Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 24 de setembro de 2017 às 20:44

Marques Mendes: há uma crise séria na família socialista europeia

Luís Marques Mendes faz, ao domingo na SIC, os seus comentários sobre o que aconteceu durante a semana. E o Negócios publica as notas que servem de base aos comentários. Esta semana fala das eleições na Alemanha, de Tancos, das autárquicas, dos números da economia e de Centeno no Eurogrupo.

O TETRA DE MERKEL

 

  1.       Esta vitória de Merkel, abaixo das expectativas, tem, apesar disso, coisas curiosíssimas:

a)      Primeira: se cumprir este novo mandato, torna-se a chanceler com mais tempo de governo no pós-guerra. É obra.

b)      Segundo: há poucos meses, era dada como politicamente morta. Com as suas posições sobre os refugiados e com a mudança de líder do SPD, alguns vaticinaram o seu fim político. Afinal, ganha com uma diferença colossal.

c)      Terceiro: durante anos era vista como o diabo para a esquerda europeia (a mulher da austeridade). Com as suas posições na integração dos refugiados, "passou de besta a bestial". Passou de rejeitada a respeitada.

d)      Quarto: tem um eleitorado surpreendente. É fortíssima na classe média e nos mais velhos. Mas a surpresa é nos jovens. Tem um apoio forte na juventude. Qual a razão? Redução do desemprego. Os números mostram: quanto mais o desemprego baixa, mais os jovens a apoiam.

e)      Quinto: terminado este ciclo de eleições na Europa (Reino Unido, França e Holanda), há outra conclusão curiosa – em 28 países da UE, os socialistas são governo apenas em 7. E se perdem em Itália em 2018, serão apenas 6 países governados por socialistas. Conclusão: há uma crise séria na família socialista europeia.

 

  1.       Que governo vamos ter agora na Alemanha?

a)      Manter a coligação CDU/SPD, a chamada Grande Coligação. É a solução preferida de Merkel. Garante-lhe estabilidade e consistência. Mas é muito improvável face aos sinais de recusa do SPD.

b)      Coligação CDU/Liberais – É uma hipótese com 2 problemas: primeiro, pode não ter deputados suficientes para a maioria; depois, será um osso duro de roer nas negociações. Os Liberais querem ter o Ministro das Finanças.

c)      Coligação CDU/Liberais/Verdes – A chamada Coligação Jamaica, por estes três partidos terem a cor da bandeira da Jamaica (preto, amarelo e verde). Mas esta solução tem a dificuldade de os três partidos terem posições muito divergentes em três questões: euro, refugiados e política ambiental.

 

  1.       Nota final: a entrada da extrema-direita no Parlamento, a primeira vez depois da Guerra. É um facto com alguma preocupação. Não tanto pelo ingresso no Parlamento mas, sobretudo, pela dimensão do resultado.

 

PREVISÕES AUTÁRQUICAS

 

  1.       Partido SocialistaÉ o que está na posição mais confortável.
  •          Tem uma grande vantagem: a dinâmica nacional, quer da economia, quer da imagem governativa. Por isso, o PS tem "nacionalizado" estas eleições.
  •          Tem um risco: o risco de baixar o número de câmaras, porque tem muitas divisões internas pelo país fora (por exemplo, Fafe, Barcelos e Vila do Conde).

 

  1.       Partido Social DemocrataÉ o que está na posição de maior desconforto.
  •          Tem uma vantagem: pode aumentar o número de presidências de Câmaras, quer porque teve mau resultado há 4 anos, quer porque beneficiará de divisões do PS.
  •          Tem um risco: o risco de perder os grandes centros urbanos, o risco de em vários grandes municípios não chegar aos 20% dos votos (Lisboa, Porto, Matosinhos, Covilhã, Gondomar) e o risco de o partido se ruralizar. O PSD está a fazer o caminho inverso ao do país. O país torna-se mais urbano. O PSD torna-se mais rural.

 

  1.       Partido Comunista
  •          Tem uma vantagem: pode manter quase todas as suas presidências. As dúvidas são Peniche e Sesimbra.
  •          Tem um risco: perder das maiorias absolutas que hoje tem. E isso é um embaraço.

 

  1.       Centro Democrático e Social
  •          Tem uma vantagem: pode manter as Câmaras que tem (e até subir uma), ter o maior resultado de sempre em Lisboa e desse modo confirmar a liderança de Assunção Cristas.
  •          O risco é reduzido: ficar aquém dos 7% em Lisboa. Improvável.

 

  1.       Bloco de Esquerda
  •          São as eleições mais ingratas para o Bloco. Pode subir ligeiramente a votação. Mas continuará sem peso autárquico.

 

  1.       Independentes
  •          Hoje há 13 presidências independentes. O mais provável é que este número suba de forma significativa.

 

BOAS NOTÍCIAS SOBRE ECONOMIA

 

  1.       Crescimento do PIB do 2º trimestre

a)      Afinal, o INE lá confirmou a informação que eu próprio tinha antecipado em Agosto: que o crescimento do PIB no 2º trimestre seria superior ao do 1º trimestre; e que seria um crescimento na casa dos 3%, ou seja, o maior desde 2000.

b)      É uma excelente notícia para o país. E de certo modo histórica. Há 17 anos que o país não tinha crescimento desta natureza.

 

  1.       Défice do 1º semestre de 2017

a)      O INE também avançou com o valor do défice nos primeiros seis meses de 2017 – 1,9%.

b)      É um bom resultado. Ele permite antecipar o cumprimento da meta de 1,5% para o défice de todo o ano.

c)      Aqui, porém, há que dizer: é um bom resultado mas não é um excelente resultado. Com o crescimento económico a ficar em 2017 muito acima da previsão inicial (1,8% de crescimento), o Governo tinha a obrigação de apresentar um défice mais baixo. Se o não fizer, pode dizer-se que está apenas a cumprir os serviços mínimos.

 

CENTENO NO EUROGRUPO?

 

  1.       Nestas duas últimas semanas voltou a falar-se de Mário Centeno para presidir ao Eurogrupo e o próprio admitiu expressamente, pela primeira vez, essa hipótese.

 

  1.       Conclusões a tirar:

a)      Chegados onde chegámos, depois de todo o investimento feito, se Mário Centeno não for Presidente do Eurogrupo, é uma grande derrota pessoal e política do Ministro das Finanças. Sai fragilizado. É tipo "entradas de leão e saídas de sendeiro".

b)      Ao contrário, se lá chegar, é uma vitória do Ministro, do Governo e do país.

c)      Mas é um embaraço sério para a coligação que apoia o Governo. PCP e BE torcem o nariz a essa hipótese, porque são contra as regras do Euro e do Tratado Orçamental.

  •          Ou seja, os parceiros do Governo passam a apoiar Centeno cá dentro e a ser adversários de Centeno lá fora.

 

O RELATÓRIO SOBRE TANCOS

 

Três apontamentos:

 

  1.       É um relatório de "pai incógnito". Todos o comentam mas ninguém conhece a sua paternidade.

 

  1.       É um relatório de gargalhada. Todos lhe dão uma grande importância e, todavia, não serve para nada.
  •          Faz análise política; faz cenários; plagia análises e comentários feitos na comunicação social; diz que o Ministro e os militares agiram mal (o que todos os comentadores já tinham dito),
  •          Só não diz nada sobre o que interessa: quem é o responsável pelo que sucedeu em Tancos.

 

  1.       É um relatório que esconde uma suspeita grave. Suspeito que há qualquer coisa mais grave no horizonte e disso ninguém fala. Suspeito que ao fim deste tempo todo não há provas reais e efectivas do furto de Tancos.
  •          Por que é que o Ministério Público e a Polícia Judiciária estão a demorar nesta investigação?
  •          Suspeito que a razão é essa mesma: há demora porque não há provas. E isso é que é grave. Ainda vai ficar tudo em "águas de bacalhau". Mas sobre isso os nossos políticos nada dizem.

 

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mais votado Anónimo Há 3 semanas

Como sempre, desde que deixou a política activa, gostei embora discorde da análise ao caso de Tancos pois não se trata dum caso isolado e parece-me revelador duma certa anarquia e abandalhamento. Este sim parece-me ser um " study case" e não o turismo que evolui por razões naturais e conjunturais e não por iniciativa de alguém que nunca se soube governar.

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Anónimo Há 3 semanas

Os neoliberais do PSD claro que se vão voltar ao campo... o CDS vai ocupar o seu lugar qual camaleão político... até parece que não esteve no governo e não esteve para deitar o governo a baixo em 2013 com o célebre "irrevogável" o qual marcou uma perda de mais de 5 mil milhões de euros na bolsa...

Crise nem ve-la Há 3 semanas

Cá na paroquia o socialismo vai de vento em popa, via geringonça. Já o neoliberalismo, esse sim, atravessa uma crise mortal. Veja-se o caso do PSD, o qual vai desaparecer do mapa autárquico.

Francisco António Há 3 semanas

Um "artista" ! Não mudes as lentes ! No seu partido laranja é que a coisa corre bem !!!

UM ANAO DIREITROLHA NAO CONSEGUE VER TUDO... Há 3 semanas

Assim a este "shortie" passou-lhe plo lado do olho torto - e' pa'...porra para la com isso de interferir naquilo q escrevemos - o facto das bestial Merkel ter passado de ter 42% de vitos pra 33%!

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