Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 17 de dezembro de 2017 às 21:02

Marques Mendes: Vieira da Silva "não se demitirá nem será demitido"

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O O ex-ministro e antigo líder do PSD comenta seis meses depois de Pedrógão, a polémica da Raríssimas, as falhas e vitórias do Governo, a entrevista de Carlos César e a eleição no PSD.

PEDRÓGÃO – 6 MESES DEPOIS

 

Seis meses depois da grande tragédia de Pedrógão (17 de Junho), o que há de positivo e de negativo a reter?

 

  1. Aspectos positivos:

a)     A grande manifestação de solidariedade nacional. Extraordinária.

b)     A reforma florestal e da Protecção Civil. Sem o que aconteceu, provavelmente estas reformas não avançariam.

c)      O esforço notável de reconstrução. É um trabalho inacabado, mas o que foi feito é muito relevante.

 

  1. Aspectos negativos:

a)     O pagamento das indemnizações – Na Galiza, em relação às vítimas dos incêndios de Outubro, já foram pagas. Em Portugal, seis meses depois, ainda nada foi pago.

b)     Apuramento de responsabilidades – Tudo é muito lento. Responsabilidades políticas tardaram. Responsabilidades criminais estão a avançar.

c)      A discrepância entre dois países. Temos em Portugal dois países: o país urbano, moderno, sofisticado, digital, simbolizado na Web Summit e na presidência do Eurogrupo; e temos o país do interior, rural, envelhecido, esquecido e abandonado que os incêndios colocaram a nu. E tarda a encontrar-se forma de aproximar os dois países distantes.

 

 

A POLÉMICA DA RARÍSSIMAS

 

Há nesta polémica sobretudo duas questões essenciais:

 

  1. Primeira questão: uma obra exemplar que desemboca num caso de polícia. É muito habitual em Portugal, no Estado e fora dele. Porquê?
  • Primeiro, pela perpetuação no poder: muitos anos de poder fazem com que os dirigentes e fundadores de instituições se sintam seus donos. É preciso limitar mandatos.
  • Depois, pelo deslumbramento com o poder, com o dinheiro, com o Estado, com as relações políticas. É muito habitual em Portugal.
  • Finalmente, pela conivência dos poderes políticos. Se não fosse essa convivência, a fiscalização provavelmente já tinha actuado. A Segurança Social, ao contrário do que se diz, costuma ser muito exigente com as IPSS. Neste caso não foi. Fica a suspeita de ter falhado por omissão.

 

  1. Segunda questão: o comportamento do Ministro Vieira da Silva. É uma pessoa séria e um Ministro competente. Tenho a certeza de que não se demitirá nem será demitido. E não cometeu qualquer crime – não meteu dinheiro ao bolso, não cometeu uma fraude, não é responsável por gestão danosa. Então qual foi a falha?
  • Este Ministro, já antes do Verão, devia ter mandado fazer uma inspecção à Instituição. Já antes do Verão estava ao corrente de problemas e acusações de irregularidades na Raríssimas – umas declaradas pela Presidente, outras feitas por denúncia.
  • O Ministro, neste caso, tinha de ser especialmente firme e determinado. Porque tinha estado ligado à instituição. Porque a sua mulher estava ligada à instituição. Assim, para que não houvesse a mínima suspeita de que estava a encobrir fosse o que fosse, devia ter agido com rapidez e firmeza. É que não basta ser-se sério. É também preciso parecer-se. Como é que um Ministro sério e experiente não percebeu isto? "No melhor pano cai a nódoa".

 

  1. Lições a tirar:

a)     Envolvimento da sociedade civil – É bom que figuras prestigiadas da sociedade participem na vida das IPSS. Mas, como diz Rui Tavares no Público, devem ser mais exigentes no escrutínio das respectivas instituições.

b)     Fiscalização do EstadoPrecisamos de um Estado forte. Um Estado forte não é um Estado autoritário. É, sobretudo, um estado que regula e fiscaliza. E, nesta área, uma falha de fiscalização do Estado pode ter consequências sérias na credibilidade do sector social.

c)      Evitar a generalização – A Raríssimas pode não ser caso único. Mas não é o padrão normal. A esmagadora maioria das IPSS não vive à grande e à francesa. Vive e funciona de forma séria, sóbria, rigorosa e com muitas dificuldades financeiras. Uma árvore é uma árvore. Não é uma floresta.

 

 

 

FALHAS E VITÓRIAS DO GOVERNO

 

  1. Muito boa gente surpreende-se e pergunta: com tantas falhas políticas, por que é que o PS continua em alta nas sondagens? É fácil de explicar:
  • Primeiro, porque a economia é o que mais conta para a vida das pessoas. As pessoas votam sobretudo com o bolso, com a algibeira, com a carteira. Se a economia cresce, o desemprego baixa e o poder de compra aumenta, é difícil um Governo ser penalizado.
  • Segundo, porque não há alternativa. A oposição hoje não é vista como alternativa. Até pode vir a ser no futuro, mas hoje a oposição não é credível nem levada a sério. Tem um discurso de casos, mas não tem um discurso de causas. Não tem discurso económico, financeiro ou social. 
  1. A este Governo aplica-se a seguinte máxima: ganha na economia e perde na política. Tudo ao contrário do que se imaginava quando o Governo iniciou funções.
  • Na economia, mais uma boa notícia esta semana. A agência de notação Fitch subiu em dois níveis o rating da República que deixou de ser lixo. É mais uma excelente notícia. Vai atrair mais investidores para a nossa dívida pública. Vai fazer baixar ainda mais os juros da dívida.
  • Na política, é o que se vê. Praticamente semana a semana há um caso político a complicar a vida do Governo. Incêndios, Tancos, Legionella, Infarmed, Panteão, tudo. Seja por culpa própria, seja por omissão, a verdade é que a gestão política do Governo tem sido caótica
  1. Finalmente, se o Governo não tivesse as falhas que tem tido, o PS não estaria hoje nos 40% em termos de intenção de voto. Estaria, sim, nos 43% ou 44%. Ou seja, na maioria absoluta.

 

A ENTREVISTA DE CARLOS CÉSAR

 

Carlos César, deu uma entrevista muito curiosa ao Público e à Renascença.

 

  1. Curiosa, primeiro, porque, goste-se ou não se goste de Carlos César, é um peso pesado da política, é muito ligado ao PM e diz muitas vezes o que António Costa quer dizer mas não pode dizer.

 

  1. Curiosa, depois, por três questões abordadas:

a)     Primeiro: a apologia da maioria absoluta. É a primeira vez que um dirigente nacional do PS fala em maioria absoluta como o cenário ideal. Isto tem muito significado.

b)     Segundo: a apologia de uma remodelação. Carlos César não só fala abertamente do tema remodelação como tem uma tirada curiosa: diz que as remodelações se fazem normalmente na Primavera. Será que isto é um sinal de que vamos ter uma remodelação do Governo lá para Março ou Abril?

c)      Terceiro: a questão no número 2 do Governo. Confrontado com a questão de saber se o Governo tem ou não tem um número dois, Carlos César não faz o discurso habitual. Não contraria a ideia. Divaga e chuta para canto. Será este um sinal de que numa próxima remodelação governamental podemos ter Carlos César como o número 2 do Governo, o responsável pela coordenação política do Governo? A ver vamos.

 

 

A ELEIÇÃO NO PSD

 

  1. Uma eleição menos participada do que eleições anteriores com mais do que um candidato. Agora vamos ter cerca de 55 mil militantes a votar contra mais de 60 mil ou mais de 70 mil em 2007, 2008 e 2010.

Por que é que isto sucede? Provavelmente por duas razões:

a)     Primeira: isto pode ser um sinal de que a campanha realizada até aqui não foi muito mobilizadora;

b)     Segunda: é um outro sinal de que há uma certa descrença em relação ao futuro do PSD.

 

  1. Pode ser que assim seja. Mas os militantes do PSD estão a esquecer algo de essencial:
  • Há 6 meses a vida para o PSD era muito mais difícil. Há 6 meses, antes dos incêndios, a caminhada do PS para a maioria absoluta parecia imparável.
  • Agora, 6 meses depois, abriu-se uma janela de oportunidade para o PSD. Um novo líder, com uma nova estratégia, pode fazer abalar o triunfalismo do PS.

 

  1. Quanto ao desfecho final
  • Mantém-se um grande equilíbrio entre os dois candidatos.
  • O debate televisivo do início de janeiro (RTP) pode ser importante.

 

BALANÇO DE 2017

 

 

POLÍTICA

  • Figura do ano – Marcelo Rebelo de Sousa
  • Acontecimento do ano – Os incêndios florestais

 

ECONOMIA

  • Figura do ano – Mário Centeno
  • Acontecimento do ano – Boom turístico

 

INTERNACIONAL

  • Figura do ano – Donald Trump
  • Acontecimento do ano – As mudanças em Angola

 

CULTURA

  • Figura do ano – Salvador Sobral e Luísa Sobral
  • Acontecimento do ano – Almada Negreiros / Vieira da Silva

 

DESPORTO

  • Figura do ano – Cristiano Ronaldo
  • Acontecimento do ano – Tetra do Benfica

 

 

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