Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 11 de dezembro de 2016 às 21:08

Marques Mendes: Negociações financeiras para a compra do Novo Banco terminaram na sexta-feira

A análise de Luís Marques Mendes ao que marcou a última semana da vida nacional e internacional. Os principais excertos da sua intervenção na SIC.

O FUTEBOL PORTUGUÊS NA EUROPA

 

  1.       Esta semana, em matéria de competições europeias, conseguimos o melhor e o pior:

a)      O melhor – Dois clubes portugueses (Benfica e FCPorto) passaram aos oitavos de final da Liga dos Campeões. Em 24 anos de Liga dos Campeões só uma vez tinha acontecido. Em 2008/2009, em que passaram Sporting e Porto. Ou seja, uma boa notícia.

b)      O pior – Não temos nenhum clube na Liga Europa (o Braga ficou pelo caminho). Há mais de 10 anos que isto não sucedia. Logo, uma má notícia.

 

  1.       Por que é que isto é importante? Por causa do ranking europeu.

a)      Portugal está em 6º lugar no ranking europeu. Mas a Rússia, que ocupa a 7ª posição, está muito próximo de nós;

b)      O problema é que:

  •          Até ao 6º lugar, Portugal garante 3 clubes na Liga dos Campeões. E isso é bom para o prestígio do futebol português e para as finanças dos nossos clubes;
  •          Se descermos para a 7ª posição, deixamos de ter 3 clubes na Liga dos Campeões a passamos a ter apenas 2. Empobrecemos o futebol português.

 

A FUGA AO FISCO DOS JOGADORES DE FUTEBOL

 

As revelações feitas pelo Expresso no âmbito do Football Leaks mostram, uma vez mais, as manobras dos grandes jogadores de futebol (e dos seus agentes) para fugirem ao fisco, sobretudo pelo recurso aos célebres paraísos fiscais. Conclusões a tirar:

 

  1.       Primeiro: este é um fenómeno transversal nas sociedades modernas – as grandes fortunas e as empresas tudo fazem para fugir ao pagamento de impostos. Isto aplica-se a futebolistas e a não futebolistas.

 

  1.       Segundo: aos olhos dos cidadãos, o futebol é um mundo à parte. Um exemplo: oerante um político ou um empresário que foge ao fisco, o sentimento da sociedade é o de indignação e de revolta. Perante um jogador de futebol é de indiferença ou até de compreensão.

 

  1.       Terceiro: este critério de dois pesos e duas medidas é um absurdo. Pode-se gostar muito de futebol. E ter os nosso ídolos. Mas a sociedade devia ser mais exigente e menos reverente com futebolistas que fogem ao fisco. E os atletas, verdadeiros ídolos para multidões, deveriam ser mais escrupulosos no cumprimento das suas obrigações.

 

  1.       Finalmente: tudo isto nos reconduz ao mundo das offshores. Dos paraísos fiscais. Enquanto este mundo existir, estes exemplos não terminarão. É certo que a situação já melhorou. Mas o vício essencial mantém-se. E há uma conclusão incontornável: estas "manobras" até podem ser legais mas não deixam de ser imorais e eticamente indefensáveis.

 

PASSOS CONTRA MARCELO

 

  1.       Esta foi a semana em que Passos Coelho resolveu fazer mais algumas críticas indirectas ao Presidente da República (por causa do feriado do 1º de Dezembro e por alegados apoios de Marcelo ao Governo).

 

  1.       Esta prática do líder do PSD é um erro para o próprio e para o partido.

a)      Primeiro: é não ter a noção de quem é o seu adversário principal. O adversário do líder da oposição é o Primeiro-Ministro. Não é o Presidente da República. Ele concorre para ser Chefe do Governo e não Chefe de Estado. Ao criticar Marcelo, Passos Coelho faz o jogo de António Costa. O PM esfrega as mãos de contente.

b)      Segundo: é combater com armas desiguais. O PR está noutro patamar. Joga noutro campeonato. Tem outra popularidade, outro estatuto e outro prestígio. Assim, no momento em que o líder da oposição critica o Presidente, ainda por cima da mesma área política, só fica a perder. É meter um golo na própria baliza.

c)      Terceiro: critica-se o PR por estar ao lado do Governo. Mas é preciso ter em atenção:

         - Nos primeiros anos dos mandatos, todos os Presidentes cultivam uma boa relação com os governos (foi assim com Soares, Sampaio e Cavaco);

         - Mesmo assim, essa boa relação foi muito mais forte no passado – com Soares em relação a Cavaco (com prejuízo de Constâncio e Sampaio, então líderes do PS); e com Cavaco em relação a Sócrates (Cavaco até chegou a considerar José Sócrates um PM com grande espírito reformista)

 

Conclusão: Passos Coelho deve evitar este tipo de discurso que só o penaliza.

 

MELHORIAS NA EDUCAÇÃO

 

  1.       Na semana passada demos nota dos bons resultados por parte dos estudantes portugueses do 4º ano nos testes internacionais a Matemática. Esta semana tivemos outra boa notícia na educação – os resultados do PISA (estudo da OCDE para avaliar os alunos de 15 nas áreas da matemática, da leitura e das ciências). Conclusões: 

         - Os estudantes portugueses com 15 anos conseguiram os melhores resultados de sempre;

         - Pela primeira vez ficaram acima da média da OCDE;

         - Portugal foi o único país da UE que melhorou a sus prestação desde 2000;

         - Escolas dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos melhoraram o seu desempenho de forma considerável.

         - O senão são as taxas de retenção (chumbos), que são ainda muito elevadas.


  1.       Lições a tirar

a)      Isto é mérito dos professores e dos alunos. E tudo isto mostra a necessidade de valorizar o estatuto dos professores;

b)      Mérito também das políticas de educação dos últimos anos. Com avanços e recuos, o grau de exigência aumentou e bem;

c)      Mais uma razão para realçar a conveniência de estabilizar as regras essenciais do sistema de ensino;

d)      Finalmente, combater as retenções deve ser feito não pelo recurso às passagens administrativas mas sim pela intensificação dos apoios aos alunos mais frágeis.

 

 

 

ECONOMIA PRESA POR ARAMES?

 

  1.       Esta semana tivemos sinais em várias direcções (FMI elogia resultados de 2016 mas torce o nariz a 2017); os resultados das exportações em Outubro caíram; e sobretudo os juros da dívida voltaram a subir e estão próximo dos 4%.

 

  1.       Tudo isto ajuda a confirmar que, em matéria económica e financeira, estamos ainda muito presos por arames. Ou seja, toda situação é muito frágil. Não é tempo de depressão mas também não é motivo para embandeirar em arco. Temos, em resumo, duas situações bem distintas: ILUSÃO e RISCO.

a)      Primeiro: vivemos nalguma ilusão de que a crise passou definitivamente e tudo está sólido. Essa situação advém da devolução de rendimentos, do clima político e social distendido, do crédito mais barato.

b)      Segundo: corremos riscos enormes. O risco de o BCE acabar com a sua política de compra de dívida (pode ser daqui a um ano); o risco de a DBRS alterar a nossa classificação; o risco de um acontecimento externo desfavorável que contamine Portugal; o risco da incerteza internacional; o risco de uma subida dos juros da dívida, como está a suceder. São muitos riscos a ter em atenção.

 

  1.       O que se impõe?

     

    - Fomentar o crescimento (é muito baixo);

    - Estimular o investimento (o nosso calcanhar de Aquiles);

    - Combater o endividamento das famílias (voltou a febre do endividamento na habitação e no consumo);

    - Incentivar a poupança (está em mínimos históricos);

    - Reduzir a dívida.

      

VENDA DO NOVO BANCO

 

  1.   Estamos mesmo a chegar ao fim do processo de venda. Qual é o actual ponto da situação?

a)      As negociações financeiras com os vários concorrentes terminaram na passada sexta-feira. Os concorrentes apresentaram as suas propostas finais revistas;

b)      Confirma-se o que aqui referi na passada semana: do ponto de vista financeiro (ou seja, do ponto de vista de encaixe para o vendedor – o Fundo de Resolução) a proposta dos chineses é a mais forte;

c)      Seguem-se agora, até à decisão final, três coisas: a negociação dos aspectos contratuais; os habituais contactos com o Banco Central Europeu; e a articulação de posições entre Banco de Portugal e Governo. O que tudo deverá suceder ao longo da próxima semana.

d)      A decisão final deverá ser tomada na semana de Natal ou entre o Natal e o final do ano.

 

  1.       Empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução (3,9 mil milhões)

a)      Seja qual for o valor final da venda (sempre muito abaixo do empréstimo concedido pelo Estado ao Fundo de Resolução), está sempre garantido que o Estado receberá a totalidade do valor do empréstimo e respectivos juros;

b)      O empréstimo, como já se sabe, é ao Fundo de Resolução que o pagará ao longo dos anos com os respectivos juros, através das quotizações que os Bancos fazem para o Fundo;

c)      Ou seja, não haverá prejuízo para os contribuintes.

  

 

A POSSE DE GUTERRES

 

  1.       Um apontamento sobre o passado. Há um ano ninguém imaginava ser possível um português como Secretário-Geral da ONU. O que se garantia é que seria uma mulher oriunda do Leste da Europa. 

    - Guterres desafiou as tradições e venceu;

    - Afirmou-se pela qualidade e fez história.

 

  1.       Dois apontamentos sobre o futuro

a)      Um sobre Portugal. Com António Guterres na ONU, Portugal ganha peso na política externa. Ganha uma maior centralidade na política internacional.

         - Não é um ganho directo. Guterres não vai fazer "lobby" por Portugal.

         - É um ganho indirecto. Pela presença e pelo prestígio do exercício do cargo.

         - O que reforça a ideia de que país pequeno não é sinónimo de país irrelevante.


b)      Um sobre António Guterres. Vai ter um mandato difícil. Ainda mais difícil do que se previa.

Por um lado, porque o mundo está cada vez mais caótico, mais incerto, mais dividido e mais instável;


Mas, sobretudo, porque surgiu um dado novo – a eleição de Trump. A nova Administração Trump (errática, instável, retrograda e ultraconservadora) não vai facilitar a tarefa de António Guterres.

Notas Finais:

  1.      Uma informação sobre a execução orçamental do mês de Novembro – Resultados de Novembro (ainda não divulgados) são muito positivos. Permitem acalentar um défice entre 2,4% e 2,5% do PIB.
  2.      Cumprimento a Isabel Mota
  3.      Cumprimento a Guilherme Figueiredo
  4.      Cumprimento à Unicef (faz hoje 70 anos)
  5.      Saudação a Cristiano Ronaldo (vai vencer e receber amanhã a Bola de Ouro)
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comentários mais recentes
Anónimo 12.12.2016

ESTE DEVE SER VIDENTE. SABE SEMPRE TUDO. AINDA PÕE ESTE TRAMBIQUEIRO A DAR PALPITES. NEM SABIA Q TINHA UMA EMPRESA E Q NUNCA DE LÁ TINHA TIRADO UM EURO. ESTES POLÍTICOS SÓ METIDOS N SUBMARINO DEITADOS AO MAR Á DERIVA PARA Q NINGUÉM MAIS OS VISSE.

pertinaz 12.12.2016

TRAMBIQUEIRO

Anónimo 12.12.2016

Arco da velha: " ... não haverá prejuízo para os contribuintes."

A pensar nesta, não vou parar de rir durante toda a semana!

Ou de chorar ...

julio bras 11.12.2016

Desta vez, SIM! Muito bom artigo em toda a Linha.
Pergunta: Mas se Portugal está bem situado no ranking da Cultura (MATEMÁTICA), por que razão somos um país pobre, iliterato, inculto e com falta de capacidade crítica?! Será por causa da: «CORRUÇÃO?! Então Não?.... POIS É!... POIS É!...

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