Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 13 de fevereiro de 2017 às 19:16

Não queime as suas cartas de amor  

Neste dia de S. Valentim, peço-lhe que não se desfaça das suas cartas. Guardá-las é como investir num PPR ou comprar um seguro de vida.

Estão guardadas em caixas, arrumadas no sótão ou na parte de trás de um armário, escondidas na gaveta das meias, se não forem muitas. Ou talvez, se confundam com documentos arquivados, numa pasta entre muitas outras, em argolas de um dossiê, sem nada que as identifique por fora. Cartas apaixonadas que recebeu ou enviou, de amores passados ou presentes, talvez esquecidas, de há tanto não as ler.

 

Quando as recorda, vezes sem conta pensa em queimá-las, ou passá-las por aqueles trituradores de escritório, que prometem rasgar o papel de forma que nem os espiões mais atentos possam descobrir o que lá vinha escrito (publicidade enganosa, que subestima aquilo que a vontade de conhecer torna possível!).

 

Quer destrui-las porque as acha ridículas, porque se envergonha de ter sido tão lamecha, porque se dirigem a pessoas proscritas da história familiar atual, ou contém confidências e inconfidências que teme cheguem um dia aos olhos dos seus filhos, magoando-os, mesclando de contradições a imagem que quer deixar de si mesmo.

 

Talvez se queira livrar delas por raiva, enfurecido com quem lhe prometeu tanto, e o enganou muito mais, ou por nostálgico desgosto de não ter sido capaz de manter a chama acesa, de ter perdido a capacidade de entrega, que recorda com uma saudade que fere.

 

Invariavelmente resiste, adiando a fogueira, incapaz de destruir uma parte tão importante de si, temendo que a memória vá com a tinta, deixando no seu lugar um tremendo vazio. E arrumando-as, de novo, consola-se com a ideia de que um dia mais tarde, quando as horas forem longas, as voltará a ler, no silêncio de uma noite que ninguém importunará.

 

Os mais sábios têm ainda a consciência de que a vida dá muitas voltas, e que um dia aquelas cartas podem ser o único testemunho de um amor a que a morte não pôs um fim, a confirmação, preto no branco, de que aquilo que viveram não foi nem ficção, nem miragem de uma alma em sofrimento. Nesses momentos, são como recados vindos do Céu, acabadinhos de escrever.

 

Por tudo isto, escrever e guardar cartas é como investir num PPR, precavendo o nosso próprio futuro, ou como comprar um seguro de vida, uma garantia de permanecer junto daqueles que mais amamos, deixando-lhes um bocadinho - muitas vezes o melhor - de nós mesmos.

 

Graças às cartas, filhos, netos e bisnetos vão encontrar respostas para as perguntas que se arrependem de nunca ter feito, e os historiadores, os biógrafos e os escritores descobrirão nelas forma de reconstituir o passado e de insuflar de vida personagens de outros tempos, fossem importantes ou desconhecidas, entendendo melhor como é constante, através dos tempos, a essência da humanidade.

 

Por isso, neste dia de S. Valentim, peço-lhe que não se desfaça das suas cartas, e se as escreve agora em ecrãs digitais, as arrume metodicamente numa qualquer nuvem, de onde as possa resgatar.

 

E se tem razões válidas para não querer que sejam lidas pela geração que lhe sucede, então puxe pela cabeça e encontre uma solução para as pôr a salvo. Como, por exemplo, um cofre no banco, a chave num envelope entregue a um advogado, com instruções claras de quando e como deve chegar às mãos dos seus descendentes. Aliás, ofereço a ideia a uma start-up - criem um serviço de proteção das nossas cartas, uma forma criativa de as preservar. Prometo ser a primeira cliente. 

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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