André Macedo
André Macedo 29 de maio de 2017 às 00:01

Jornalismo de condenações

A crise que todos os dias asfixia um pouco mais a imprensa, mas também rádios e televisões, tem destas coisas: o que falta em público disposto a pagar é compensado por um exército de especialistas cheios de certezas sobre o caminho a seguir.
Como é possível manter e atrair talento para uma indústria em emagrecimento acelerado, apesar de a importância que tem para fortalecer e incentivar o debate público?

Portugal lidera este processo destrutivo por várias razões. Comparando com outros países desenvolvidos, o nosso atraso cultural tem como principal consequência o aproximar mais rápido do dia do juízo final.

Não tenho dúvidas de que nos próximos dois anos um dos grandes diários nacionais terá de tomar a traumática – talvez acertada, certamente inevitável -- decisão de fechar as edições em papel durante a semana, mantendo apenas as edições de fim-de-semana como porta-estandarte. Quem o fizer primeiro talvez consiga tirar daí algumas vantagens competitivas, apesar de o campo digital já se encontrar tão fragmentado e poluído que elas serão de pouca monta. Cortam-se custos, não se melhora a receita, o prognóstico continuará reservado.

O desaparecimento progressivo dos jornais e as dificuldades crescentes refletem-se numa fiscalização cada vez pior dos poderes públicos e privados. As televisões, por enquanto, ainda dependem demasiado do que sai publicado no papel. Raramente têm voz própria, optando por fazer parte do coro, seja ele afinado ou ruidoso. Ganhar hábitos de investigação próprios leva tempo e esse caminho tem de ser acelerado: fazer jornalismo não é ser caixa de ressonância. O desmame está em curso, sei por experiência própria, sei porque o vejo onde trabalho, mas o longo caminho da individualização (o jornalismo é artesanato) e da especialização ainda está numa fase incipiente.

No caso das empresas que investem ou deveriam investir em publicidade a questão coloca-se de forma muito prática: elas encontram cada vez menos jornalistas conhecedores do seu trabalho. A incerteza informativa que temos vivido nos últimos anos também se explica por isto. A imprecisão é tantas vezes inevitável, mas o que lemos, ouvimos e vemos hoje é claramente insatisfatório do ponto vista qualitativo e das práticas jornalísticas.

Diretores que são colunistas, não apenas editorialistas – função atribuída a equipas específicas nos jornais estrangeiros ainda com boas práticas –, mas que são também repórteres, assinando notícias, glosando-as a seguir, além de fazerem a primeira página na mesmíssima edição, são um problema tabu. Eu já á estive nessa posição, fiz o mesmo; sou, portanto, também culpado. Pior ainda, é o facto de os diretores serem também, nalguns casos, uma espécie de angariadores informais de publicidade. Não fecham negócios, espalham simpatia. Ganham-se uns cobres para a empresa e isso atrasa despedimentos, mas o jornalismo definha perante esta prática mercantil tão insalubre.

Infelizmente, as empresas ainda não perceberam que bem pior do que ter sempre um bom jornalista à perna todos os dias é confrontar-se com uma chusma deles impreparados e excitados (pressionados, perdidos e com pressa) quando surge um problema complexo que tem mesmo de ser esclarecido. Por exemplo, na semana que passou o país ovacionou as primeiras sentenças do processo BPN. Aplaudiu porque o escândalo foi estrondoso – mas na realidade tudo o que aconteceu durante o longo de julgamento ficou a apodrecer na sala de audiências. Quase não houve cobertura noticiosa.

Elogiamos os juízes por intuição – os banqueiros são hoje mais desprezados do que políticos, na dúvida têm culpa --, mas sem termos conhecimento direto da matéria de facto e das nuances do caso. Justo? O BPN é o retrato do que somos: lemos as gordas, ouvimos os resumos, sentimo-nos de enfartados com a sentença. É como fazer a crítica se um filme ou de um jogo depois de ver o início e os minutos finais. Não é jornalismo real, é jornalismo virtual. Venham as próximas condenações. 

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