Jorge Marrão
Jorge Marrão 14 de dezembro de 2016 às 07:00

2016: A fragmentação política

A retórica política é hoje usada para uma recíproca culpabilização partidária, para agradar a uma opinião pública descrente no funcionamento da democracia parlamentar.

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A esquerda digital, a antiagrária e sindical e o velho socialismo uniram-se nos finais de 2015 para dar um Governo estável a Portugal. O atual Presidente da República era eleito com a promessa de desdramatizar uma situação estranha de coligação parlamentar entre PS/PCP/BE, que lentamente se entranhou na vida dos portugueses.

 

Na Grécia, os inconformistas de esquerda de outrora, que tentaram abalar o edifício do euro, ou sugerir uma disciplina orçamental e monetária mais flexível, já se tinham treinado em seguir à risca as regras europeias. Ninguém à esquerda se resignou genuinamente, mas todos aceitaram viver com a constituição política e monetária europeia, resmungando contra ela apenas quando é necessário apelar à sua ideologia original.

 

Todavia, o que consideram inamovível no seu pequeno país - a sua Constituição - pretendem que, na Europa a 28, seja móvel. Se a incongruência lhes der votos, é melhor segui-la. A oposição discursiva entre o que é nacional e europeu não tem tradução na prática política. O nacionalismo político perde contra o federalismo do dinheiro. É uma forma de fazer política que trará consequências nefastas a seu tempo: o projeto europeu torna-se assim incompreensível para as populações. O arrependimento de Cameron deve ser grande: deu o veneno que não queria para si.

 

Espanha enredou-se em possibilidades de escolhas governativas e levou à exaustão o processo de consulta da democracia representativa com sucessivas eleições: todos queriam ser governo à sua maneira, e poucos compreenderam que interesses as diferentes forças representavam, ou porque não chegavam a acordo. Os partidos abandonaram a sua função de representação de interesses da sociedade para se tornarem máquinas de chegar ao poder. A democracia enfraquece-se assim também desta forma.

 

O anjo salvador dos endividados do Sul foi o BCE, e ainda bem. Este entendeu, na transição, o seu papel na estabilidade do valor da moeda e dos regimes políticos. Refletiu sobre as restrições políticas orçamentais, aliviando o sistema bancário. Este foi o instrumento dos regimes políticos dos elevados endividamentos público e privado. Interpretou que a austeridade orçamental como conceito tecnocrático de gestão da coisa pública estava a colidir com o "status quo" das sociedades, cujos interesses e modos de vida se ancoraram na abundante poupança externa alheia.

 

Como bem refere Innerarity no seu último livro, as novas democracias diretas das redes sociais oscilam agora entre preferências tecnocráticas, populismos de esquerda e direita, justicialismo mediático e funcionalismo político. Nas redes sociais, e acompanhada pelos media tradicionais e fugas de informação do sistema de justiça, a classe política é arrasada por incompetente, corrupta e dependente de interesses. Estes não se conseguem descortinar facilmente.

 

Os parlamentos e os partidos desacreditam-se porque ao invés de fazerem política com ideologia apenas pretendem chegar ao poder. O que fazem com este é o que pode ser, e não o que deveria ser. A retórica política é hoje usada para uma recíproca culpabilização partidária, para agradar a uma opinião pública descrente no funcionamento da democracia parlamentar.

 

Não há mobilização por projeto de vida coletivo em debate permanente. A preferência é o pragmatismo incoerente. Pululam hoje nos processos decisórios um conjunto de indivíduos e instituições que dizem que estão contra a decisão X, mas votam a seu favor. O que se defende no poder não é o que se defende na oposição: para credibilizar estas mudanças os partidos sacrificam permanentemente atores. Nos Estados Unidos, nas sondagens, a autenticidade era mais apreciada no caráter do futuro Presidente do que o profissionalismo da candidata perdedora.

 

As sociedades estão hoje irremediavelmente fragmentadas por diferentes interesses e ambições, mas também por novos problemas. No sistema político, a fragmentação partidária irá ocorrer, sem que os partidos tradicionais percebam como manter a sua relevância política, sem criar uma descrença na democracia representativa e nas ideologias que professam.

 

Gestor

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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mais votado Anónimo 14.12.2016


O TC também deve aplicar as mesmas regras aos trabalhadores privados e aos públicos.

Em vez disso, decide sempre roubar os privados para dar mais dinheiro e privilégios aos públicos.

comentários mais recentes
Anónimo 14.12.2016


OS FP / CGA SÃO TODOS LADRÕES

O défice orçamental do OE 2017, é de 3016 milhões de Euros...

e o buraco anual das pensões dos FP / CGA em 2017, é de 4600 milhões de Euros.

CONCLUSÃO: SÓ EXISTE DÉFICE EM 2017, DEVIDO AO BURACO DA CGA!


Anónimo 14.12.2016


O TC também deve aplicar as mesmas regras aos trabalhadores privados e aos públicos.

Em vez disso, decide sempre roubar os privados para dar mais dinheiro e privilégios aos públicos.