António José Teixeira
António José Teixeira 30 de novembro de 2017 às 13:00

Folha de assentos

A semana foi algo azeda para um Governo que celebra dois anos de exercício. Fez aprovar o seu terceiro Orçamento, a economia e as finanças vão bem, a oposição pouco se faz notar e, no entanto, a gestão política é desastrada. António Costa está com "ganas" de trilhar novos caminhos. Marcelo Rebelo de Sousa quer evitar "aventuras".
ganas. António Costa está com "ganas" de ir "além do programa do Governo". Diz que quer abrir novos caminhos porque há sempre "novos caminhos para abrir". Discursava poucas horas depois da aprovação do terceiro Orçamento do Estado desta maioria de geometria variável. E também após Carlos César, o líder parlamentar socialista, ter dito que o Governo "não está refém de qualquer empresa ou partido por mais persuasivo ou loquaz que um ou outro queiram parecer". César sacudiu assim a acusação bloquista ao PS de "deslealdade" e "subserviência" ao sector eléctrico. Paira azedume e ressentimento. Daí as ganas do líder do PS em trilhar novos caminhos. Mas não chega enunciar vontades e anunciar ímpetos para anular o indisfarçável cansaço. Costa sabe que o esperam dias mais difíceis. Para o Orçamento de 2019 já pesam compromissos de cerca de 600 milhões e a pressão indomável dos parceiros do Governo, que querem voltar a ser imprescindíveis após as próximas legislativas. E ainda nem começou 2018! 

metade. Dois anos volvidos, não é provável que o calendário da legislatura não se cumpra. Por pouco que una os parceiros da solução política que nos governa - e parece unir cada vez menos -, nenhum deles quererá ficar com o ónus da ruptura. Mas o tempo que falta irá acentuar ainda mais as divergências, como se viu no Orçamento do Estado, e já a pensar em eleições. Arménio Carlos, da CGTP, diz que as greves estão a aumentar e ameaça que, se o Governo não negociar, vai ter problemas. É notório o aumento da conflitualidade laboral, como é evidente a maior pressão do PCP e do BE sobre o Governo. Rivalizam pelos dividendos, pelas conquistas à política "de direita" dos socialistas. Estes respondem com a vontade de procurarem o PSD e o CDS "em matérias estruturantes". BE e PCP denunciam a recuperação do bloco central, com patrocínio presidencial. Dois anos não aproximaram significativamente os partidos da esquerda. O PS e o Governo perderam fôlego para políticas de futuro e com futuro. Por enquanto, António Costa não soube fazer das fraquezas do Verão uma força de Inverno. Nos próximos dois anos, os parceiros da esquerda arriscam-se a fortalecer uma alternativa à direita, agora já sem Passos nem Portas. 

painel. Não foi pintura em tela ou madeira, nem almofada de porta ou de tecto. Foi um grupo de 50 pessoas representativas do País, selecionadas por uma empresa de sondagens para participarem num trabalho universitário de avaliação do Governo, encomendado pelo próprio Governo. O propósito faz parte do seu programa e repete a fórmula do ano passado. Que o Executivo adjudique a avaliação do seu trabalho a uma universidade está na sua liberdade e poderá ser útil. Mas não deve ser confundido com a primordial avaliação política que cabe ao Parlamento e aos eleitores. A avaliação "científica" não está acima da avaliação política. O exercício da Universidade de Aveiro ganhou palco com os membros do Governo a responderem a perguntas do painel. 20 perguntas para mais de 20 monólogos sem réplica nem novidade. Pura comunicação política, que apenas pôs a nu o cansaço governativo. O modelo poderia prestar-se a maior proximidade na comunicação, a respostas mais pessoais e acessíveis. Nem isso. O que vimos foram discursos genéricos, burocráticos, justificativos. Mais do que o pagamento aos perguntadores, habitual em painéis deste tipo, o que importa assinalar é a inutilidade do exercício. 

intenção. O que é uma intenção? É um propósito, um plano, uma ideia, um desejo, um intento. Moralmente, é o fim que determina um acto, considerado independentemente da sua efectiva realização. Um acto pode ser julgado pela sua intenção e não pela sua consequência. Pode ser uma intenção séria ou uma segunda intenção, quando se dissimula o verdadeiro móbil. Isto a propósito da entrevista em que a presidente do Infarmed revela que o ministro da Saúde várias vezes lhe repetiu que a transferência da Autoridade Nacional do Medicamento para o Porto não era uma decisão, era uma intenção. Maria do Céu Machado soube da transferência por um telefonema. O ministro disse-lhe que ele e o primeiro-ministro tinham decidido que o Infarmed ia para o Porto. Uma decisão tornada intenção… Nem estudo, nem ponderação de custos e benefícios, nem intenção visível que ajudasse o Porto a conquistar a Agência Europeia do Medicamento, nem plano estratégico, nada. Quando Maria do Céu Machado diz ao Público que não há condições para o Infarmed sair de Lisboa sem se prejudicar gravemente, só podemos recear o voluntarismo irresponsável. Intenção com segunda intenção? 

estorvo. Os incêndios e a seca confrontam-nos com o desordenamento do território, com redes de comunicação deficientes, com o desamparo a que o Estado votou populações, mas sobretudo com um deslaçamento entre o homem e a paisagem. Perdeu-se, ou muitas vezes nem sequer se construiu, uma harmonia na relação com a Natureza. Eduardo Martínez de Pisón, catedrático emérito da Universidade Autónoma de Madrid, geógrafo, alpinista, estudioso das montanhas, define a paisagem como «o território a que agregamos a cultura». Em entrevista a El País, convoca-nos a aprender a olhá-lo, para podermos desfrutar dele, e avisa-nos que é imprescindível protegê-lo. Deixámos de observar a paisagem olhos nos olhos, preferimos as imagens virtuais dos ecrãs do telemóvel ou do computador. Fazemos leis para proteger os monumentos e os parques naturais, mas ignoramos a protecção da paisagem. Ao contrário da França ou da Inglaterra, apenas pensamos nela quando arde. Por isso, Martínez de Pisón diz que o homem é um estorvo por ser agressivo. Todos o temem, "tão indefeso e vulnerável parece". E conclui: "Há que tratar de ser erva". 

mazur. Estou a ler o mais recente livro de João Pinto Coelho, "Os Loucos da Rua Mazur". O romance situa-se na Polónia durante a II Guerra Mundial, na cidade de Jedwabne, ocupada por alemães e por soviéticos, onde um dia centenas de judeus foram queimados vivos pelos seus vizinhos cristãos. Apesar de ser uma ficção, a obra assenta num episódio histórico que ainda hoje divide os polacos. O anti-semitismo foi mais largo e profundo do que muitos pensam e este livro ajuda a percebê-lo. Um livro que é ele próprio a história da escrita de um livro redentor em que um judeu cego ajuda um escritor cristão a "encontrar as imagens" de um tempo de horror. Memórias cruéis à espera de expiação. Talvez por isso os polacos lidem mal com o avivar da História. Um tema pertinente para uma escrita cativante. 


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