Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 10 de setembro de 2017 às 21:16

Marques Mendes: Este será o Orçamento mais difícil de fazer

Luís Marques Mendes faz, ao domingo, os seus comentários do que aconteceu durante a semana na SIC. E o Negócios publica as notas que servem de base aos comentários. Esta semana fala do Orçamento para 2018, da relação entre Marcelo Rebelo de Sousa e Passos Coelho e sobre a ideia de maioria absoluta que divide a geringonça.

VIAGENS PAGAS A AUTARCAS

  1. Já falámos das viagens de altos dirigentes do Estado. Agora são as viagens de autarcas convidados a viajar por empresas privadas (designadamente a Microsoft).
  1. Até há pouco, tudo isto era visto na sociedade como normal. Autarcas sérios e rigorosos faziam deslocações, a convite de grandes empresas estrangeiras, e ninguém via mal nisso. Só que os tempos mudaram. Depois da crise, as pessoas tornaram-se mais exigentes e o escrutínio aumentou. Conclusão: o que antes era considerado normal passou agora a ser visto como uma anormalidade, um erro, um comportamento pouco ético.
  1. Já o disse aqui, há três semanas, e agora o repito: há que mudar os comportamentos. Um responsável público não deve viajar a expensas de uma entidade privada. Porquê?

a) Primeiro: para garantir o princípio da Mulher de César. Não basta ser-se sério, é também preciso parecê-lo.

b) Segundo: para evitar suspeições. Se a seguir a uma viagem há uma adjudicação ou uma compra à empresa que convida fica sempre no ar uma suspeição, mesmo que injusta ou sem fundamento.

c) Terceiro: para ser pragmático e não ingénuo. Nenhuma empresa privada gasta milhares de euros em viagens pagas a entidades públicas sem querer uma contrapartida. Tal como não há almoços grátis, também não há viagens grátis.

 

 

DONATIVOS DE PEDRÓGÃO

  1.  Nesta polémica há coisas boas e más. Comecemos pelo pior.

a)  Andou mal o Presidente da Câmara de Pedrógão, ao insinuar a existência de desvios de verbas. Desviar verbas é crime. Há alguma prova? Não há. Então se não há, convém não brincar com o fogo.

b)  Andou mal a oposição ao usar o tema para luta partidária. Depois do episódio dos suicídios e da lista dos alegados mortos escondidos, já chega de partidarização desta matéria.

c)  Andou mal o Governo ao não dar informação sobre o destino dos donativos. Foi preciso o Presidente da República dar um "puxão de orelhas" ao Governo para o Governo vir explicar.

  1.   Mas há também coisas boas. Fora da politiquice, as coisas estão a correr bem.

a)  Primeiro: nos 7 concelhos que estão sob intervenção (Pedrógão, Castanheira, Figueiró, Penela, Sertã, Pampilhosa e Góis) há cerca de 190 a 200 casas para reconstruir. Pois bem, em pouquíssimo tempo, 60 já estão em andamento. 20 construídas e 40 em obra.

b)  Segundo: há 4 fundos a gerir os donativos (1 do Estado e 3 privados), mas há uma boa articulação e na prática o Estado está a fazer a coordenação (através do Revita e da CCDR do Centro), para definir regras iguais, evitar duplicações de intervenções e impedir aproveitamentos ilegítimos de dinheiros doados.

c)  Terceiro: os processos administrativos com vista à reconstrução de casas são processos muito simples e desburocratizados.

  1.  Ou seja, tudo no terreno está a correr muito bem. E, se não fossem as eleições autárquicas, nem sequer haveria polémica.
  1.  Nota final: o Presidente da Comissão Independente de Inquérito disse há dias que o relatório final há-de ser muito rigoroso a analisar as causas estruturais deste flagelo de Pedrógão. Mas, já agora, convinha não esquecer-se também das causas conjunturais. O país agradecia saber tudo o que sucedeu naquele fatídico 17 de Junho.

 

DEBATE AUTÁRQUICO DO PORTO

  1. Acho que foi um debate mais fraquinho que o de Lisboa. Ninguém esteve particularmente bem. Mesmo assim:

a) O mais eficaz: Rui Moreira. Estava bem preparado. O mais bem preparado. Não teve a preocupação de falar muito. Mas sempre que interveio foi assertivo e eficaz.

b) O mais acutilante: João Ferreira Lopes do BE. Sempre ao ataque, a provocar o PS e Rui Moreira.

c) O mais previsível: Ilda Figueiredo da CDU. É uma histórica do PCP.

d) E, finalmente, os dois que querem ser alternativa, mas não conseguem: um porque não pode, o outro porque não sabe.

  • Pizarro, do PS, não pode ser alternativa. Durante quase 4 anos foi o nº 2 de Rui Moreira. Foi tão responsável como Rui Moreira pelo que foi ou não foi feito. Logo, não pode ser alternativa.
  • Álvaro Almeida, do PSD, provou que não sabe ser alternativa. Tem vontade mas não chega. Passeou pelo debate mas não deixou qualquer marca ou ideia que perdure para o futuro.
  1.   Exageros de eleiçõesTodos sabem que eleições se prestam a exageros. Só que há exageros e exageros. Exageros que se toleram e exageros que matam pelo ridículo.
  •     Já se falou do Aeródromo Internacional de Coimbra (promessa do Presidente da Câmara).
  •     Agora, é a promessa do candidato do PS à Câmara da Guarda, quer quer criar uma moeda local, chamada "sancho".
  •     Convinha haver algum bom senso. Desta forma não se ganha um voto e perde-se credibilidade.

  

AGRAVOU-SE A RELAÇÃO MARCELO/PASSOS?

  1. Os jornais do fim-de-semana apressaram-se a especular que se agravou a relação entre Marcelo e Passos Coelho, em virtude de "recados" enviados um ao outro. A minha opinião é outra e diferente.
  1. A relação agravou-se? Eu acho que não. Porque é muito difícil agravar-se uma relação que já é má. A relação de Passos Coelho com Marcelo Rebelo de Sousa é má há anos. Como, no passado, era má a relação de Soares Presidente com Vítor Constâncio ou Jorge Sampaio, como líderes do PS na oposição. Nada disto é um drama.
  •     Como a relação de Passos Coelho com Cavaco Silva era má até chegar a PM. Só melhorou depois disso. Tudo isto é normal e até absolutamente legítimo.
  1. O que já não se percebe é qual é a vantagem que Passos Coelho tira de querer acentuar uma má relação com o Presidente da República. Por duas razões muito simples:

a)  A primeira é que sendo Marcelo Rebelo de Sousa um Presidente altamente popular, uma certa "oposição" de Passos Coelho ao Presidente torna-o mais impopular. Nos eleitores mas também nos militantes do PSD. É que uns e outros, na sua esmagadora maioria, gostam do Presidente.

b) A segunda razão é que, no momento em que acentua divergências com o Presidente, Passos Coelho comete um duplo erro: dá trunfos a António Costa; e desvia as atenções do seu adversário principal que é o Governo.

  1. Em Portugal, não compensa um líder da oposição estar em conflito com o Presidente da República, em particular quando pertencem à mesma área política. Que o diga António Guterres, nos anos 90. Apesar de entre ele e Soares não passar no início grande química, o compromisso político que ambos fizeram ajudou muito Guterres a chegar ao poder.

MAIORIA ABSOLUTA DIVIDE GERINGONÇA 

  1. A entrevista de Catarina Martins, ao Expresso, é a prova do que aqui tenho dito: uma das maiores divergências na geringonça é a ideia de maioria absoluta do PS em 2019.
  1. António Costa não pensa noutra coisa que não seja na maioria absoluta. Porquê?

a) Primeiro: porque governar em maioria é mais fácil do que governar em coligação. Ainda por cima com este tipo de coligação.

b) Segundo: porque ele sabe que esta "coligação a três" é difícil de repetir. O PCP está "mortinho" por sair, depois de 2019, e o BE "mortinho" por entrar para o Governo, depois de 2019. Ou seja, interesses divergentes.

c) Terceiro: porque depois de 2019 já não haverá o "papão" Passos Coelho, que tem sido, objectivamente, um dos maiores seguros de vida desta coligação.

d) Quarto: porque sabe que sem maioria absoluta corre o sério risco de lhe suceder o que sucedeu a Guterres – cair a meio do próximo mandato. Teremos o Costa 2 igual a Guterres 2, ou seja, fragilizado.

  1. Só que o que pode ser bom para António Costa é um susto para o PCP e sobretudo para o BE. Apesar de todos os dissabores, ambos gostam de estar próximos do poder.
  •   E, se o PCP não terá dificuldade em adaptar-se a ser, de novo, oposição, já para o BE essa mudança será um retrocesso.
  •   É também por isso que ambos "aprovarão" o OE. A ideia de uma crise e eleições antecipadas assustam um e outro, PCP e Bloco.


AS POLÉMICAS DO ORÇAMENTO
 

  1.  Continuam as polémicas sobre o OE para 2019, a provar o que tenho dito: o Orçamento mais difícil de fazer.

a) O PM finalmente falou sobre o Orçamento, para pôr alguma ordem na casa e mostrar que "tem a faca e o queijo na mão". Estava a ser encurralado pelos seus parceiros e quis passar à ofensiva. E ao falar de um OE de progresso sustentável quis dizer "vamos ter um eleitoralismo moderado". Foi um certo "balde de água fria" para os seus parceiros.

b) A oposição anda muito feliz com os desentendimentos à esquerda. Mas atenção! Deve ter muito cuidado e não embandeirar em arco porque não vem aí o diabo. Nem nada que se pareça. Os parceiros de coligação berram, falam alto, exigem muito, mas quando chegar o momento da verdade aprovam o Orçamento. Não vai haver crise.

c) O PCP, confirma-se, é o mais nervoso e preocupado. Esta semana mais um sinal. Um comunicado inédito, a comentar um comentário: o meu comentário de domingo passado. Eu registo com satisfação esta atenção do PCP sobre o que digo. E o que digo são três coisas:

  • O PCP está preocupado com as autárquicas;
  • Ameaça internamente com a ideia de abstenção no OE;
  • Mas, no momento da verdade, vai mesmo votar a favor.
  1.   A nota, porém, mais surpreendente foi a notícia de que o PSD e CDS ponderam aliar-se ao PCP e BE para aprovarem novas regras sobre CATIVAÇÕES.
  •   Que PCP e BE queiram mudar as regras percebe-se. Sempre foram contra as cativações (poupanças).
  •   Agora, que PSD e CDS alinhem neste discurso é surpreendente: primeiro, porque quando no Governo também fizeram cativações; depois, porque cativar significa poupar e gastar menos, o que PSD e CDS sempre defenderam no Governo.
  •   É assim que se vai perdendo a credibilidade.
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comentários mais recentes
Anónimo 10.09.2017

Uma no cravo e outra na ferradura! Nada de novo! Um dia destes vais ser obrigado a tomar uma opção!

General Ciresp 10.09.2017

Olha la oh alface fresca afinal onde esta a novidade de este orcamento ser o mais dificil:quando se cerca o mentiroso(cativeiro mimico aritmetico)ele nao tem mais margem para enganar o ceguinho.Ou estara alguem convensido das suas CATIVACOES para alem jornalecos .Quem nao e transparente nao e serio