João Costa Pinto
João Costa Pinto 16 de janeiro de 2017 às 19:26

2017 - Ano de todos os riscos - (LXXXVIII)

Além dos riscos enfrentados pelas economias mais frágeis, as eleições em França, Alemanha e Holanda - a evolução da situação política em Itália é imprevisível - não deixarão de se reflectir no resultado final das decisões que o BCE venha a tomar.

1. Como referi no último artigo, a resposta à crise financeira transformou o BCE na mais influente instituição da Europa do euro. Não admira por isso que uma das questões centrais que se coloca a quem procura avaliar as pressões que vão determinar a evolução da Zona Euro em 2017 se prenda com a actuação do BCE. Vai este iniciar um movimento de "normalização" da política monetária - subindo as taxas de juro e reduzindo as aquisições de activos (QE*)? Quando e como? Vai fazê-lo de modo a minorar os riscos que esta decisão representa para as economias mais frágeis? O BCE sabe que estas estão a "caminhar sobre gelo muito fino", em particular as que, como a nossa, se debatem com as pressões convergentes de um baixo crescimento, níveis elevados de dívida pública e privada e de mercados bancários fragmentados, a atravessar um complexo e difícil processo de consolidação, apenas iniciado. A verdade é que o contexto - económico, financeiro e político - em que o BCE está a ter de actuar dificilmente poderia ser mais complexo. Além dos riscos enfrentados pelas economias mais frágeis, as eleições em França, Alemanha e Holanda - a evolução da situação política em Itália é imprevisível - não deixarão de se reflectir no resultado final das decisões que o BCE venha a tomar. Qual o impacto político - junto dos eleitores franceses ou alemães - de uma nova crise de financiamento das economias devedoras, induzida ou potenciada por uma alteração da política prosseguida pelo BCE? Quem iria beneficiar? As forças políticas anti-euro ou, pelo contrário, os partidos pró-europeus, como reacção aos receios dos riscos de uma desagregação do projecto de integração da Europa, num contexto internacional de instabilidade política e económica? Tratando-se de um período em que a capacidade de decisão política em países europeus "chave" vai estar ainda mais enfraquecida do que o habitual, o peso e a importância da actuação do BCE vão acentuar-se.

 

Se, além da situação no interior da Europa do euro, considerarmos as pressões exógenas - que vão depender da orientação que a Administração Trump vier a adoptar, da velocidade com que a Reserva Federal norte-americana voltar a uma política monetária convencional e da evolução do preço da energia -, compreendemos a amplitude e a complexidade dos dilemas com que o BCE e a Europa do euro estão confrontados, neste início de 2017. Por seu lado, o Brexit ameaça aprofundar as fracturas políticas e económicas com que a Europa se debate. Acredito, no entanto, que o seu impacto final vai depender do equilíbrio do modelo que vier a ser adoptado para o relacionamento entre a União Europeia e o Reino Unido, quer para o quadro regulamentar e institucional final, quer para o período de transição.

 

2. É neste contexto que deve ser avaliada a nossa própria situação, os riscos e as oportunidades com que a economia portuguesa está confrontada. Questões a abordar em próximos artigos. Deixo apenas uma referência às questões a que nos compete dar resposta: por um lado, o que podemos e devemos fazer para controlar os riscos de uma alteração da política do BCE? Por outro, como acelerar o crescimento económico e sair da armadilha da dívida em que nos deixámos cair?

 

(*)"Quantitative Easing"  

 

Economista

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