Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 18 de dezembro de 2017 às 11:03

2018 à porta

Depois de 2017 ter sido o ano da inversão na Bolsa, o próximo ano marcará o regresso de alguns investidores.
2017 foi um excelente ano para a Bolsa portuguesa. Depois de um longo período sob domínio dos ursos, com os investidores a sofrerem pesadas perdas, o ano que está prestes a terminar marcou uma inversão dos mercados, com os touros a fazerem valer a sua força e com o PSI a ganhar até ao momento cerca de 20%. Naturalmente que algumas acções se destacaram mas um ano em que, por exemplo, o BCP ganhou cerca de 40% e a Mota praticamente duplicou o seu valor em Bolsa, tem que ser considerado um ano de excelência para o mercado accionista português.

O que esperar para 2018? Foi esta a questão que me pediram para responder no artigo de hoje. Não quis fugir ao desafio, mas acredito muito pouco em previsões. Gosto de traçar cenários e formas de actuação em caso deles ocorrerem, mas este será um artigo de excepção, procurando antever o que pode acontecer no próximo ano. No entanto, se o mercado for em sentido contrário a estas previsões, nem sequer vou ficar agarrado dogmaticamente ao que aqui escrevi. Respeitar o poder do mercado e os seus sinais é sempre mais importante do que permanecer centrado no meu ego.

Depois de 2017 ter sido o ano da inversão na Bolsa portuguesa, acredito que o próximo ano marcará o regresso de alguns investidores ao nosso mercado. O actual "Bull Market" tem sido assinalado por subidas lentas e por um cepticismo que não entusiasma os investidores a regressarem. A ausência de notícias sobre Bolsa nas televisões portuguesas é apenas um dos exemplos de como o mercado accionista nacional continua longe dos radares do público em geral. Se a tendência de subida se mantiver em 2018, isso atrairá mais investidores, o ritmo das subidas aumentará e a volatilidade também.

O ano que está a terminar é o ano em que milhões de investidores ficaram a saber o que é uma Bitcoin, a mais famosa das "Cryptocurrencies". É verdade que já passaram alguns anos desde a sua criação e a sua valorização já era astronómica, mas 2017 foi o ano em que se tornou um fenómeno "mainstream", chegando aos noticiários das televisões e atraindo pessoas que nunca se interessaram pelos mercados financeiros. A valorização de mais de 1500% apenas neste ano é a razão da verdadeira loucura porque, em bom rigor, são as subidas que atraem aqueles que nunca seguem de perto os mercados.

Acredito que em 2018 começará a implosão da Bitcoin e suas congéneres. A histeria em seu torno, os constantes telefonemas de amigos que nunca olham para os mercados financeiros a perguntarem como podem comprar o "novo ouro" fazem-me lembrar outros tempos - o ano 2000 e 2007. Uns meses depois o mercado accionista iniciou dois dos mais violentos "Bear Markets" de que há memória. Não é de estranhar porque quando todos (até aqueles que nunca se interessam por estas coisas) estão dentro, quem resta para comprar e fazer os activos subirem? As "cryptocurrencies" são diferentes das acções mas, em qualquer um dos casos, sobem pela pressão compradora e descem pela pressão vendedora. Por isso, quando a euforia chega a estes valores extremos, a última areia a entrar na ampulheta faz com que uma das mais espectaculares cavalgadas da História esteja próxima do final. Alguns até poderão achar que estou contra estas moedas ou antevejo o seu final. Nada disso. Não entro nessa discussão, apenas digo que todos os sinais são de que no próximo ano acontecerá um "crash" nestas moedas. Em 2000, sucedeu o mesmo nas acções ligadas à internet e a Internet veio para ficar, revolucionou o mundo mas, nessa altura, a "bolha" rebentou violentamente.

Acredito que 2018 será o ano em que a discussão pública em torno da entrada da Santa Casa da Misericórdia no capital do Montepio irá chocar o país. É verdade que esse debate já se está a iniciar no presente ano, mas se o negócio se concretizar o escândalo será mais visível. Uma instituição decisiva em termos de apoios sociais em Portugal, como a Santa Casa, pagar 200 milhões por 10% do Montepio é algo que me deixa os cabelos em pé. Com essa avaliação, sugere-se que o Montepio vale, por exemplo, mais do que o BPI, algo que é tão difícil de crer como eu ser mais atraente do que o George Clooney.

Não podendo o Estado ir em socorro da Santa Casa e, obviamente, não estando nenhum privado interessado em comprar a estes preços loucos, a solução encontrada foi de uma mão estendida pela Santa Casa. É verdade que a instituição existe para dar a mão aos mais necessitados mas calculo que seja a cidadãos e não a entidades bancárias. Infelizmente, acredito que o negócio se vai mesmo concretizar e 2018 vai ser marcado pelo ano em que o compadrio entre poder político e financeiro encontra na maior instituição de solidariedade social o aliado improvável.

Espero que em 2018 os mercados vos sorriam mas, sobretudo, que os outros sorrisos - os reais, daqueles de quem gostam - estejam sempre por perto. Valem mais do que milhões de Bitcoins.

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