Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 09 de julho de 2017 às 21:20

Marques Mendes: "primeiro-ministro é muito rápido a aparecer para dar boas notícias e muito lento quando as notícias são más"

Luís Marques Mendes, no habitual comentário ao domingo na SIC, fala dos casos da semana. O Negócios publica o excerto desses comentários.

TANCOS E PEDRÓGÃO – MISTURA EXPLOSIVA

 

O que tem em comum os caos de Tancos e de Pedrógão Grande? Algumas coisas especialmente graves.

Primeira: a incapacidade do Estado. Em poucos dias, o Estado falhou duas vezes na proteção e segurança dos seus cidadãos. Falhou no incêndio de Pedrógão ao não evitar a perda de 64 vidas; e falhou ao não evitar um roubo do seu armamento militar.

 
Segunda: a descoordenação do Estado. Em Pedrógão, foi a descoordenação total entre proteção civil, GNR e comunicações. Em Tancos veio a saber-se que os órgãos do Estado não trocam informações entre si. Foi o que alegadamente sucedeu entre o MP (que já teria uma investigação em curso) e o exército. Ora a segurança nacional não se compadece com quintas e quintinhas. Exige a coordenação.

 
Terceira: a impunidade. Em Pedrógão falhou tudo. Desde a Proteção Civil até às comunicações. E morreram 64 pessoas, sem culpa nenhuma. Num país exigente, e com o que se sabe hoje, a Ministra da Administração Interna devia ter saído. Ou pelo seu pé ou pela mão do PM. Em Tancos, o Chefe do Estado Maior do Exército fez quase tudo errado:

  • Devia ter feito duas coisas: primeiro, devia ter-se demitido ou no mínimo colocado o seu lugar à disposição do poder político. Porque, mesmo não tendo culpa directa, o CEME tem uma responsabilidade objectiva – é o primeiro responsável de uma estrutura fortemente hierarquizada; depois, devia ter instaurado um inquérito para apurar culpas e culpados (responsabilidade subjectiva) ficando a aguardar-se conclusões para depois, nunca antes, assumir demissões e punições.
  • Ora, o CEME fez tudo ao contrário: não se demitiu nem sequer colocou o lugar à disposição, apesar de assumir que o roubo foi grave, que era responsabilidade militar e que até se sentiu humilhado; criou 5 vítimas mesmo antes de haver investigação, através de um despacho absurdo; e ilibou o Ministro de responsabilidades políticas, o que não é missão de um chefe militar.
  • Há uma coisa gravíssima: parecia que os dois – CEME e Ministro – estavam combinados: o CEME ilibava o Ministro; o Ministro em contrapartida reafirmava-lhe a confiança; ambos safavam a pele e no meio rolavam as cabeças de uns subalternos.
  • Esta imagem de combinação entre os dois é fatal. Saem ambos mal. E, sobretudo, sai muito mal a coesão militar.

 
Finalmente: a desastrosa gestão política do Governo.

No caso de Pedrógão, o PR liderou o processo do princípio ao fim e teve que puxar pelo Governo e às vezes quase levá-lo às costas; No caso de Tancos, foi ainda pior – não houve Governo e o Presidente da República teve que fazer de Presidente e de Governo ao mesmo tempo: ao exigir investigações; ao deslocar-se a Tancos levando atrás o Ministro da Defesa; e ao convocar o Conselho Superior de Defesa Nacional; Como o próprio Marcelo disse, esteve no limite dos seus poderes. E foi obrigado a isso porque não houve Governo.

 

 

AS FÉRIAS DE COSTA

 
António Costa começou por ter o chamado azar dos Távoras – marcar férias para esta semana. É um azar.

 
A seguir, cometeu o erro de não interromper as férias.

a) Pessoalmente, porque deve ter tido as piores férias do mundo. Sempre ao telefone e sempre em stress. Deve ter chegado mais cansado do que saiu;

b) Politicamente, porque não percebeu uma coisa essencial: é nos momentos difíceis que se vêem os primeiros-ministros. E neste momento difícil não houve sequer Primeiro-Ministro.

 
A questão mais relevante, porém, não são as férias. São três outras questões muito mais de fundo:

a) Primeiro: os socialistas sempre lidaram mal com as questões de segurança e de autoridade do Estado. Foi sempre assim. Está no seu ADN. Por maioria de razão quando nesses lugares estão ministros sem grande peso político.

b) Segundo: este Governo, perante qualquer problema sério, acha que resolve tudo com a política de comunicação. Dando entrevistas. Só que esquece que nenhuma política de comunicação é boa e eficaz se a própria não o for. Ou seja, nenhuma entrevista disfarça a inação ou a falta de decisão.

c) Finalmente: António Costa tem muito talento a estabelecer consensos, diálogo e negociações. Mas não parece ter o mesmo talento a dirigir, a comandar e a tomar decisões. Cada um é como é.

 

O ESTADO DE GRAÇA DO GOVERNO

 
Estas duas últimas semanas acabaram com o estado de graça do Governo. Até pode voltar mas agora acabou. Isto não significa que o Governo vá cair. Que a coligação vá implodir. Ou sequer que a popularidade do Governo vá cair a pique nas ondagens. Os portugueses, infelizmente, não dão muita importância às questões de segurança e de defesa. E não vêem, para já, que a oposição seja uma alternativa credível.

 
Mas é um ponto de viragem. A partir de agora haverá um antes e um depois. A pressão e a exigência dos portugueses vai ser maior. Tudo porque o Governo cometeu três erros capitais:

a)      Primeiro erro: o erro da inação. Numa semana difícil, o Governo nem agiu nem reagiu. Não existiu.

b)      Segundo erro: fica a sensação de que o PM é muito rápido a aparecer quando é para dar boas notícias e muito lento a surgir quando as notícias são más.

c)      Terceiro erro: fica a ideia de que António Costa preza mais a popularidade do que a autoridade. Encomendar e divulgar um estudo para medir a sua popularidade poucos dias depois das mortes de Pedrógão é um exercício de muito mau gosto. António Costa, a prazo, vai pagar um preço: Perde credibilidade; Perde a autoridade;

E mesmo as boas notícias económicas que existam no futuro estarão sempre "ensombradas" por este défice de intervenção.

 

A INVESTIGAÇÃO DE PEDRÓGÃO


Passaram três semanas depois do incêndio de Pedrógão. Em circunstâncias normais já devíamos estar a ter conclusões preliminares do que se passou. A verdade, porém, é que a Comissão de Inquérito do Parlamento ainda nem sequer começou a investigar.

 
Este processo, já o disse há 15 dias, é uma vergonha.

a)      Vergonha, porque não deve ser o Parlamento a investigar estes casos. Não é essa a sua missão.

b)      Vergonha, porque isto não passou de uma manobra do Governo com a colaboração ingénua da oposição, que caiu na esparrela.

c)      Vergonha, porque tudo isto se destina só a atrasar, confundir e nada esclarecer.

  •          Atrasar: só vamos ter conclusões depois das autárquicas. Quando PS, PCP e BE estiverem concentrados nas negociações do OE; e quando o PSD estiver virado para a crise interna e de liderança que se sucederá às autárquicas.
  •          Confundir: no entretanto, antes da investigação final, já há 5, 6, 7 ou 8 investigações parcelares. Investigações à la carte. Ao gosto do freguês. Tudo para confundir e baralhar. Ou seja: tudo menos real vontade de esclarecer, de tirar ilações e consequências.

 
No entretanto, relevante, relevante, será a investigação do Ministério Público. Essa, sim, é que poderá ditar consequências sérias. Demissões e outro tipo de responsabilidades.

 

 

A POLÉMICA DAS CATIVAÇÕES

 
A polémica das cativações mostra uma coisa singular: os partidos quando estão no poder dizem uma coisa; quando passam à oposição dizem normalmente o contrário do que diziam no poder.

Por isso, o discurso actual do PSD e CDS soa a contradição; e o discurso do PS, PCP e BE soa a hipocrisia.

a)      PSD e CDS – O pecado da contradição. No Governo defendiam a forte redução do défice e redução da despesa do Estado. Agora, atacando generalizadamente as cativações, parece que já estão a defender o aumento da despesa do Estado.

É por estas e por outras contradições que o Governo pode ter os trambolhões que tem tido que não baixa nas sondagens. Porquê? Porque os portugueses não se revêem na oposição que têm.

b)      PCP e BE – É o exercício da hipocrisia. Queixam-se agora das cativações. Mas ao longo deste tempo todo sabiam muito bem que o Governo estava a fazer enormes cativações. Engoliram tudo. Como vão continuar a engolir no futuro. Oportunisticamente, estão agora, apenas, a aproveitar-se da fragilidade política de António Costa.

 
Posto isto, há que perguntar o seguinte:

a)      As cativações são boas ou más? Se significarem cortes na despesa e incentivo à reestruturação dos serviços são boas. Se significarem apenas adiamento da despesa pública são más. Adiar é adiar, não é resolver.

b)      E no essencial as cativações em 2016 foram positivas? Eu diria que sim. Foram globalmente positivas. Permitiram reduzir o défice e esta era a grande prioridade nacional. Para sairmos da lista negra dos défices e para ajudar à redução da dívida.

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mais votado surpreso 09.07.2017

Este gajo é um aldrabão.PSD e CDS não criticam os cortes na despesa.Antes a omissão de onde foram feitos e a mentira sobre o DÉFICE.A burra "xuxa" da Clara de Sousa, nem sabe do que se trata

comentários mais recentes
O anão agitado 10.07.2017

Sempre agitado o pequenote

Anónimo 10.07.2017

Não falas da EDP? Se estes secretarios de estado saem porque viajaram à conta imagina o Mexia a gamar o povo em 2 mil milhões e pagar cursos para um ex Ministro leccionar? Disso não falas porquê? E da tramoia que mete a Martifer com o Barreto? Granda quadrilha.

anonimo 10.07.2017

Este pequenino, gosta muito de falar dos outros, mas quando foi citado em várias vigarices, disse que não se lembrava

surpreso 09.07.2017

Este gajo é um aldrabão.PSD e CDS não criticam os cortes na despesa.Antes a omissão de onde foram feitos e a mentira sobre o DÉFICE.A burra "xuxa" da Clara de Sousa, nem sabe do que se trata