Carlos Almeida Andrade
Carlos Almeida Andrade 09 de fevereiro de 2017 às 20:25

2017: o que está bem e o que pode correr mal

A ideia dos "esquecidos da globalização" (muito apelativa, mas também muito discutível) tem permitido o avanço de intenções intervencionistas e proteccionistas em algumas economias.

Apesar de todas as incertezas e sustos que marcaram o último ano (lembremo-nos, por exemplo, da forte queda do preço do petróleo, dos receios de desaceleração da China; do Brexit; dos populismos na Europa; das eleições americanas), o PIB mundial cresceu 3,1%, apenas marginalmente abaixo do registo do ano anterior (de 3,2%), e os principais índices accionistas valorizaram-se de uma forma significativa (e.g. 9,5% no S&P 500, 6,9% no DAX). Na segunda metade do ano, observou-se mesmo alguma aceleração da actividade, com a Zona Euro a crescer até mais do que os EUA no conjunto de 2016. 


Estes sinais positivos parecem prolongar-se pelo início de 2017. Estimativas feitas a partir de indicadores de conjuntura de alta frequência sugerem que as principais economias desenvolvidas crescem, neste momento, acima do seu potencial. Para este facto contribuirão os impactos de políticas monetárias e orçamentais expansionistas, a recuperação da actividade industrial (em parte ligada à subida dos preços das matérias-primas), os progressos obtidos no reequilíbrio financeiro das famílias, empresas e bancos e, em algumas economias, a melhoria das condições no mercado de trabalho. Em termos globais (e de uma forma mais visível na Zona Euro), os indicadores têm surpreendido pela positiva, sugerindo a possibilidade de um 2017 melhor do que o esperado.

 

Na Europa e nos EUA, estas boas notícias a nível macroeconómico contrastam com o tom geral de descontentamento entre as populações, que terá já estado na origem de duas surpresas políticas em 2016 (o referendo do Brexit e as eleições americanas) e que alimentam também elevados riscos políticos em 2017, em particular na Europa, com o aparente aumento do peso político de visões mais extremistas, populistas e anti-integração.

As negociações sobre o Brexit, o regresso aos problemas financeiros da Grécia e, sobretudo, as eleições na Holanda (Março), França (Abril e Maio) e Alemanha (Setembro) podem gerar incerteza e "ruído" nos mercados. As eleições em França serão, talvez, o teste mais importante para a estabilidade da Zona Euro e da UE. Resultados negativos nestes desafios podem complicar o "outlook" para a economia europeia. Mas, ao mesmo tempo, tendo em conta o actual quadro económico relativamente favorável, uma resolução benigna de todos estes obstáculos políticos poderia criar um "upside" muito relevante para a Zona Euro e para os seus activos.

 

A ideia dos "esquecidos da globalização" (muito apelativa, mas também muito discutível) tem permitido o avanço de intenções intervencionistas e proteccionistas em algumas economias. Nos EUA, e sob o pretexto de um crescimento fraco da economia e dos salários, espera-se o anúncio, pela administração Trump, de detalhes sobre um programa agressivo de estímulos orçamentais que, a serem postos em prática, incidirão sobre uma economia que se encontra já sobre o seu potencial. Se os salários e a procura crescem pouco numa economia em cima do seu potencial, então o problema deverá ter menos que ver com a necessidade de estímulos à procura e mais com algum esgotamento do modelo da oferta. De facto, mais do que a globalização ou o livre comércio, são as dificuldades de ajustamento aos progressos tecnológicos que explicam a maior parte da penalização das classes médias nas economias desenvolvidas.

Em qualquer caso, as previsíveis dificuldades práticas de execução da "Trumpnomics" (impactos orçamentais, resistências do Congresso, etc.) são um dos riscos para 2017. Outro aspecto a ter em conta é a possibilidade de o maior crescimento e inflação se traduzir numa atenuação de estímulos monetários e na consequente subida dos juros de mercado, atingindo as economias mais frágeis (por exemplo, na periferia da Zona Euro).

Acima de tudo, o maior risco para 2017 e para os anos seguintes será a adopção de políticas proteccionistas, isolacionistas e de confronto económico e político (e.g. EUA-China, EUA-UE, Reino Unido-UE, França-UE,…), que assumem, erradamente, que a relação entre economias é um jogo de soma nula. Apesar da narrativa em voga, a História é clara a mostrar que recuos na integração económica têm custos reais no crescimento e no bem-estar. E desta vez não seria diferente.

 

Economista 

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