Leonel Moura
Leonel Moura 19 de janeiro de 2017 às 20:25

Ética

As rápidas mudanças provocadas pela evolução tecnológica estão a criar muitos benefícios, mas também novos problemas. Alguns prendem-se com um campo filosófico, hoje bastante desvalorizado, mas determinante, que é o da ética.

Não vamos complicar. Ética é a definição, a cada momento histórico, do bem e do mal. Daí que à medida que a civilização avança certas condutas tidas por aceitáveis se tornam reprováveis, a tortura ou a discriminação racial, por exemplo, ou, no sentido inverso, o condenável torna-se socialmente normal, como é o caso da homossexualidade.

 

Nesta evolução estamos agora confrontados com situações que colocam problemas éticos muito complexos e de um novo tipo.

 

A possibilidade de manipular geneticamente muitos organismos não é uma realidade atual pois já existe há séculos. Basta pensar em muitas espécies fundamentais na nossa alimentação, desde cereais, frutos, legumes, mas também vacas ou porcos, que através de cruzamentos programados alteraram significativamente a sua origem natural. Só que hoje essa manipulação vai à raiz, ou seja, ao nível propriamente genético, permitindo as mais incríveis combinações entre espécies e mesmo entre os reinos animal e vegetal. O que coloca um problema ético evidente. Até onde é legítimo alterar uma forma de vida natural ou fabricar literalmente novas formas de vida?

 

Neste domínio temos ainda a questão da clonagem já que, além da procriação artificial em laboratório, é agora possível pegar numa simples célula de um indivíduo e recriar outro indivíduo similar. De momento, a clonagem de seres humanos é proibida, mas chegará o dia em que, por qualquer razão, esse passo será dado.

 

Além da biotecnologia, campo fértil em questões éticas, temos também toda uma série de novos problemas gerados pela robótica e pela inteligência artificial.

 

Com as máquinas a tornarem-se cada vez mais autónomas e inteligentes levanta-se a questão de saber por quanto mais tempo as consideramos meras ferramentas ao nosso dispor ou quando as passamos a encarar como uma nova forma de vida com os direitos inerentes.

 

De qualquer modo, mesmo nas suas aplicações relativamente simples, as máquinas inteligentes levantam situações muito críticas. Veja-se o caso dos automóveis sem condutor. Perante um acidente inevitável o automóvel pode ter de decidir entre ir contra uma parede, pondo em risco a vida dos passageiros, ou atropelar uma pessoa. Como se estabelecem parâmetros éticos? Por quantidade? Dois passageiros valem mais do um peão? E se o peão for uma criança, a que a sociedade dá um valor superior como se sabe?

 

Noutro plano, numa sociedade cada vez mais vigiada e controlada pelas polícias, pelo Estado e pelas empresas, temos ainda o problema ético da invasão da privacidade, da perseguição e repressão, da manipulação da informação ou da mentira como forma de se conseguirem vantagens políticas ou económicas. Num cenário digno da ficção científica há ainda a considerar o implante de falsas memórias ou a redução do indivíduo a um ser obediente, sem princípios ou moralidade, coisa que se faz há séculos com a instrução militar, mas que agora é tecnicamente possível intervindo diretamente no cérebro.

 

Em suma. Um futuro sem ética depressa se tornará num pesadelo, numa distopia. Além das comissões de ética nada democráticas, diga-se de passagem, na maior parte dos casos dominadas por motivações religiosas, a nossa sociedade não tem mecanismos transparentes, abertos e comuns para avaliar racionalmente o bem e o mal.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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