Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 08 de outubro de 2017 às 21:01

Notas da semana de Marques Mendes

Luís Marques Mendes faz, ao domingo na SIC, os seus comentários sobre o que aconteceu durante a semana. E o Negócios publica as notas que servem de base aos comentários. Esta semana faz o balanço das autárquicas, perspectiva o futuro do PSD e debruça-se sobre os negócios da Media Capital e Novo Banco.

BALANÇO DAS AUTÁRQUICAS

 

Quatro apontamentos:

  1.       Sondagens – Algumas empresas e sondagens não saíram bem. Foi o caso do Centro de Sondagens da Universidade Católica. O caso do Porto é paradigmático. Prever um empate e acabar numa maioria absoluta é um erro de palmatória. Desprestigia a Universidade Católica e desprestigia as sondagens.
  •          A Universidade Católica e os Reguladores deveriam agir. Não é um caso de manipulação. Mas parece ser um caso de incompetência.

 

  1.       Presidentes "dinossauros" – Houve vários a concorrer. Pelo PS e pelo PSD. Tinham saudades e quiseram voltar. Com excepção de Isaltino Morais, todos perderam. Uma conclusão a tirar: as pessoas querem renovação e não o regresso às caras do passado.

 

  1.       Loures (André Ventura) – Tanto ruído para coisa nenhuma. Um epifenómeno. Não é que problemas com as comunidades ciganas não existam. Só que a forma oportunista de os analisar não é pagante. Ainda bem.

 

  1.       Efeitos nacionais das autárquicas – É a terceira vez que as eleições autárquicas têm um efeito profundo na política nacional: aconteceu em 1982 (com a queda da AD de Balsemão); aconteceu em 2001 (com o abandono de Guterres); e sucedeu agora, em 2017 (com a saída de Passos Coelho).
  •          A única diferença é esta: até agora o "cartão vermelho" tinha sido mostrado ao partido do Governo. Desta vez o "cartão vermelho" foi mostrado à oposição.

 

  1.       O que vai mudar? A ideia de maioria absoluta. A mudança de liderança no PSD pode matar a grande ambição de António Costa: a ideia de maioria absoluta. Justa ou injustamente, PPC era um "tampão" ao crescimento do PSD e um incentivo à subida do PS. Agora, tudo muda.


O NOVO LÍDER DO PSD

 

  1.       Saída de Passos Coelho – Foi uma decisão digna, correcta e responsável. Merece ser saudada.
  •          PPC foi um mau líder da oposição. Mas foi um bom PM. Apesar de alguns erros e exageros, tirou o país da bancarrota e acabou com sucesso um resgate duríssimo imposto de fora para dentro. O país e o PSD devem-lhe muito.

 

  1.       Sucessão de Passos Coelho – A sucessão de Passos Coelho faz-me lembrar a sucessão de Guterres em 2001. Várias desistências públicas até se chegar a Ferro Rodrigues. António Vitorino não quis; a seguir, desistiu Jaime Gama (por razões pessoais); até chegar Ferro Rodrigues. Na altura havia muito medo do PSD e de Barroso. Agora há medo do PS e de António Costa. Indo por partes:

a)      Desistência de Paulo Rangel – Perde uma grande oportunidade de ser líder. Ele, que já uma vez tinha tentado a liderança e que é talvez o dirigente no activo com pensamento político mais estruturado. Mas razões pessoais são razões pessoais. Respeitam-se.

b)      Desistência de Luís Montenegro – Aqui o caso é diferente. Montenegro desiste por razões políticas. Quer ser líder mas mais tarde. Mais tarde. No fundo acha que o próximo líder é de transição e espera por melhor oportunidade. Só o tempo dirá se é uma decisão certa ou se perdeu uma oportunidade única.

  •          É que não é líquido que o próximo líder do PSD seja um líder de transição, um líder para queimar.
  •          Basta que evite uma futura maioria absoluta de António Costa para se segurar no lugar e até poder vir a ser PM poucos anos depois. Foi o que sucedeu com Durão Barroso em 1999. Evitou a maioria absoluta de Guterres e dois anos depois foi PM.
  •          E isso não é impossível: obter uma maioria absoluta é uma tarefa muito difícil para Costa; com um novo líder do PSD, que não tenha nada a ver com o passado, essa tarefa é ainda mais difícil.

 

  1.       A reflexão de Santana Lopes – Não se sabe se avança

Tem todo o direito e legitimidade a fazê-lo e mais: se o fizer, é, sem dúvida, um acto de ousadia e coragem. Porque é sair da posição confortável em que se encontra, no plano pessoal, profissional e político.

 

  1.       A candidatura de Rui Rio – Vantagens e dificuldades

a)      Vantagens – Rui Rio tem três vantagens: primeiro, tem coragem e autoridade; segundo, tem uma imagem de prestígio de 12 anos como Presidente da Câmara do Porto; e tem, sobretudo, a grande vantagem de não ter tido nada a ver com os últimos 6 anos do PSD, seja no Governo, seja na oposição. Esta é a sua maior vantagem.

b)      Dificuldades – Vai encontrar um partido balcanizado (o que exige um grande esforço de agregação); tem algumas ideias que só lhe podem criar problemas, se não for capaz de as temperar (as ideias sobre comunicação social, política de justiça e regionalização); e tem um fantasma do qual devia livrar-se já (a ideia de que defende um governo de bloco central). No lugar dele, mataria esta ideia já no discurso de apresentação, dizendo que é candidato a PM e nunca a Vice-Primeiro-Ministro, seja de quem for.

c)      Pensamento – Para além disso, tem de estruturar uma estratégia (3 pontos):

  •          Recentrar o partido (deixar o centro para o PS é um disparate);
  •          Acabar com a marca de insensibilidade social que o PSD tem tido;
  •          Tornar o PSD um partido atractivo e competitivo nas causas, discurso, protagonistas e na ligação aos sectores mais dinâmicos do país.

 

 

OS PROBLEMAS DE COSTA

 

  1.       As autárquicas correram bem de mais ao PS. Por isso em 48 horas houve um grande contraste de sentimentos: no domingo, o PS teve a alegria de uma grande vitória. Na 3ª feira, teve um pesadelo, com a saída de PPC.

a)      No domingo à noite, António Costa teve duas surpresas agradáveis:

  •          Primeira: a geringonça é uma sociedade com três sócios mas só dá dividendos para um deles. Os lucros vão todos para o PS. Os outros, o Bloco e o PCP, ficam a ver navios.
  •          Segunda: o PS passou a entrar com mais facilidade no eleitorado do PCP. Durante 40 anos, o PS era apresentado pelo PCP como um partido de direita. Com a participação na geringonça, o PCP legitimou o PS como partido de esquerda. Assim, o quadro mental e político dos comunistas mudou e os eleitores do PCP deixaram de se sentir mal a votar com o PS. E o PCP começou a esvaziar-se.

b)     Na 3ª feira, António Costa teve um pesadelo com a saída de PPC.

  •          PPC era o seguro de vida da geringonça. Acabou o seguro.
  •          PPC era o líder do PSD que os socialistas gostavam de enfrentar em 2019. A ideia era mostrar: de um lado, o rosto da maldade (a austeridade); do outro, o rosto da bondade (a devolução de rendimentos). Ora esta ideia acabou.
  •          PPC era o líder do PSD com que os socialistas contavam para ter uma maioria absoluta. Agora, não havendo PPC, é muito mais difícil obter uma maioria absoluta.

 

  1.       Eleições antecipadas?

a)      Até domingo, o PS adoraria ter eleições antecipadas. E adoraria que o PCP as provocasse. Tinha três factores a seu favor: a dinâmica económica, o efeito da vitimização e Passos Coelho.

b)      A partir de 3ª feira, o PS foge de eleições antecipadas como o diabo da cruz. E fará tudo o que puder para que o PCP não abra uma crise política. Porquê?

  •          Primeiro, porque agora já não há PPC;
  •          Depois, porque nos primeiros seis meses de 2018 o novo líder do PSD estará em estado de graça, fresco e sem desgaste (o que lhe dava jeito mesmo eram umas eleições antecipadas);
  •          Terceiro, porque a partir de agora o PS precisa de tempo para tentar desgastar o novo líder do PSD;
  •          Conclusão: a partir de 3ª feira tudo mudou: até lá os socialistas adorariam eleições antecipadas se o PCP as provocasse; a partir de agora, eleições antecipadas só favorecem o novo líder do PSD.

 

 

OS DESAFIOS DO PCP E DO CDS

 

  1.       Com as eleições autárquicas, o PCP levou um murro no estômago e ficou numa encruzilhada.

a)      Se abrir agora uma crise política, ainda se prejudica mais. Por isso, não o vai fazer. Vai aprovar o Orçamento.

b)      Se for de braço dado com o PS até às eleições, pode suceder-lhe o mesmo que sucedeu agora, em dose reforçada.

c)      Em conclusão: vai gerir o ano de 2018 com um olho na geringonça e outro numa eventual crise. Com uma diferença em relação a domingo passado: o PS vai "adocicar" a relação com o PCP porque, com a saída de Passos Coelho, deixou de lhe interessar ter eleições antecipadas.

 

  1.       Quanto ao CDS, os desafios são claros:

a)      Assunção Cristas saiu consolidada na liderança. Foi a vitória da coragem e do espírito construtivo a fazer oposição.

b)      Agora, daqui retirar a ilação de que o CDS irá sozinho às legislativas acho que é uma enorme precipitação. Pode ir ou pode não ir. Vai depender, muito, do estado em que estiver o PSD daqui a um ano. Um PSD forte favorece uma coligação eleitoral. Um PSD fraco mata-a definitivamente.

 

 

  

ALTICE GANHA A TVI?

 

  1.       Com todas as polémicas políticas e eleitorais, quase ninguém se lembra que está prestes a ser tomada uma decisão importante sobre o negócio Altice/TVI. É já na próxima 3ª feira, dia 10 de Outubro.

 

  1.       Para que o negócio da compra da TVI pela Altice chumbe é preciso que a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação) dê parecer desfavorável. E, para existir parecer desfavorável, é preciso que os 3 elementos da direcção da ERC votem – os três, em conjunto – contra a operação.

 

  1.       O que temos pela frente no próximo dia 10 de Outubro?

a)      O parecer dos serviços técnicos da ERC, ao que parece, é desfavorável ao negócio. Ou seja, é um parecer negativo.

b)      Se os três elementos da ERC seguirem a proposta dos serviços técnicos, o negócio é chumbado, porque o parecer da ERC é vinculativo.

c)      Se, por hipótese, como se diz, os dois vogais votarem contra e o Presidente votar a favor, então o negócio vai mesmo por diante, ficando a faltar a decisão final da Autoridade da Concorrência.


Notas Finais:

  1.       O Presidente Jean Claude Juncker estará em Portugal no final do mês – a 30 no Conselho de Estado, a 31 em Coimbra para ser doutorado "honoris causa".
  2.       "Transferência" do NB para a Lone Star – últimos passos

a)      Decisão de autorização da DGCOM chegará esta semana;

b)      Lone Star muda de atitude e "injecta" este ano os mil milhões euros (estavam previstos 750 milhões em 2018 e 250 milhões mais tarde);

c)      Órgãos sociais – Comissão executiva toda portuguesa; CA, todos não portugueses (não executivos).

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comentários mais recentes
Dono dos Burros 08.10.2017

Ó Nóia, ainda se fossem os números para acertar nos 190 milhões (menos os 20% que o teu camarada de partido implantou e que este ladrão que lá está não revogou) agora tretas do futuro político? Só tu, mesmo.

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