Fernando Faria de Oliveira
Fernando Faria de Oliveira 29 de dezembro de 2017 às 10:30

Os desafios dos bancos para 2018

Fernando Faria de Oliveira, presidente da APB, perspectiva o novo ano.
1. O sistema bancário português continua a recuperar dos quatro muito intensos choques que sofreu nos últimos dez anos: o da profunda e prolongada recessão económica devida pela crise financeira global e pela da dívida soberana, a revolução regulatória, a queda reputacional da banca agravada pelos contornos dos casos BPN e BES e a revolução digital e comportamental.

O trabalho persistente e difícil, num contexto deveras adverso, de regeneração, restruturação e modernização realizado pelos bancos neste período, permite que a banca esteja hoje globalmente mais estabilizada, sendo percetíveis claras melhorias. Mas os vários desafios que tem pela frente obrigam a manter o mesmo nível de exigência.

2. O primeiro fator desafiante deriva de uma evidência: estamos a viver uma nova era. Com muitas diferenças em relação ao quadro de valores e de experiências anterior.

A globalização e, em especial, os vertiginosos avanços tecnológicos, a par de uma sociedade com maior grau de educação a nível global, repercutem-se em todas as áreas: há mudanças profundas na política, nos modelos políticos, na governabilidade, na geopolítica; registam-se transformações enormes na economia, em quase todos os seus setores, provocadas pela inovação, pela globalização, pela crise dos últimos dez anos; no plano social, é notória a mudança de comportamentos, atitudes e de modelos institucionais e a questão demográfica, a sustentabilidade dos modelos de segurança social e uma mais justa repartição da riqueza, que geram particular atenção. A incerteza, a volatilidade e a complexidade são características deste tempo.

Os impactos destas transformações, muitas delas fortemente disruptivas, são também notórias e fulcrais nas estratégias e na governação dos bancos.

3. O contexto em que atualmente a banca se movimenta corresponde a um virar de página: a conjuntura e o ciclo económico são agora favoráveis; a incerteza e as exigências crescentes no quadro regulatório deverão abrandar, permitindo aos bancos absorver a esdrúxula e complexa panóplia de normas, regulamentos e exigências e focar-se no negócio; a questão reputacional está em fase de recuperação; a era digital será cada vez mais determinante no modo de fazer banca.

4. Os principais desafios para 2018 do nosso setor bancário centram-se nos seguintes domínios:

(a) - Melhoria da rentabilidade, o que pode ser conseguido: (i) - por via do aumento dos proveitos (sem prejuízo das práticas de avaliação do risco, prudentes e restritivas, impostas pela supervisão e pelas novas normas contabilísticas - IFRS9 - mas beneficiando do crescimento da economia); (ii) – pelo aumento da eficiência e da redução de custos, e pelo aproveitamento dos desenvolvimentos tecnológicos para aumentar significativamente a produtividade; (iii) – pela resolução adequada e eficiente do stock dos NPL; (iv) – pelos ganhos derivados da melhoria do rating da República; (v) - por eventuais, mas não previsíveis a curto prazo, processos da consolidação.

(b) - Capacidade de atrair capital privado, ainda limitado pela recuperação da rentabilidade, que também põe em causa a possibilidade de gerar capital organicamente e penaliza a emissão de obrigações. Apesar de os bancos estarem muito mais capitalizados (o dobro do que em 2011), capital adicional poderá ajudar em processos de restruturação e nas necessidades de investimento.

(c) - Resposta aos requisitos regulatórios e de supervisão, designadamente em relação às normas que entram em vigor em 2018, tais como a MiFID 2, a PSD2, a PAD, os PRIIPS, a diretiva do Crédito Hipotecário, a AML, o Regulamento da Proteção de Dados, o IFRS 9, e eventualmente, o MREL e Basileia IV.

(d) - Os custos da Resolução, um muito pesado ónus que recai sobre os bancos em Portugal, requerendo forte monitorização e controlo sobre os custos ainda não contabilizados relacionados com a venda do Novo Banco (mecanismo contingente).

(e) - A revisão dos modelos de negócio dos bancos, que visa responder, em primeiro lugar, às tendências e comportamento dos clientes e às inovações tecnológicas que estão a transformar a maneira de fazer banca, mas também ao contexto em que se exerce a atividade bancária, tanto do ponto de vista do enquadramento regulatório, como do aparecimento de novos players (start ups fintech e grandes empresas tecnológicas) e fontes de financiamento; como também do ambiente macroeconómico induzido pela era digital.

Os bancos estão a adaptar a sua cultura aos novos tempos, nomeadamente em termos de uma maior abertura e capacidade de inovação centrada no cliente e de um ambiente colaborativo intenso, procurando parcerias com diversos operadores, numa lógica win-win.

(f) - Intensificação da formação, correspondendo ao novo paradigma do sector, tanto para qualificar (aprender, apreender e aplicar o novo quadro regulatório e de supervisão e as mudanças no modo operativo das instituições), como para requalificar os colaboradores (principalmente atendendo às especificidades da banca digital).

É também de referir a participação ativa dos bancos na educação financeira dos cidadãos.

Em síntese: os bancos continuam a fortalecer-se e a modernizar-se, para cumprirem as suas missões de financiar a economia e os cidadãos e para corresponderem à confiança dos clientes. 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

Ora ai esta um artigo que nao vou ler. Nao e este um Gestor de Topo que aceita todas as encomendas que lhe fazem. Quais os resultados das empresas quando entrou e quando saiu. Na CGD deixou como deixou. Vir falar de Bancos e no minimo estranho. Qual a credibilidade? Pelos vistos esta e a estirpe de CEOS que temos, Tipo boneco tipo caozinho de tabelier, que abana a cabeca sempre a dizer sim. Esta figura alguma vez foi penalizada pelos resultados obtidos pelas empresas, ou so conheceu bonus? Independente do que fez ou o que nao fez

5640533 Há 2 semanas

Os bancos resolvem todos os desafios indo aos nossos bolsos. Nem tentam conhecer outras maneiras.

Anónimo Há 2 semanas

O texto começa logo mal, na análise que faz aos motivos da derrocada do sistema bancário. No meu entender, o sistema bancário português entrou em ruptura porque emprestaram-se avultadas somas aos amigos, e que nunca foram nem serão pagas. O resto é conversa da treta.

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