Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 16 de abril de 2017 às 20:30

Salário mínimo, o euro e a "austeridade"

Há mitos e dúvidas sobre o euro e a UE que não têm justificação e, apesar de tudo, continuam a ser destilados. A elite dominante, mesmo quando não propõe abertamente a descrença nas instituições europeias, insinua que a periferia do Sul está a perder com o seu funcionamento "deficiente".

É certo que em certos aspectos, sobretudo nas áreas monetárias e do mercado único, há enorme margem para a crítica e a melhoria. Mas, nos aspectos mais básicos que fundamentam o bem-estar das populações mais carenciadas, a criação do euro trouxe vantagens enormes que não podem ser omitidas.

 

Tomemos o caso da evolução do salário mínimo, de enorme relevância para avaliar o bem-estar geral. Como evoluiu então o salário mínimo durante o período do euro? E mais particularmente durante o período 2001-2014 em que se registou a pressão directa da troika?

 

O serviço de estatística da Comissão da União Europeia publicou no passado dia 10 de Fevereiro a actualização, a 1 de Janeiro de 2017, dos salários mínimos nacionais. Os dados são apresentados com os adequados e necessários tratamentos prévios de modo a permitiram comparações rigorosas. Por um lado, os salários são convertidos em salários mensais comparáveis com os ajustamentos que se impõem. Por outro lado, para corrigir as divergências, ainda muito significativas, nos níveis dos preços de cada país, os salários nominais são convertidos em unidades padrão de poder de compra ajustadas pelo consumo final das famílias. Por razões de relevância e simplicidade limito a análise aos países da UE a 15; destes a Alemanha só em 2015 introduziu o salário mínimo e cinco ainda não o criaram (Dinamarca, Itália, Áustria, Finlândia e Suécia). Referimos abaixo por UE a União Europeia a nove pelas razões referidas. Por salário mínimo significamos o valor nas condições atrás descritas.

 

Em 2017, o salário mínimo em Portugal representa 73 % do valor da média da UE. Este é o valor mais elevado desde a criação do euro (em 1999 fixava-se em 69%).

 

Portugal conheceu um aumento de 85,3% do salário mínimo desde Janeiro de 1999 até Janeiro de 2017. No período 1999-2017, todos os países registaram ganhos muito significativos. Em média na UE o salário mínimo valorizou-se 49,4%, com valores individuais variando, entre o mínimo de 38,2% e o máximo de 85,3%. Este valor máximo refere-se, precisamente, a Portugal.

 

Os países que mais beneficiaram foram os países do Sul ou periféricos: além de Portugal, já mencionado, Espanha (61,1%), Irlanda (61,6%), França (49,3%). A Grécia (34,6%) regista um valor inferior à média devido aos erros de política económica de sua responsabilidade; na verdade, no subperíodo 1999-2010, a Grécia viu valorizado o seu salário mínimo em 52,7% contra a média de 32,4% na UE.

 

Portugal viu valorizado todos os anos o seu salário mínimo, graças à evolução dos preços que se revelou, nos anos de maior aperto, o grande aliado dos consumidores.

 

Nos anos da troika (2011-2014) o salário mínimo valorizou 3,9% em Portugal. Isto é mais do que a média da UE (3,4%).  Neste período, dito de "austeridade", apenas a Grécia (-11,8%) e a Irlanda (-2,4%) sofreram quebras no salário mínimo.

 

Quando assistimos a descabeladas dúvidas e descrenças na União Europeia e no euro, devem sublinhar-se dados básicos acerca dos indicadores de bem-estar que certas características de funcionamento do euro - sobretudo a estabilidade dos preços - nos proporcionaram.

 

Economista e professor no ISEG


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comentários mais recentes
5640533 18.04.2017

O salario minimo valorizou. E quanto é que aumentaram os preços? Como soa limoes a 400 e tal escudos, por exemplo? Mil contos era muito dinheiro. 5000 euros é nada.