomos prejudicados ficamos impávidos? Quer o fim dos sindicatos? Portugal seculo XXI

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