Paulo Carmona
Paulo Carmona 21 de Dezembro de 2016 às 07:00

2016: Carpe Diem

2016 apresentou ao mundo uma fórmula de governo nunca antes testada em Portugal. Uma solução baseada na sobrevivência e taticismo políticos, na união de antis, anti o governo anterior, a austeridade financeira e as politicas desfavoráveis às respetivas clientelas.

Foi um ano que mostrou a habilidade politica de António Costa, a gestão dos apoios e equilíbrios improváveis em combate politico total e permanente, usando e abusando da comunicação na sua própria interpretação da realidade.

No entretanto, sabendo que os seus aliados de hoje possuem os eleitores que poderão ser seus amanhã, tem-los presos num abraço de urso de onde dificilmente sairão, ou conseguirão explicar porque saíram. Mesmo as sondagens têm mostrado que o PS cresce sobretudo por conta duma baixa dos partidos que apoiam a coligação. É de mestre e um bem que presta à democracia. Trouxe os partidos de protesto, potencialmente perigosos, dados o populismo, os sonhos e a demagogia serem fáceis e baratos em momentos como o atual, para dentro do jogo democrático. A um deu o aroma do poder e ao outro uma mão para a sobrevivência e contra o declínio.


António Costa sabe que a sua estratégia só poderá ser derrotada por um ataque agudo de realidade. A mesma que chamou a troika e a dita austeridade que agora combate. Ou seja, o risco está no fraco crescimento económico com endividamento continuado, o peso acumulado da dívida e um aumento da taxa de juro e/ou suspensão das compras da nossa dívida pelo BCE. O primeiro-ministro acha que pode ter sorte em voltarmos a crescer, baixando o défice e afastando novo resgate, enquanto Passos Coelho não acredita nessa sorte e pressente o pior… o futuro dirá.

O optimismo do início do ano sobre o crescimento, o investimento e as rubricas do orçamento, deram lugar ao realismo com que a meta do défice deveria ser obsessivamente mantida a todo o custo, o risco de toda a estratégia. As despesas do Estado foram assim "esganadas", por vezes para além do limite do seu funcionamento viável, incluindo algum investimento público, essencial para o emprego e crescimento futuro. E claro a tentação do aumento dos impostos indiretos… Os impostos indiretos são invisíveis e inodoros, tal como o gás butano, e matam quando em concentrações muito elevadas. A troika nunca quis nem deixou aumentá-los.

Diziam que diminuíam a competitividade e eram cegos, atingiam tanto os ricos como os pobres igualmente. Acreditavam que era melhor aumentar os impostos sobre os rendimentos mais elevados de forma a preservar socialmente os mais desfavorecidos. Na verdade, os impostos totais sobre o gasóleo foram aumentados num total 1,5% durante os 3 anos da troika. Desde que a troika saiu foram já aumentados 20%, porque são inodoros e permitem manter o discurso anti austeridade.

No final do ano mais um orçamento. E que passou facilmente com aquele abraço. E onde está a salvaguarda se algo falhar? Mais aperto no Estado? Só se entrar em safe mode… E, entretanto, passamos a capitalização "urgente" da CGD para o défice do próximo ano. Aumentamos o risco de poder correr mal… E no próximo ano já temos alto risco em Outubro, dependendo das eleições alemãs…. Esperemos que António Costa tenha sorte, para o nosso bem, porque a parada já vai muito alta…

O ano de 2016 foi um ano de graça e de candura. Estamos na mesma, austeros, mas mais felizes, com mais feriados e mais afetos… o investimento foi abaixo e o consumo está a ir ao crédito… não preciso de ser grande economista para não prever grande futuro… Oxalá nos enganemos.

Carpe Diem.

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