Manuel  Falcão
Manuel Falcão 28 de julho de 2017 às 10:33

A esquina do Rio

Durante uma semana, o Estado escondeu informações e, ao contrário daquilo que o primeiro-ministro afirmava, ainda há muito por esclarecer - basta ver a lista das perguntas feitas por jornalistas do Público a várias entidades, e que não tiveram qualquer resposta.
Back to basics
Não há elegância na política moderna. É um inferno.
House of Cards, 5.ª temporada.

Ocultações
Durante uma semana, o Estado escondeu informações e, ao contrário daquilo que o primeiro-ministro afirmava, ainda há muito por esclarecer - basta ver a lista das perguntas feitas por jornalistas do Público a várias entidades, e que não tiveram qualquer resposta. E mais, de outros jornais, hão-de ter sido feitas e ficado sem resposta. Em abono da verdade, quem começou o aproveitamento político dos incêndios foi quem condicionou o acesso à informação, quem usou a justiça para sonegar dados, quem evitou esclarecer e quem defendeu a legitimidade do secretismo, como o inefável ministro Santos Silva.

Depois de tudo o que aconteceu, discutir o número de mortes parece macabro - mas foram as autoridades e quem as comanda, e não a oposição, quem iniciou o jogo. A verdade é que não foi só no cenário da tragédia que o Estado falhou. Ao longo destas semanas, tem-se visto que falhou na comunicação atempada e no esclarecimento cabal da verdade, que qualquer Governo deve aos cidadãos. Há um desagradável manto de silêncio, à espera que o tempo faça esquecer as dúvidas e os erros cometidos. Infelizmente, o incêndio de Mação levanta mais dúvidas e questões sobre a coordenação de meios pelas autoridades, a começar pela Protecção Civil. Cresce o somatório de indícios de uma mentalidade de disfarce bem visível na lei da rolha imposta aos bombeiros, factos que mostram como se querem esconder as falhas e os erros no combate às chamas.

A Autoridade Nacional de Protecção Civil, qualquer dia, muda o nome para Autoridade Nacional da Mordaça. E não consigo deixar de pensar que tudo isto, todo este silêncio, tem que ver com nomeações feitas pelo Governo há poucos meses nesta área crítica em época de fogos. Como Luís Paixão Martins escreveu no Facebook: "Tantos media, tanta informação, tantos directos. E ainda não sabemos o que se passou no incêndio de Pedrógão nem no furto de Tancos. É a época da ilusão da comunicação."

Termino, citando um texto admirável, um testemunho de Nádia Piazza, mãe de uma criança de cinco anos que morreu em Pedrógão Grande, que o Público divulgou no domingo: "Assim se vai governando Portugal. Sem pactos de regime e visão a longo prazo. Vão puxando o tapete uns aos outros, não se apercebendo de que, por fim, só restam cacos, dor, e tristeza para governar (...) O Estado não protegeu a sua Nação. Não assegurou o seu território e com ele o seu Povo. Fomos vítimas desta ausência insuportável de Estado."

Semanada
 O número de pedidos de novos cursos enviados por universidades e institutos politécnicos no último ano lectivo foi o mais baixo desde 2009  as esperas de mais de uma hora de turistas estrangeiros para entrar no aeroporto de Lisboa subiram 500% este ano  estão a vender-se mais 26 casas por dia do que em 2010, o ano que até agora registava o número mais elevado de transacções imobiliárias  dez deputados do  PS e PSD estiveram o último ano sem abrir a boca nas sessões plenárias do Parlamento  o Governo prevê gastar 700 milhões de euros em armas e equipamentos para as Forças Armadas; pelo segundo ano consecutivo, o Bloco de Esquerda foi o partido com mais diplomas aprovados no Parlamento  nos últimos dez anos, pelo menos 492 pessoas suicidaram-se em Portugal nas linhas de comboios  pastores da serra da Estrela estão a preparar um calendário sexy para 2018  mais de 1.600 estrangeiros foram impedidos de entrar em Portugal no ano passado por não reunirem as condições legais, o que significa um aumento de quase 29% em relação a 2015, revela o SEF  ainda segundo o SEF, no ano passado, foram emitidos quase 45 mil novos títulos de residência a estrangeiros  a investigação de crimes de corrupção demora, em média, cerca de quatro anos l este ano, estão a registar-se, em média, mais 34 crimes por dia do que em igual período do ano passado.

Dixit
Gostamos dos idiotas porque não nos põem em causa.
António Lobo Antunes

Ver
Se quiser ver arte contemporânea fora de Lisboa, pode, a partir de agora, dirigir-se a Abrantes, onde, num antigo quartel de bombeiros recuperado, passou a estar exposta a colecção Figueiredo Ribeiro. O quARTel, assim se chama este equipamento, será no futuro o centro de arte que vai acolher o acervo desta colecção, composta por mais de um milhar de obras de arte, abrangendo diversas áreas da criação artística, como o desenho (muito representativo), a pintura, a escultura, a instalação e a fotografia. Esta exposição inaugural, intitulada "Ponto de Partida", apresenta uma escolha de autores e obras muito representativos da arte contemporânea portuguesa, como Carlos Correia, Cristina Ataíde (na imagem), Duarte Amaral Netto, Edgar Martins, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Rui Calçada Bastos, Rui Chafes, entre outros. Até 29 de Setembro, Rua de Santa Ana 10, Abrantes. Outra sugestão, mais urbana - o Lisboa Stone Crushers quer pôr em evidência a criação artística ligada ao universo do skate, com exposições a ter lugar na Underdogs Public Art Store + Montana Lisboa, e que reúne obras de diferentes artistas convidados a intervir em tábuas de skate.

Folhear
"Lisboa Em Camisa" é um divertido livro, originalmente publicado em 1882, e que retrata as peripécias de uma família oriunda do Algarve, os Antunes, na Lisboa no final do século XIX. Antunes, o chefão da família, faz carreira no funcionalismo público, entre Conselheiros e Chefes de Repartição, tudo muito burocraticamente organizado, no meio de muitos salamaleques. A família vive na Rua dos Fanqueiros, a um passo do Terreiro do Paço, na época o indiscutível centro burocrático de Portugal. O autor, Gervásio Lobato, jornalista e romancista, tem um humor notável e é um certeiro observador de usos e costumes, sobre os quais ironiza com elegância. Ao ler o livro, encontramos o retrato de uma Baixa que já não existe, de lojas que fizeram época, de mercearias a chapelarias, uma Lisboa ainda sem transportes públicos, onde o precursor dos eléctricos, um veículo puxado a mulas e que dava pela designação de "americano", levava os lisboetas até à praia, a Pedrouços. O livro desenvolve-se à volta do baptizado de um filho do casal Antunes, um evento que terá repercussões, uma delas uma récita teatral.

É impossível não ler este livro, e as suas muitas e divertidas cenas, sem pensar que António Lopes Ribeiro e seu irmão Francisco Ribeiro, "Ribeirinho", se devem ter cruzado com estas leituras quando preparavam alguns dos seus filmes que fizeram uma época do cinema português. Imperdível leitura de Verão para nos fazer rir sobre as origens da burocracia e dos costumes que ainda perduram. Edição Guerra & Paz.

Gosto
Da recuperação do Pavilhão de Portugal, de Siza Vieira, para ser utilizado pela Universidade de Lisboa como pólo de difusão do conhecimento. 

Não gosto
O SIRESP voltou a falhar nos incêndios da Sertã e Castelo Branco. 

Ouvir
"Dança Ma Mi criola" foi o primeiro disco de Tito Paris, editado em 1995. Duas décadas depois, e após quase 15 anos sem publicar um disco de originais, ei-lo que regressa com "Mim Ê Bô". São treze temas, três dos quais gravados com Bana, Boss AC e Zeca Baleiro. "Mim Ê Bô" é uma expressão crioula que significa "eu sou tu". A música e os ritmos de Cabo Verde estão bem presentes nestes temas, que no entanto evocam também o cruzamento com os ritmos urbanos e europeus de Lisboa, onde Tito Paris reside habitualmente. Nascido no Mindelo em 1963, Aristides Paris de seu nome começou a tocar cedo em Cabo Verde, primeiro bateria e violão, ao lado de Bana, com quem deu os primeiros passos em concertos e digressões. A morna "Resposta de segredo cu mar", de B. Leza, foi um dos primeiros temas que cantou, mas só agora o gravou. Tito Paris tem também produzido e feito arranjos para discos de outros músicos e isso explica o cuidado posto na produção deste seu novo álbum, o recurso a mais instrumentos de cordas, ao acordeão, e até a uma pequena orquestra como em "Kêl li ka tá fazedo", um funaná em que Tito Paris substituiu a gaita por orquestra. Em "Fado triste", o músico fala de Cabo Verde, da saudade da sua terra natal, dos objectos que tinha no seu quarto no Mindelo, mas fala também de Lisboa, cidade para onde veio viver com 19 anos, a convite de Bana. Além do funaná, os ritmos da coladeira e da morna estão também patentes neste álbum em temas como "Mim Ê Bô" e "Mindel d'Novas". Disponível no Spotify.

Arco da velha
A secretária-geral do Sistema de Segurança Interna só tomou conhecimento do desaparecimento de material de guerra em Tancos através das notícias divulgadas pela comunicação social no dia seguinte ao assalto - "ler jornais é saber mais", como diz o Bartoon de Luís Afonso. 

Provar
O Algarve de finais de Julho é outra coisa. Comparando com o que se passa em Agosto, há menos gente nas praias e, claro, nos restaurantes. Santa Luzia, perto de Tavira, é uma das praias da zona da Ria Formosa, conhecida como a capital do polvo. Na sua marginal, existem numerosos restaurantes e vários especializados no octópode. Dois deles, lado a lado, reclamam para si o título do melhor na confecção do bicho. Em ocasião anterior, tinha visitado a Casa do Polvo, de que gostei, e desta vez fui ao lado, ao Polvo & Companhia, e não me arrependi. A Casa do Polvo é mais tradicional no menu, o Polvo & Companhia é mais atrevido nas propostas. Para começar, veio um carpaccio de polvo, muitíssimo bem cortado e temperado. E depois veio uma paella de polvo e marisco, muito bem servida e cozinhada. Farta e abundante em diversas espécies, os tentáculos do polvo estavam tenros e os nacos que polvilhavam a paella, ao lado de mexilhões, camarões e berbigão, estavam temperados de forma aprimorada. Cabe ainda dar muito boa nota ao serviço, sempre bem disposto e eficaz, mesmo já tarde na noite. Um contraste absoluto com um afamado restaurante de Cabanas de Tavira, Noélia e Jerónimo, onde a arrogância dos empregados, face à elevada procura do local, ultrapassa tudo o que já vi, chegando mesmo a destratar pessoas que só queriam saber se o nome estava na lista de candidatos a uma mesa. Local a evitar, este Noélia e Jerónimo, não há cozinha que justifique más-criações. Um dia, hão-de querer clientes e não ter.


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