Paulo Carmona
Paulo Carmona 23 de Novembro de 2016 às 20:25

Nós sabemos, mas não queremos saber

Portugal é uma sociedade economicamente muito conservadora. Adormecidos por meio século de salazarismo castrador seguidos de 40 anos de um estatismo distributivo, nem as recessões são violentas nem o crescimento é notável.

A FRASE...

 

"Os riscos parecem contidos desde que as medidas orçamentais necessárias para os conter estejam garantidas."

 

Pierre Moscovici, Diário de Notícias, 17 de novembro

 

A ANÁLISE...

 

Nós sabemos que a situação na Europa e em Portugal é instável. Sabemos que no fundo andamos preocupados com o défice e que temos uma enorme dívida acumulada. Pagar a dívida vai ser complicado, não a pagar será pior, entalados entre os juros do presente e os impostos do futuro.

 

E sabemos que o crescimento tem sido muito fraco, abaixo da média europeia nos últimos 16 anos e que todos os anos nos afastamos, empobrecendo, dos nossos parceiros europeus. Sabemos que a gestão económica dos governos nesses 16 anos e os seus fracos resultados nos deviam revoltar, mas no fundo não queremos saber.

 

Alguns estrangeiros dirão que temos falta de ambição, salvo muitas e honrosas exceções, ou que estamos adormecidos, mais preocupados com a distribuição do pouco que temos do que em criar mais riqueza. Custa-me a acreditar, mas depois lembram-me daquela anedota famosa e recorrente. "Para quê trabalhar mais? Ora, para ganhar mais dinheiro. E o que faria com mais dinheiro? Podia fazer como os estrangeiros e vir passar férias a Portugal. É o que faço…" Desde que não haja muita gente a ganhar mais do que eu, e não saia do país e me envergonhe com o dinamismo de outras terras e outras gentes, consigo viver sem grandes mexidas na minha vida e no meu emprego. Será? Difícil de engolir.

 

Portugal é uma sociedade economicamente muito conservadora. Adormecidos por meio século de salazarismo castrador seguidos de 40 anos de um estatismo distributivo, nem as recessões são violentas nem o crescimento é notável. Sabemos que para crescer temos talvez de sair da nossa zona de conforto, seguir outros modelos económicos, como a Europa de Leste que nos ultrapassa em criação de riqueza ou a nossa rival e vizinha Espanha. Sabemos, mas não queremos saber, só talvez se nos obrigarem…

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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mais votado surpreso Há 2 semanas

Vamos andando, nesta vigarice

comentários mais recentes
Ciifrão Há 2 semanas

As recessões não são violentas porque estamos sempre perto do chão, assim a queda é pequena.

surpreso Há 2 semanas

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