António José Teixeira
António José Teixeira 15 de dezembro de 2017 às 13:00

Folha de assentos

O ano aproxima-se do fim com demonstrações de solidariedade confundida com negócio e de um Estado desleixado. Num mundo mais perigoso e numa Europa sem rumo, Portugal perde confiança nas instituições. Nem a solidariedade social escapa.
Pedrógão. Passaram seis meses de um incêndio devastador, mortífero como não há memória. Circunstâncias atmosféricas raras, pelo menos até aqui, conjugadas com desleixo, abandono e falência de boa parte das redes de protecção, foram os grandes responsáveis por uma tragédia que abalou o país. Não passaram muitas semanas para que nova devastação mostrasse a fragilidade da gestão do território. Meio ano decorrido, multiplicaram-se acções de solidariedade, visitas presidenciais e ministeriais, reuniões, decisões de apoio às vítimas e à reconstrução, inquéritos, repartição de responsabilidades, um sem-número de movimentações que não parecem suficientes para que tenhamos confiança no futuro. A realidade é complexa, exige tempo e ponderação, há uma unidade de missão a trabalhar, mas não se fez da gestão do território um tema mobilizador do país. Não se conhecem correcções estruturais na rede de protecção civil ou nas redes de comunicação, muito menos nas articulações necessárias com todas as entidades que podem ser úteis à prevenção de tragédias. Não chega anunciar milhões. É preciso que o Estado honre uma das suas principais responsabilidades: a segurança dos cidadãos.  

Europa. O primeiro passo do Brexit está dado. Há um compromisso escrito: 45 mil milhões a pagar em 10 anos; pelo menos quatro de obediência à legislação europeia; idem ao Tribunal Europeu do Luxemburgo durante oito anos ou mais; respeito pelos direitos dos três milhões de cidadãos europeus que vivem no Reino Unido… Uma transição demorada durante a qual aceita as regras europeias sem ter direito de voto, ou seja, mantêm-se boa parte das obrigações com menos soberania. O Brexit tornou-se um pesadelo sem que se perceba que quer ser o Reino Unido no futuro. Sabe-se que quer continuar ligado ao mercado comum e às iniciativas de defesa europeias, não se sabe que ganha por deixar de se sentar à mesa da União. A convicção é tão fraca que metade dos britânicos exige voltar a ser ouvida. Mas também a convicção dos restantes europeus na Europa está longe de ser forte. Derivas populistas e autocráticas, incerteza, algumas ideias interessantes de Macron à espera de Merkel e de governo alemão, demasiado tempo para a urgência de cooperação na defesa e na segurança, bem como para o completar da união económica e monetária, um caderno de encargos pesado sem rumo à vista. São tantos os problemas que precisamos de mais Europa e não de menos Europa. 

Manifesto. O juiz Neto de Moura, que se notabilizou por proferir acórdãos atentatórios da dignidade da mulher, ganhou agora a solidariedade de alguns pares. Alvo de um processo disciplinar, saíram em sua defesa desembargadores e até um antigo presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Neto de Moura censurou uma vítima de violência doméstica e desculpou os agressores. Não é o único. Agora, alguns dos seus pares escreveram um manifesto para "dar conforto" aos juízes que estão no activo. Queixam-se de que está a ser posta em causa a independência dos juízes: "Ao proferir uma decisão, o juiz não tem de ser politicamente correcto ou conformar-se com as 'modas' das maiorias, mas tem de usar particulares cautelas nas suas formas de expressão não exorbitando os princípios constitucionais e legais a que está vinculado." Afirmam que a liberdade de expressão não é uma "liberdade de funil", ampla para o comum dos cidadãos e "restrita" para os juízes. Será que o espírito corporativo e a pesporrência os impede de perceber que o que está em causa não é a forma, a linguagem e a liberdade? A independência e a responsabilidade dos juízes são demasiado importantes para se confundirem com atitudes e decisões reprováveis, que dispensavam solidariedades. 

Intifada. A palavra vem do árabe e remete para rebelião. Associa-se à revolta palestina contra a ocupação israelita da faixa de Gaza e da Cisjordânia. A primeira intifada ou "guerra das pedras", assim chamada, remonta ao final dos anos 80. A segunda aconteceu em 2000, quando Ariel Sharon fez questão de atravessar a Esplanada das Mesquitas num gesto que chocou os muçulmanos. O conflito israelo-árabe é longo e não se vislumbra uma solução. O que Donald Trump fez nos últimos dias ao anunciar a transferência da embaixada americana de Telavive para Jerusalém é mais um contributo para o acirrar do diferendo. Jerusalém é uma das cidades mais antigas do mundo, reclamada como santa para judeus, árabes e cristãos. Israel considera-a a sua capital política "una e indivisível". Os palestinianos declararam-na capital eterna do seu Estado. A comunidade internacional não reconheceu as proclamações. E mesmo os EUA, sempre mais próximos de Israel, nunca cumpriram este gesto simbólico de transferência da sua representação diplomática. Não é certo que o anúncio de Trump se efective nem que signifique necessariamente o fim da partilha da cidade. Seguro é que Trump se afirma como instigador de intifadas, um incendiário do Médio Oriente. 

Reconhecimento. É o grande desejo dos utilizadores das redes sociais. Mostrar, tornar público, expor, partilhar, replicar, são os motores que movem os desejos de evidência social. Longe vai a ilusão de que era a informação o grande alimento da internet. O sustento das redes é o sujeito utilizador, o seu nome, a sua imagem, as suas opiniões, a marca, a comunicação em si própria. Há poucos dias, num artigo no El País, o filósofo espanhol Enric Puig Punyet enunciava algumas regras para o sucesso: "Chama a atenção o mais depressa que possas; não inventes; limita-te a copiar o que já deu mostras de aceitação e êxito; utiliza e filtra o mundo; apropria-te do que te rodeia (…); sorri." Tornarmo-nos públicos é o grande desafio. É assim que se pode dar satisfação ao desejo de reconhecimento. Perante a possibilidade de se expressar em permanência, interroga-se Punyet, "quem e porquê cometerá a imprudência de calar?". Da idade erótica do ver, do espreitar pelo buraco da fechadura, conclui o filósofo, passámos à idade pornográfica, baseada no desejo de mostrar. Certeiro.  

Prodigioso. Não é preciso ser Natal para o editor Manuel S. Fonseca se balancear em "loucuras artesanais". Depois das aventuras pessoanas, volta a Jorge de Sena e a uma novela fantástica dos anos 60: "O Físico Prodigioso". Uma edição tão extraordinária como a obra que acolhe. Não é apenas pelo dourado reluzente da capa, articulada em quatro painéis ilustrados, revestidos a papel couché, plastificado a dourado, mas pela conjugação entre o texto e a ilustração de Mariana Viana. Percebe-se o prazer da criação de um objecto que é arte sobre arte. Juntou-se audácia à audácia de Sena, em que também a sua filha Isabel foi cúmplice activa. Dizia o autor, em 1977, que "O Físico Prodigioso" se sustentava pela "força do amor que tudo manda, e pelo ímpeto da liberdade que tudo arrasa". É difícil imaginar maior homenagem do que a deste fantástico livro (Três Sinais, Guerra & Paz). 


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