Manuel  Falcão
Manuel Falcão 10 de fevereiro de 2017 às 10:21

A esquina do Rio

Na quarta-feira, foi divulgada correspondência de António Domingues a Mário Centeno, na qual se afirma que o Ministério das Finanças se compromete a criar uma excepção para que a então nova administração da Caixa Geral de Depósitos não tivesse de entregar a declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional.
Back to basics
A mudança é o processo pelo qual o futuro invade as nossas vidas.
Alvin Toffler

Tanga
Na quarta-feira, foi divulgada correspondência de António Domingues a Mário Centeno, na qual se afirma que o Ministério das Finanças se compromete a criar uma excepção para que a então nova administração da Caixa Geral de Depósitos não tivesse de entregar a declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional. A divulgação da carta veio confirmar o que há muito se dizia, que havia documentos comprovando uma aceitação de Centeno às exigências de Domingues para constituir equipa e aceitar o lugar. Nesse mesmo dia, houve debate no Parlamento, Centeno não compareceu, mas o primeiro-ministro lá esteve sorridente. António Costa garantiu que Centeno não mente. Mas não disse que Domingues mentia. Centeno nada disse, visto não ter aparecido. Por mais que Costa grite que o rei Centeno não vai nu, a verdade é que, se ele aparecesse no plenário, provavelmente apareceria de tanguinha, talvez mesmo de fio dental. Ora acontece que, embora se saiba que os políticos e a verdade não combinam bem, um ministro não pode ser publicamente suspeito de mentir, ocultar, distorcer. E, desde quarta-feira passada, Centeno é suspeito disso mesmo.

Dixit
Hoje não há direita.
Vasco Pulido Valente 

Semanada
 40 meses é o prazo médio de realização de julgamentos para cobrança de dívidas  o acordo ortográfico, que nasceu há 27 anos envolto em polémica, nunca foi integralmente adoptado pela totalidade dos países de língua oficial portuguesa, entre os quais Angola e Moçambique, que não chegaram a assiná-lo  Manuel Alegre considerou "arrogante e autoritária" a posição do ministro dos Negócios Estrangeiros português, que é contra a revisão do Acordo Ortográfico  em 2016, aumentou o abandono escolar precoce  a compra de dívida portuguesa pelo Banco Central Europeu atingiu em Janeiro o valor mais baixo de sempre  o Tratado de Maastricht, que lançou as bases para a  moeda única, foi assinado há 25 anos  a banca portuguesa apresentava, em Setembro passado, os rácios mais baixos da União Europeia e o terceiro nível de crédito malparado mais pesado  o Facebook fez 13 anos e, em Portugal, cresceu 49% nos últimos cinco anos  os dados do estudo Bareme Rádio da Marktest indicam que, ao longo de 2016, os portugueses registaram um consumo de rádio um pouco acima de três horas diárias  um ano após terem sido aprovados os fundos de apoio à Comunicação Social para 2016, as respectivas verbas ainda não foram libertadas pelo Governo.

Provar
Uma sanduíche pode ser uma coisa fantástica e pode ser uma coisa medonha. Infelizmente, a maior parte das sanduíches nos cafés portugueses são medonhas - mesmo as mais básicas. Por exemplo, a mais tradicional de todas, a sandes de fiambre, é maioritariamente fornecida sob a forma de uma carcaça amolecida, com textura semelhante a borracha, acidentalmente barrada de manteiga mal espalhada (já nem falo das que levam margarina, que as há), com fiambre em reduzida quantidade, mau corte e qualidade inferior. Na maior parte dos casos, o corte é grosso, em vez das fatias finas que têm mais sabor. Se sugerirmos que coloquem uma folha de alface, olham-nos como se estivéssemos a pedir para substituir a manteiga por caviar. Se usarmos a variante queijo, somos brindados com uma fatia acidental de queijo flamengo sensaborão. Tudo isto piora se passarmos ao presunto, que tem grandes probabilidades de aparecer sob a forma de lascas grossas e algo ressequidas que são um teste à integridade de qualquer dentadura. Nem as organizações modernaças, como a Padaria do Bairro ou a Padaria Portuguesa, conseguem ultrapassar esta mediocridade sanduicheira básica. O meu conselho é que frequentem sempre o mesmo local, de preferência um café tradicional, que partilhem pacientemente com os empregados da casa como querem a sanduíche, que peçam fiambre "do bom e reforçado" e que ganhem a estima de quem está atrás do balcão. Nestes cafés tradicionais, que gostam de ter clientes regulares e não apenas de passagem, os empregados mantêm-se além das estações e vão conhecendo as manias dos clientes. Felizmente, tenho locais assim, como a Confeitaria Valbom, onde me fazem uma magnífica sandes de fiambre e onde nada de mal se passa.

Gosto
Da edição, pela Gulbenkian, em três volumes, dos ensaios e artigos de imprensa escritos por Agustina Bessa-Luís entre 1951 e 2007. 

Não gosto
Da ausência dos membros do Governo da área da Cultura na apresentação realizada em Lisboa, na Gulbenkian, da recolha de ensaios e artigos de Agustina. 

Ver
Destaque para duas novas exposições no espaço Central Tejo do MAAT. No espaço Cinzeiro 8, no piso de entrada, José Maçãs de Carvalho volta a mostrar o Oriente através das imagens que foi fazendo ao longo de uma década. "Arquivo e Democracia",  assim se chama esta exposição, é mais uma peça da série de viagens ao arquivo pessoal de Maçãs de Carvalho, nesta caso centrado em Hong Kong. Os trabalhos apresentados combinam fotografias com vídeo, numa montagem que consegue reconstituir o processo de observação e criativo numa sequência lógica. É um documento sobre um quotidiano, mulheres filipinas que trabalham como empregadas domésticas em Hong Kong, e que se juntam aos domingos, seu dia de folga, junto à zona central da cidade onde estão as lojas das grandes marcas. A montagem da exposição, a passagem da imagem fixa das fotografias à imagem em movimento do vídeo é feita de uma forma muito conseguida, mostrando afinal como a fotografia se pode prolongar no tempo. No espaço remodelado do primeiro andar, "Central 1", está a exposição "Dimensões Variáveis", construída a partir de um conceito importado da publicação "Artistas e Arquitectura", editada em Paris em 2015. A mostra propõe confrontar a relação entre a arquitectura e as artes plásticas e apresenta trabalhos históricos e actuais de artistas de diversas gerações, nacionais e internacionais, entre os quais Bruce Nauman, Gordon Matta-Clark, John Baldessari, Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, Rui Toscano, Liam Gillick e Ed Ruscha. "Arquivo e Democracia" fica no MAAT até 24 de Abril e "Dimensões Variáveis" até 22 de Maio. 

Arco da velha
50% da frota automóvel da PSP está parada devido a avarias e falta de verbas para as respectivas reparações. 

Folhear
Neste mundo em que o papel tem tendência a ser ultrapassado pelo digital, não deixa de ser irónico que a edição para tablet da revista Tate Etc., dedicada a David Hockney, um dos primeiros e mais destacados artistas plásticos a utilizar o iPad, seja a derradeira neste formato, existindo a partir daqui apenas em papel. Sugiro que façam o ainda possível download da aplicação na AppStore da Apple e comprem este número avulso, para guardar - até porque Hockney merece. Nos últimos tempos, tem-se assistido a um desinvestimento em aplicações e a um regresso aos sites e até aos blogues, de que o sucesso do Medium é um bom exemplo. Mas, voltemos à Tate Etc. O destaque, claro que vai para a retrospectiva de Hockney que estará na Tate Britain até Maio, mas há bom material sobre Robert Rauschenberg (exposição que está na Tate Modern), para novas fotografias de Wolfgang Tillmans e um belo ensaio sobre as visões que os artistas têm daquilo que vêem das janelas das suas casas. No editorial, escreve-se que um recente inquérito a 200 recém-formados de Engenharia da Universidade de Bath mostrou que aqueles que tiveram cadeiras de arte e design ofereciam uma vantagem assinalável sobre os outros que não tinham estudado estas matérias. Cada vez mais se associa o estudo de disciplinas artísticas ao desenvolvimento da criatividade. "A mensagem é clara - escreve o editor - a arte realmente muda as pessoas, seja o que for que venham a fazer na vida. Por favor, digam isso a todos os vossos amigos que dizem não se interessar por arte."

Ouvir
Durante muitos anos, a formação clássica do trio de jazz (piano, baixo, bateria) foi a imagem de marca de Brad Mehldau, que explora agora o dueto. Após o disco de final do ano passado com o saxofonista Joshua Redman, juntou-se ao bandolinista e vocalista country Chris Thile, com quem deu uma série de concertos, de onde saiu o disco agora editado. Thile e Mehldau são dois músicos muito diferentes: Brad Mehldau é o melhor pianista de jazz da sua geração e Chris Thile é um virtuoso do bandolim e um vocalista com fama feita na country music, nos blues e interpretações de Bach. Neste disco, há dois temas de Thile, outros dois de Mehldau e um belíssimo original de ambos, a faixa de abertura, "The Old Shade Tree", proporcionando desde o início uma amostra das capacidades vocais de Thile. E há também algumas versões surpreendentes de originais de outros compositores, onde Thile canta com a sua voz de falsete e toca o seu bandolim numa inesperada combinação com as sonoridades do piano. No clássico de Nashville "Scarlett Town", um tema da dupla David Rawlings e Gillian Welch, Mehldau faz coro ao lado da voz de Thile e o resultado é arrebatador. Destaque para as versões de canções como "Don't Think Twice, It's All Right" de Bob Dylan, do clássico "I Cover The Waterfront", um original de Johnny Green imortalizado por Billie Holiday, de "Marcie" de Joni Mitchell ou, ainda, "Independence Day", de Elliott Smith, aqui numa versão apenas instrumental. "Chris Thile & Brad Mehldau" está disponível em duplo CD, em duplo LP de vinil (com um tema extra, "Fast As You Can", de Fiona Apple) e também no Spotify. 


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Boa análise de Manuel Falcão.

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IS Há 1 semana

Boa análise de Manuel Falcão.