Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 17 de setembro de 2017 às 21:10

Marques Mendes: decisão da S&P é histórica

Luís Marques Mendes faz, ao domingo, os seus comentários sobre o que aconteceu durante a semana na SIC. E o Negócios publica as notas que servem de base aos comentários. Esta semana fala da subida do "rating" de Portugal pela S&P, da entrevista de Costa ao DN e da casa de Medina.

A SUBIDA DO RATING

 

  1.       A decisão da Standard & Poors é uma decisão histórica. Uma decisão com efeitos na imagem do país, com consequências financeiras e com implicações políticas.

a)      Efeitos na imagem do país – Com esta decisão, a imagem externa de Portugal melhora muito. É um enorme ganho de credibilidade e de reputação. A generalidade dos investidores passa a olhar para Portugal de forma mais positiva.

b)      Consequências financeiras – Com esta decisão, criam-se condições para uma redução dos juros da dívida pública. Haverá mais procura da dívida portuguesa, mais investidores a comprar dívida pública e, em consequência, juros mais baixos. É bom para o Estado e para a sociedade.

c)      Implicações políticasO Governo sai reforçado sobretudo perante os seus parceiros de coligação. De resto, as primeiras declarações mostram isso mesmo:

  •          O entusiasmo do Governo é notório – quer nas palavras do Primeiro-Ministro, quer nas palavras do Ministro das Finanças.
  •          O embaraço do PCP e do BE é evidente. Têm muita dificuldade em disfarçar o incómodo. Até parece que estão na oposição.
  •          O que tudo prova que estes é que são os verdadeiros temas fracturantes dentro da geringonça.
  •          A partir daqui, qualquer ideia de rejeição de orçamentos ou de abertura de uma crise política parece-me impensável. Só se PCP e BE fossem doidos. E doidos é que eles não são. Se abrissem uma crise davam já uma maioria absoluta ao PS. E suicidavam-se na praça pública.

 

A ENTREVISTA DE COSTA

 

  1.       Parece-me uma boa entrevista. Das melhores que o PM deu até hoje. No essencial, tem as mensagens certas: rigor nas contas públicas; ambição prudente em relação ao futuro da Europa; sentido de responsabilidade relativamente à política económica; e, em geral, é uma entrevista com sentido de Estado e com um pensamento estruturado.

 

  1.       Tem, apenas, dois aspectos menos felizes:

a)      Infeliz nas críticas a Passos Coelho sobre a imigração. Passos Coelho pode ter muitos defeitos, mas não é racista nem xenófobo e nem sequer foi imprudente nas reservas à nova lei da imigração. Basta ver as críticas que o SEF também fez à nova lei, tudo no mesmo sentido do líder do PSD.

b)      Infeliz, sobretudo, ao falar de André Ventura, o candidato do PSD a Loures.

  •          Primeiro, porque está dar a André Ventura uma importância que ele não tem, ou seja, uma importância nacional;
  •          Segundo, porque está a valorizá-lo a um ponto que eu julgava impensável. Então o PM de Portugal põe-se a comentar um candidato a vereador de uma Câmara Municipal? Onde é que isto já se viu?
  •          Terceiro, porque está a fazer o jogo que aquele candidato deseja: o que Ventura deseja, com os disparates que tem dito, é que falem dele, para ganhar notoriedade e importância. António Costa premiou-o, em vez de o desvalorizar.

 

 

ELEIÇÕES COM FUTEBOL - SIM OU NÃO?

 

  1.       Durante 40 anos não houve jogos de futebol em dia de eleições. Nos últimos dois anos tudo mudou. Qual a melhor solução?

a)      Primeiro: tenho dificuldade em entender que durante 40 anos não tivesse havido jogos em dia de eleições e nunca tivesse havido qualquer polémica; e que, de repente, sem qualquer tipo de explicação convincente, tudo tivesse mudado, gerando-se quase um "caso" nacional;

b)      Segundo: reconheço que há argumentos num sentido e noutro. E que ambos são responsáveis.

c)      Terceiro: se eu tivesse que decidir, preferia a solução de compromisso que está prevista para 1 de Outubro: não há jogos de futebol até às 19 horas, hora de encerramento das urnas; mas a partir do fecho das urnas os jogos podem realizar-se, se a Liga assim o entender.

  •          É uma solução de bom senso. Assim se conciliam os dois interesses, prestigiando e não banalizando o acto eleitoral.

 

  1.       Duas notas finais:
  •          Primeira: o Governo, ao que parece, vai mesmo avançar com uma lei para regular esta matéria. Devo dizer que preferia que esta questão se resolvesse na base do bom senso – por diálogo entre o Governo e a Liga – e não por uma imposição legal. Era mais simples e mais sensato.
  •          Segunda: tudo, um dia, pode ser diferente, quando existir o chamado "voto em movimento". O que é isso? É a possibilidade de um cidadão recenseado, por exemplo, em Lisboa, mas estando deslocado no dia das eleições, por exemplo, no Porto, aí poder votar, sendo o seu voto imediatamente transferido para Lisboa.
  •          E a novidade é que o Governo pensa introduzir este novo sistema – voto em movimento – embora a título experimental, já nas eleições para o Parlamento Europeu, em 2019.

 

A CASA DE FERNANDO MEDINA

 

Quatro breves apontamentos sobre esta polémica:

 

  1.       Primeiro: este caso cheira a denúncia eleitoral. É tão óbvio, tão óbvio, que até faz impressão. Mas tenho a sensação que não dá nem tira um voto.

 

  1.       Segundo: tenho Fernando Medina na conta de pessoa séria e honesta. Não o estou a ver a comprar uma casa em regime de favor e a oferecer, a seguir, uma contrapartida, a título de compensação.

 

  1.       Terceiro: acho que, surgida a notícia, o Presidente da Câmara agiu com transparência e não se refugiou em formalismos. Assim, cada qual tira as suas conclusões.

 

  1.       Quarto: o Ministério Público averiguará e tirará as suas conclusões. Mas, dos dados vindos a público, não parece existir uma relação de causa/efeito entre a compra da casa e a decisão da Câmara Municipal em relação à obra entregue a uma construtora.

 

Numa palavra: houve notícia mas não me parece haver caso.

 

CONSENSOS PS/PSD NAS OBRAS PÚBLICAS?

 

  1.       O Governo, através do Ministro Pedro Marques, voltou a insistir esta semana na necessidade de um consenso entre Governo e PSD sobre a forma de aplicação dos novos Fundos (a partir de 2020), incluindo sobre novas obras públicas.

 

  1.       Impõe-se, a este respeito, dizer três coisas:

a)      Primeiro – Quanto à oportunidade: a proposta do Governo feita nesta ocasião parece uma provocação ao PSD. Em vésperas de duas eleições – eleições autárquicas e, a seguir, eleições internas para a liderança do Partido – é óbvio que o PSD não pode negociar qualquer acordo. Como o PS não poderia se as questões se colocassem ao contrário. Em tempo de eleições não se firmam consensos ou acordos.

b)      Segundo – Quanto ao conteúdo da proposta: o PS tem razão mas não tem grande autoridade. Tem razão porque matérias desta natureza devem ter um consenso alargado entre quem é Governo e quem aspira a sê-lo. Mas não tem grande autoridade. Até hoje, o PS nunca quis qualquer consenso com o PSD. E até rasgou o único que existia e que vinha de trás (quanto à descida do IRC).

c)      Terceiro – Quanto à posição do PSD: passados os dois períodos eleitorais, o PSD deve disponibilizar-se para negociar com o próximo Quadro Comunitário de Apoio. Seria impensável que não o fizesse.

  •          Mas o PSD não se deveria limitar a negociar obras públicas. Isso é uma visão muito redutora do futuro do país.
  •          O PSD deverá impor para a negociação outros temas. Três exemplos apenas: a competitividade fiscal; a sustentabilidade financeira do Estado; a estratégia de combate aos problemas demográficos nacionais.
  •          Ou seja: negociar e consensualizar, sim; mas com visão estratégica e sentido de futuro.

 

AS DECLARAÇÕES DE JERÓNIMO DE SOUSA

 

  1.       No início da semana, o líder do PCP causou algum sururu ao dizer que esta solução de Governo não é repetível. O sururu foi de tal monta que alguns comentadores e não só vieram logo alimentar a ideia de que a legislatura não iria até ao fim. Eu diria o seguinte: essas análises são manifestamente precipitadas. Nada disso vai suceder.

a)      Primeiro: é preciso perceber o PCP. Jerónimo de Sousa só faz isto, tentando o mais possível demarcar-se do Governo por causa das eleições autárquicas. Tem de mostrar a sua autonomia. Mostrar que bate o pé ao Governo. São as primeiras eleições depois de a geringonça ter sido criado.

b)      Segundo: a seguir às autárquicas, o PCP voltará ao mesmo de sempre. De forma mais ou menos confortável (depende do resultado eleitoral), aprovará o OE de 2018 e o de 2019, e não provocará qualquer crise política. O PCP e o BE fogem de qualquer crise política como o diabo da cruz.

  •          Primeiro: porque quem provocasse uma crise política seria penalizado nas urnas. O único beneficiário de eleições antecipadas seria o PS.
  •          Segundo: ainda por cima chumbar os 2 próximos orçamentos seria um harakiri político. É que os próximos orçamentos só vão ter coisas boas – alívios fiscais; aumentos de pensões; descongelamento de carreiras. Chumbá-los e abrir uma crise, insisto: só se o PCP fosse um bando de loucos. E isso o PCP não é. É o partido mais calculista de todos.

 

  1.       De resto, veja-se o calculismo do PCP no caso dos enfermeiros:

a)      O sindicato afecto ao PCP não estava na greve mas sim a negociar com o Governo.

b)      Quando viu que a greve tinha proporções fortíssimas, mudou de registo. Deixou as negociações e avança agora para a greve. O PCP não brinca em serviço.

 

O FUTURO DA EDP

 

  1.        A EDP vai fundir-se ou não com os espanhóis da Gas Natural, como veio a público nos últimos dias? Vamos por partes
  1.       O que está em causa?  Duas estratégias, radicalmente diferentes para o futuro da EDP:

a)      Uma estratégia com liderança espanholaSeria a fusão EDP/Gas Natural, sendo que a EDP é 1/3 da sua congénere espanhola.

b)      Uma estratégia com liderança chinesa – A EDP não seria vendida a ninguém nem se fundiria com ninguém, mas iria crescer, e muito, através de uma maior aposta dos chineses, em termos de participação e de novas responsabilidades.

 

  1.       Qual é a melhor para Portugal? Eu diria que é claramente a segunda hipótese, a do crescimento através da liderança chinesa. A solução da liderança espanhola teria várias desvantagens.

a)      Primeiro: seria a subalternização da EDP. Formalmente seria uma fusão. Na prática, a Gas Natural engolia a EDP.

b)      Segundo: o centro de decisão rapidamente passava de Portugal para Espanha, de Lisboa para Barcelona.

c)      Terceiro: a gestão, a prazo curto, deixaria de ser portuguesa.

d)      Com a estratégia dos chineses estes problemas dificilmente sucederiam.

 

  1.       O que é mais provável? Apesar de os vários interessados já terem falado com o Governo (e o líder da Gas Natural até já falou duas vezes, antes de ir à China e depois de vir da China) a decisão é dos accionistas. A EDP hoje é privada. Mas o mais provável é que a estratégia espanhola esteja já condenada ao fracasso. O próprio líder da Gas Natural, ao que parece, foi à China cheio de entusiasmo e regressou da China relativamente conformado com um não dos chineses.
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comentários mais recentes
Anónimo Há 4 semanas

Sobretudo tendo em conta a desgraça que o PSD deixou na banca privada... o buraco do BPN conseguido com o aval de históricos do partido e a desgraça que estavam as contas do BANIF na Madeira ampliada por uma liderança lunática de Alberto João Jardim são um fardo pesado para qualquer avaliação..

o anão Há 1 dia

O anão sempre muito agitado.

Anónimo Há 1 dia

A melhoria do Rating é o virar da página para a vergonha que foi a magistratura de influência de Cavaco Silva no BPN BPP BANIF e BES... Uma magistratura assente nos amigos Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Alberto João Jardim e claro no grande amigo Ricardo Salgado, todos militantes da nobre direita!

luis Há 1 dia

O que o comentador pago pelo povo não diz é que a privatização/doação da edp aos chineses pelo Passos foi uma desgraça para Portugal e os portugueses. Os chineses só anteciparam uns milhões e já receberam o dobro em 5 anos em dividendos e vendas de imoveis. Uma fraude.

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