José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 18 de dezembro de 2016 às 16:33

2016: A revolução do ocidente

No decurso de 2016, o mundo político ocidental foi sacudido por abalos sísmicos que apanharam de surpresa uma classe dirigente impreparada para lidar com as réplicas que se vão sucedendo.

Perante a revolução que vai conquistando país a país, em cadência metrométrica, as elites governativas esmorecem resignadas, convencidas de que tudo se resume ao inexplicável surgimento de um populismo epidémico que se abateu sobre as democracias modernas qual praga bíblica sobre o Egipto faraónico.

São inúmeras as teses que se propõem justificar a massiva contestação ao modelo de organização política e económica vigente, mas poucas glosam sobre o óbvio: o modelo esgotou-se e já não serve ninguém além dos anéis que se formaram em torno dos aparelhos de poder e dos nichos que por interesse ou ideologia mantêm fidelidade ao "status quo". Cada vez mais, o cidadão comum ocidental clama por mudança: não no sentido em que é matraqueada nas campanhas eleitorais, mas no da concretização de políticas que promovam dinamismo económico e restabeleçam a coesão social, num quadro de respeito pelos fundamentos humanistas da civilização ocidental, mas sem relativismos nem concessões excessivas ao politicamente correto.

As massas descontentes não sabem bem o que querem, mas sabem muito bem o que não querem. Esta circunstância propicia o aparecimento de extremismos, que a história do último século mostra resultarem amiúde em derivas totalitárias. Neste enquadramento, a responsabilidade de evitar males maiores recai sobre as forças políticas que bebem da tradição humanista ocidental. Mas para que estas colham o necessário mandato democrático têm de começar a escutar ativamente o eleitorado, sob pena de repetição do que ocorreu no Reino Unido e nos EUA, em 2016, na Europa continental, em 2017.

A este propósito refira-se que se a chanceler Merkel tivesse consultado o Eurobarómetro saberia que as duas maiores aflições dos europeus são a imigração e o terrorismo e que, portanto, escancarar as portas da Alemanha aos refugiados sírios seria convocar o génio do nacionalismo, até então contido dentro da lamparina política alemã. O erro de Merkel foi não perceber que a oposição à absorção de imigrantes não-europeus não se cingia às fações xenófobas, mas que cortava transversalmente uma sociedade alemã assustada com explosão do terrorismo na Europa e frustrada com o efeito desagregador da política de multiculturalismo.

Outro tema que se tem mostrado extremamente sensível entre os eleitorados ocidentais é a globalização: nos EUA, ao nível dos tratados de comércio internacional; na Europa, ao nível do processo de integração comunitária. Em ambos os casos estão em causa decisões que são sempre tomadas à margem do processo de democrático e que são cada vez mais contestadas pelas populações nacionais. Em particular, na Europa criou-se uma situação insustentável em que todos os países estão descontentes com as soluções encontradas para a crise financeira. O centro aconselha austeridade, a periferia propõe solidariedade; os países que mais poupam auferem juros negativos, mas os mais endividados pagam juros incomportáveis.

Em todas estas questões, o debate esquerda-direita é completamente irrelevante porque não oferece alternativas à ortodoxia vigente, abrindo caminho para os partidos que se colocam à margem do centrão que dominou a política ocidental nos últimos 60 anos.


Está em curso uma revolução no Ocidente de desfecho incerto e muito arriscado, mas dos poderes instalados não se vislumbra qualquer reação. 
 

 

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
xx2 18.12.2016

Mas senhor se está em curso uma revolução e os poderes instalados estão no seu sitio tal e qual ,então a coisa fica-lhe ao lado mas como são eles o poder vamos ficar com 2 galos no mesmo poleiro?