João Costa Pinto
João Costa Pinto 30 de janeiro de 2017 às 20:35

2017 - Ano de todos os riscos - (LXXXIX)

A visibilidade do arrastado processo de consolidação de alguns dos nossos principais bancos está a introduzir um perigoso elemento adicional de complexidade e de risco.

1. Depois de - no último artigo - me referir à situação na Europa neste início de 2017 e à complexidade dos dilemas com que o BCE está confrontado, deixei uma referência a duas questões centrais com que a nossa economia se debate: por um lado, o que podemos fazer para reduzir os riscos que uma alteração da política do BCE representa para o financiamento da nossa economia? Por outro, como acelerar o crescimento económico e sair da "armadilha da dívida" em que nos deixámos cair? A resposta à primeira questão assume no contexto actual uma grande importância, na medida em que a experiência de 2011 mostra como um agravamento das condições de financiamento tende a induzir pressões especulativas de difícil controlo. Embora a Europa do euro tenha desde então criado alguns mecanismos de estabilização financeira, estes mantêm uma reduzida e incipiente capacidade de intervenção.

 

A verdade é que uma alteração da política monetária única expõe as economias devedoras mais frágeis a uma subida rápida dos custos de financiamento. Mesmo admitindo que o BCE procure "normalizar" a política monetária em dois movimentos - primeiro, reduzindo as aquisições de dívida e só depois subindo as taxas de intervenção - o impacto sobre as condições de financiamento das economias mais endividadas não deixará de ter consequências imprevisíveis. A percepção do risco voltará em força aos mercados e a determinar as decisões dos investidores em dívida soberana, alargando os "spreads"(*) em relação à dívida alemã e expondo de novo a dívida das economias periféricas a comportamentos  especulativos. As recentes declarações de Mario Draghi - a justificar o prolongamento da actual política monetária, apesar da recente subida da inflação alemã - parecem apontar no sentido de uma atitude de cautela por parte do BCE, a reflectir os complexos dilemas com que se debate e que referi no último artigo.

 

2. As economias devedoras mais vulneráveis estão assim colocadas perante uma questão central: o que podem fazer para procurar controlar o impacto de uma alteração da política do BCE sobre as suas condições de financiamento? Qual a sua capacidade para actuar sobre os factores que influenciam o modo como os investidores avaliam o nível de risco da sua dívida soberana? O elemento central de tal avaliação é, como se sabe, o peso da dívida pública e sobretudo a sustentabilidade do seu serviço. O que por sua vez depende do crescimento económico e da evolução das necessidades de financiamento. No nosso caso e além destes factores de natureza estrutural, ganham no actual contexto importância - aos "olhos dos mercados" - tanto a situação orçamental, como a do nosso mercado bancário. Em particular, a visibilidade do arrastado processo de consolidação de alguns dos nossos principais bancos está a introduzir um perigoso elemento adicional de complexidade e de risco. A estabilização deste processo e a sua remoção, em tempo útil, do quadro em que o risco do nosso país está a ser avaliado assume uma importância crítica. Questões a prosseguir outro dia.

 

(*)-"Spread-margem"  

 

Economista

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado surpreso Há 3 semanas

Pagamos o "spread" maia alto da Eurozona,da falida Grécia.Este nível é o preço a pagar porque um partido dito "europeista e de governo" recorreu a comunistas e esquerdistas ,para chegar ao poder.O resto é retórica inútil,porque recusa a realidade

comentários mais recentes
surpreso Há 3 semanas

Pagamos o "spread" maia alto da Eurozona,da falida Grécia.Este nível é o preço a pagar porque um partido dito "europeista e de governo" recorreu a comunistas e esquerdistas ,para chegar ao poder.O resto é retórica inútil,porque recusa a realidade