Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 03 de setembro de 2017 às 20:58

"Este é o mais difícil, eleitoralista e perigoso" orçamento de Costa

Luís Marques Mendes faz, ao domingo, os seus comentários do que aconteceu durante a semana na SIC. E o Negócios publica as notas que servem de base aos comentários. Esta semana fala do Orçamento para 2018, da Autoeuropa, de Cavaco, e do BCP, entre outros assuntos.

ORÇAMENTO PARA 2018

 
Decorrem as negociações do OE para 2018. Três conclusões a tirar:

a) Este é o OE mais difícil de fazer da era Costa. Porque o ambiente na coligação já não é o que era e as pressões do PCP e do BE são maiores do que nunca. Por isso, as negociações vão prolongar-se para depois das autárquicas;


b) Este vai ser o OE mais eleitoralista do Governo Costa. Neste momento o eleitoralismo está à solta. E não é só por causa das autárquicas. É pelo futuro. Todos acham que há folga suficiente para abrir os cordões à bolsa. Só falta saber se no final vamos ter um OE de eleitoralismo moderado ou um OE de eleitoralismo pesado.

c) Este vai ser o OE mais perigoso de todos. E o maior perigo é o de voltarmos a ter um grande aumento de despesa pública. Expliquemos:

  • Este crescimento da economia dá para tudo: para alívio fiscal; para redução do défice; e para aumento da despesa pública.
  • Só que este crescimento é muito ilusório e pouco sustentado – ele é fruto, sobretudo, de um tempo de vacas gordas, importado do exterior (turismo e exportações). Basta que passe o tempo de vacas gordas para ao voltarmos ao ciclo vicioso de sempre: a economia arrefece, a receita baixa, a despesa fica e temos de aumentar impostos.

Há ainda um risco político enorme – o risco de António Costa ceder em demasia às exigências dos seus parceiros. Isso é muito provável por causa do PCP.

  • O BE faz muito show off mas no momento da verdade é mais flexível.
  • O PCP, ao invés, é mais sóbrio no discurso mas mais renitente na decisão.
  • O PCP está neste momento em grande desconforto e tem vindo a endurecer posições – e admite mesmo abster-se na votação do OE para 2018. O OE passaria mas a abstenção seria má para a coligação.
  • A minha convicção é que, chegado ao momento da verdade, o PCP vai mesmo votar a favor. Mas até lá vai manter o suspense, a ameaça e a dúvida e a decisão final terá muito a ver com o resultado autárquico e com as cedências do Governo.

O ATAQUE DE CAVACO A MARCELO

 

A intervenção de Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD foi a rentrée mais "vistosa" de todas. Apesar de ter sido num discurso muito criticado, eu acho que há que distinguir o conteúdo da forma.


No conteúdo, é difícil não reconhecer que Cavaco tem carradas de razão.

  • Tem razão quando diz que Hollande e Tsipras tiveram entradas de leão e saídas de sendeiro. Iniciaram funções a prometer o fim da austeridade e acabaram a praticar a austeridade.
  • Tem razão quando diz que com mais impostos e mais despesa pública não seremos competitivos. É elementar.
  • Tem razão quando diz que o Governo prometeu uma estratégia económica e está a executar uma estratégia contrária à que prometeu. A promessa era a de que o consumo e o investimento público puxariam pela economia; agora, afinal, são o investimento privado e as exportações que alavancam o crescimento económico. Verdades inconvenientes mas verdades!
  • E até podia acrescentar: antes diziam que reduzir o défice e promover o crescimento era impossível. Esse mito caiu. Temos hoje o défice mais baixo de sempre e o maior crescimento do século; antes diziam que crescer com estas regras europeias era impossível – afinal, estamos a cumprir as regras e a crescer como poucas vezes sucedeu.

Na forma é que Cavaco Silva não foi feliz.

  • Não foi feliz na linguagem. "Perder o pio, piar baixo, piar alto" não é linguagem própria de um Presidente ou ex-Presidente.
  • Depois, criticar o seu sucessor não é bonito nem é justo e é um mau precedente. Uma boa prática que temos em Portugal é que Presidente que sai não critica o seu sucessor. Eanes não criticou Soares; Soares não criticou Sampaio; Sampaio não criticou Cavaco.
  • Acresce que as críticas de Cavaco a Marcelo soam a injustiça. Ao longo deste mandato Marcelo tem sido correcto com o seu antecessor.

Se eu pudesse dar um conselho a Cavaco Silva, diria: sempre que intervier em público devia fazer duas coisas: primeiro, devia evitar intervenções que sejam vistas como ajustes de contas (quem tem uma carreira invulgar com 4 maiorias absolutas deve estar acima de questiúnculas menores); e devia falar mais de futuro e menos do passado. O futuro é que mobiliza e gera esperança).

RENTRÉES DO PCP E PSD


A Festa do Avante ocorreu este ano num clima de grande stress político para o PCP. O Partido Comunista está muito preocupado com as eleições autárquicas.

  • Não é tanto a preocupação de perder presidências de câmaras. É a preocupação de perder maiorias que tem em várias Câmaras pelo país fora. Ou seja, de perder poder e perder lugares.
  • E é isto que leva o PCP a endurecer posições, seja no plano sindical, seja nas negociações do Orçamento.
Universidade de Verão do PSD

a) O grande objectivo de Passos Coelho no imediato não são as legislativas de 2019. Ou seja, não é o voto dos portugueses.

b) O grande objectivo é a luta pela liderança que vai ocorrer a seguir às autárquicas. Ou seja, a sua preocupação é o voto dos militantes do PSD.

c) E, neste quadro, Passos Coelho teve uma boa semana, com dois apoios inesperados mas importantes:

  • O apoio de Cavaco Silva – na prática, Cavaco Silva veio dar o seu apoio a Passos Coelho;
  • O apoio de António Costa – o PM fez no fim de semana passado duras críticas a Passos Coelho. Críticas que indignaram os militantes. Só que ninguém observou o seguinte: do ponto de vista interno, essas críticas só favorecem Passos Coelho. Porque unem os militantes em torno do seu líder. Admito que essa não tivesse sido a intenção de Costa (embora ele não dê ponto sem nó), mas o resultado foi esse.

AUTOEUROPA

 
O que se passa na Autoeuropa, mais do que um confronto laboral, é sobretudo uma guerra política, liderada pela CGTP. Há 20 anos que a CGTP não "manda" na Autoeuropa. E quer mandar. E com a saída de António Chora, líder da Comissão de Trabalhadores e próximo do Bloco de Esquerda, a CGTP vê aqui uma oportunidade de passar a "mandar".

 
Só que esta guerra política pode ser grave, pode ter riscos enormes, consequências sociais sérias.

a) Pode ser grave – Em 20 anos de grandes mudanças no sector automóvel, a Autoeuropa nunca esteve em risco de fechar. Mérito de quê? Sobretudo do clima de paz social que fez com que a Autoeuropa se afirmasse como uma das unidades mais eficientes do grupo Volkswagen. Se este clima se perder, pode haver riscos sérios.

b) Que riscos? O risco de a empresa diminuir a sua actividade ou até de se deslocalizar para outro lado. E esta empresa é decisiva para a economia nacional.


c) Que consequências sociais? Ao nível do emprego. Mesmo que a Autoeuropa não feche, basta que este projecto da nova viatura não vá por diante para deixarem de ser criados 2 mil novos postos de trabalho. Ou seja, estes sindicalistas estão a pensar muito em si e pouco nas pessoas que estão cá fora à procura de um posto de trabalho.


d) Finalmente, convinha que os sindicalistas da Autoeuropa tivessem um pouco de memória: foi assim, com tanta obstinação, confrontação e intransigência, que a Opel na Azambuja fechou. Ninguém ganhou e todos perderam.

 

 
A LUTA DOS ENFERMEIROS-PARTEIROS

 
Outra loucura é a luta dos enfermeiros-parteiros (os chamados enfermeiros especialistas) por melhores salários.

 
É óbvio que os chamados enfermeiros-parteiros têm todo o direito a reivindicarem melhores salários e adoptar as formas de luta que considerem mais adequadas. Desde que:

a) Tenham bom senso e não coloquem em causa os partos.

b) Um hospital não é uma fábrica de sapatos; e as grávidas e bebés não são nem mercadoria nem arma de chantagem negocial.

Posto isto, há que dizer o seguinte: o que os enfermeiros-parteiros estão a querer fazer é uma loucura.

a) Primeiro: pedir aumentos salariais imediatos de 70% ou 100% é uma perfeita loucura. Haja bom senso. Isto é impossível.

b) Depois: recusarem a assistência aos partos é uma loucura ainda maior. Esta loucura retira-lhes toda a razão que eventualmente possam ter nas suas reivindicações salariais.

 
Este vai ser o grande caso social nas próximas semanas. Eu espero duas coisas: que haja bom senso e que alguém venha a intermediar este conflito. Doutra forma isto pode ser o caos.

AMEAÇA TERRORISTA EM PORTUGAL?

 
Apesar dos rumores que circularam na Internet, a partir de uma fuga de informação que deu nota de uma reunião de emergência realizada entre os Serviços de Informações e as Polícias, a verdade é que, ao que se sabe, nada há nada de consistente. Nem motivo de alarme.

  • Apesar de a ameaça ser global – e de ninguém estar imune – Portugal continua a não ser um alvo do terrorismo.

Há, porém, duas coisas inacreditáveis nesta "história".


a) A primeira é a fuga de informação. Então pode lá admitir-se que numa matéria tão sensível haja com esta facilidade uma fuga de informação de uma reunião oficial? Isto não é compreensível nem aceitável. É um sintoma de que internamente a coordenação e a eficácia deixam algo a desejar.

b) A segunda é sobre a liderança dos Serviços de Informações. Há vários meses que está para ser nomeado o nº 1 dos Serviços de Informações. Ou seja, há vários meses que não há liderança efectiva nos Serviços de Informações. Num tempo delicado como o que vivemos, este "vazio" é prejudicial a todos os títulos.

 
Mas a boa notícia que aqui posso dar é que amanhã mesmo o Governo enviará à Assembleia da República o nome do novo secretário geral do SIRP, para a respectiva audição parlamentar.

É caso para dizer que ainda bem. Já não era sem tempo.



NOTAS FINAIS

BCP põe o BP em tribunal por causa da garantia dada pelo Fundo de Resolução na venda do NB.


Diz-se que o Governo não gostou. Mas faz mal.


Esta decisão do BCP é de enorme qualidade:

  • Primeiro: mostra independência em relação ao Estado. Bem.
  • Segundo: mostra respeito pelos accionistas. Muito bem.
  • Terceira: não hostiliza nem impede a venda. É equilibrada.
  • Quarta: pode ter um efeito dissuasor. Evitar que a garantia seja usada, no todo ou em parte.
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mais votado Anónimo 04.09.2017

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2015 Pro231.540,4
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Vejam a diferença da divida entre 2005 e 2011, anos de governação do socrates, 90 MIL MILHÕES DE EUROS em 6 anos!!! Explica a bancarrota de 2011. Atualmente de 2015 para 2016 cresceu 10 mil milhões num ano e este ano em 7 meses já vai em 9 mil milhões. Com os socialistas não tem nada que inventar, o resultado é sempre o mesmo. O maior cego é o que não quer ver.

comentários mais recentes
Anónimo 08.09.2017

Um enfermeiro escreveu uma carta aberta enviada ao Notícias ao Minuto. Nesta carta o Sr Dr Marques Mendes pode informar-se um pouco melhor: https://www.noticiasaominuto.com/pais/859914/serao-os-enfermeiros-que-sustem-o-sns-os-irresponsaveis-gananciosos ou aqui https://cogitareemsaude.wordpress.com

pertinaz 04.09.2017

NÃO É NADA... A ESCUMALHA PCP/BE APROVA TUDO...!!!

Anónimo 04.09.2017

Cada vez que vejo os comentários às noticias confirmo cada vez mais a burrice dos portugueses em geral. Em vez de discutirem as questões e problemas de fundo, discutem política como se tratasse de futebol. O PS corresponderá ao Benfica e o Sporting ao PSD.

Anónimo 04.09.2017

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Vejam a diferença da divida entre 2005 e 2011, anos de governação do socrates, 90 MIL MILHÕES DE EUROS em 6 anos!!! Explica a bancarrota de 2011. Atualmente de 2015 para 2016 cresceu 10 mil milhões num ano e este ano em 7 meses já vai em 9 mil milhões. Com os socialistas não tem nada que inventar, o resultado é sempre o mesmo. O maior cego é o que não quer ver.

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