João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 08 de Novembro de 2016 às 00:01

A conspiração na América

Salvo a eleição improvável de uma maioria democrata no Senado, frente à Câmara de Representantes controlada por republicanos, Clinton terá escassa margem de manobra política e a vaga Trump far-se-á sentir à direita nos conflitos entre conservadores e radicais.

"Não pode acontecer aqui? Meus amigos, está a acontecer aqui."

A conspiração contra a América, Philip Roth (2004)

 

A maioria dos brancos norte-americanos acredita ter-se acentuado a discriminação contra si, enquanto a cultura e o modo de vida no país se degradaram desde os anos 50 e este sentimento pesa muito na eleição.

 

Para 56% dos brancos, meio século de mudanças sociais e culturais apresenta um saldo negativo e 57% consideram a discriminação antibrancos um problema tão grande quanto a discriminação contra negros e outras minorias, segundo dados recolhidos pelo "Public Religion Research Institute" de Washington.

 

Salvo o generalizado pessimismo quanto à direcção que leva o país (74% de apreciações negativas em 2016), as clivagens por sexo, raça, grupo étnico, educação, religião, rendimentos e orientação política são marcantes, conforme revela o inquérito "The Divide over America's Future: 1950 ou 2050?".

 

O declínio relativo do estatuto e condições de vida dos brancos, que entre os segmentos de qualificações mais baixas se traduziu em perdas de poder de compra em termos absolutos, revela-se em atitudes cada vez mais conservadoras, proteccionistas e xenófobas.

 

O ensimesmamento e a radicalização, contudo, são transversais, levando, por exemplo, apenas 20% dos negros e não-hispânicos a ter algum familiar ou amigo próximo disposto a votar Trump, percentagem que sobe para 42% entre hispânicos e 75% no caso de brancos não-hispânicos.

 

Todos os inquéritos sociológicos constatam, ainda, forte polarização na apreciação da concorrência e valor de mão-de-obra de origem estrangeira e do contributo de comunidades de emigrantes, quanto à necessidade de proteccionismo comercial ou em matéria de riscos de segurança pessoal e confiança nas forças de segurança.

 

A redução da oferta de mão-de-obra devido ao envelhecimento (os cidadãos de 65 anos ou mais representam 12,5% da população actualmente, prevendo-se que a percentagem aumente para 16% em 2020 e 19% no início da década seguinte) acarreta maior carga fiscal sobre as gerações activas que não vislumbram soluções de salvaguarda dos seus interesses.

 

Custos acrescidos do Medicare (cuidados de saúde pública para maiores de 65 anos) e da Segurança Social num quadro de divergências de fundo sobre a política fiscal e orçamental agudizam uma frustração geracional que no voto partidário tende a favorecer opções mais conservadoras enquanto o eleitorado sénior continuar a preponderar na participação eleitoral frente aos jovens.  

 

Estas tendências de fundo são exacerbadas pelo activismo de minorias radicais que condicionam candidaturas e exercem pressão constante sobre a actuação de republicanos e democratas no quadro de um sistema político disfuncional.

Uma lídima representante do "establishment" acabou, assim, frente a um demagogo racista e misógino cultor do pior da tradição populista norte-americana de contestação a elites corruptas.

 

Impasse e deslegitimização das instituições (sempre em crescendo e abarcando um leque cada vez maior de entidades, conforme demonstra a polémica sobre as decisões do director do FBI, James Comey) sobressaem da campanha.

 

Salvo a eleição improvável de uma maioria democrata no Senado, frente à Câmara de Representantes controlada por republicanos, Clinton terá escassa margem de manobra política e a vaga Trump far-se-á sentir à direita nos conflitos entre conservadores e radicais.

 

Uma eventual maioria republicana no Congresso e Trump na Casa Branca serão um teste aos freios e contrapesos do sistema. O desfasamento temporal entre a aplicação de decisões judiciais contrárias ao imediatismo de actos executivos e legislativos inconstitucionais poderá pôr em causa a ordem política.

 

O retraimento do intervencionismo na política externa de Washington, privilegiando alianças pontuais que evitem acções militares, é aspiração da maioria de estrategos democratas e republicanos que dificilmente singrará face às intransigências de potências regionais.

 

Muita frustração e fúria irão somar-se às desilusões dos anos Obama.

 

Tudo conspira para um desolador 8 de Novembro.

 

Jornalista

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Johnetta Há 1 dia

X 183I have had a tour of that facility. Nasty place, but undilvaaboe if you want to use fossil fuels. The control center is designed as a bomb shelter in case the place goes up. That way the controllers can still try to shut things down, and the workers have a safe place to take shelter.