André Macedo
André Macedo 10 de dezembro de 2017 às 20:27

O algoritmo de Bruxelas

O acesso que Centeno terá aos burocratas de Bruxelas para calibrar as reuniões e etc. torna inevitável um certo grau de conhecimento e, quem sabe, até de alguma cumplicidade. (...) Portugal ficará a conhecer o algoritmo da Zona Euro e isso é uma vantagem importante.
Durão Barroso foi presidente da Comissão Europeia durante dez anos. Levou de Bruxelas não apenas uma certa ideia do mundo. Ficou a conhecer por dentro a máquina burocrática da União Europeia, os ocupantes políticos dos cargos -- transitórios como ele --, mas também os funcionários que mandam nas instituições e dão forma às políticas que condicionam o dia a dia.

Durão Barroso escolheu aplicar este conhecimento ao serviço da Goldman Sachs. Poderia ter feito outra escolha -- por exemplo, mantendo-se de alguma forma ligado às políticas públicas --, mas como tantos outros políticos com pegada internacional preferiu dedicar-se à acumulação privada de capital. Ganhou ele, financeiramente. Perdeu o país, institucionalmente.

Apesar de já quase não ouvirmos falar deste antigo primeiro-ministro português, o banco de investimento norte-americano estará a fazer bom uso do arsenal de informação que ele levou consigo.

O que me leva a Mário Centeno. Em vez de nos preocuparmos com o sorriso do nosso ministro das Finanças ou tentarmos imaginar os novos problemas que o cargo tratará às relações entre o Governo e o Bloco+PCP ou ainda se o cargo o vai consumir damasiado, talvez faça sentido começar por destacar o extraordinário acesso a informação que ele vai ter como líder do Eurogrupo e os benefícios que isso pode trazer ao país. Hoje e no futuro.

Por exemplo, Mário Centeno ficará finalmente a saber - entre muitas outras coisas - como é que os serviços comunitários calculam o diabólico défice estrutural, eterna fonte de chatices e dúvidas para Portugal. Centeno não terá qualquer poder hierárquico sobre a máquina de Bruxelas -- o Eurogrupo é um não-órgão, é apenas uma manifestação política sem validação formal, embora com poder de fogo --, mas o acesso que o ministro das Finanças terá aos burocratas de Bruxelas para calibrar as reuniões e etc. torna inevitável um certo grau de conhecimento e, quem sabe, até de alguma cumplicidade.

Espantosamente, apesar da Zona Euro ser uma sopa de regras para tudo e nada, muitas delas são guardadas como uma espécie de fórmula mágica da Coca-Cola. Informação é poder e o poder não se oferece. Centeno já se queixou inúmeras vezes desta histórica opacidade europeia, mas até agora não podia fazer nada, exepto lamentar-se. Como cumprir as metas financeiras se os cálculos que lhe são inerentes permanecem um mistério? Como contestar os números se ninguém sabe ao certo como foi que se chegou a tal conclusão?

Ora bem, Portugal ficará a conhecer o algoritmo da Zona Euro e isso é uma vantagem importante. Para um país tão fracamente representado na burocracia europeia por onde passam os assuntos-chave, esta eleição de Mário Centeno não apaga esta ausência que nos põe muitas vezes em desvantagem face a outros países, mas ajuda a compensar.
Depois, claro, virá o dia seguinte: o que fazer com esta experiência quando o mandato caducar? É também aqui Portugal tem de aprender a aproveitar a experiência, encontrando formas de não repetir o que aconteceu com Durão Barroso. São cargos muito diferentes, são pessoas diferentes, mas desperdiçar conhecimento é não entender que a Europa também se faz de nacionalidades.

*Jornalista

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