António José Teixeira
António José Teixeira 05 de janeiro de 2018 às 13:00

Folha de assentos

2018 apresenta-se confuso. Diz-se que vivemos na era da confusão. Por cá, Marcelo quer reinventar a confiança enquanto os deputados tropeçam na contabilidade partidária. Sejamos optimistas, guardemos o pessimismo para dias melhores…
Novo. 2018 dá os primeiros passos e já foi objecto de todos os desejos e previsões. Talvez a sua história venha a fazer-se mais do que não foi previsto. Não o sabemos. Veremos. Os cultores dos símbolos atribuem ao 7 (a unidade do numeral do ano que findou) muita perfeição: 7 estados da matéria, 7 etapas da evolução, 7 cores do arco-íris… Volvido o 7, o 8 de 2018 aponta para o equilíbrio cósmico, ou não fosse o número da rosa dos ventos. Mas os especialistas em numerologia dirão que não são nem o 7 nem o 8 os números a considerar. Em 2017 terá sido o 1 (mudança) e em 2018 será o 2 (consolidação). O ano far-se-á de símbolos, mas será mais de determinação e vontade. A perfeição de 2017 deixou muito a desejar, como decerto acontecerá com o equilíbrio deste ano. Nós por cá, não nos faltarão provas de fogo, também em sentido estrito. É preciso que a política assente no território e nos cidadãos. É preciso reabilitá-la para fazer face às desigualdades e à insustentabilidade do nosso modo de vida. Não serão a sorte nem a numerologia a decidir o caminho. Em qualquer caso, gosto de repetir, sejamos optimistas. Guardemos o pessimismo para dias melhores.

Reinvenção. A confiança reinventa-se? Marcelo Rebelo de Sousa acha que sim. A formulação de Ano Novo é literária. Podia ter sido dita por Pessoa ou por Almada e, em si, "não quer dizer grande coisa", como reparou Eduardo Lourenço. O Presidente quer "reinventar o futuro", preconiza a "reinvenção pela descoberta desses vários Portugais esquecidos", e ainda a "reinvenção do que é possível e imperativo refazer em pessoas e comunidades"… Demasiada reinvenção, demasiada literariedade. Talvez a clareza fosse mais útil, mesmo que não caiba ao Chefe de Estado o papel de Executivo. O filósofo Eduardo Lourenço é mais directo: "Precisamos de um Estado mais competente para suscitar uma melhor sociedade". A confiança não se reinventa, merece-se, conquista-se. Marcelo socorreu-se da retórica para nos mobilizar contra o atraso e a estagnação. Será pouco, mas a intenção foi boa.

Partidos. A comunicação é importante para o debate público e é natural que os principais intervenientes lhe dêem atenção. Em democracia, os partidos são insubstituíveis na representação de ideias e interesses. Merecem, por isso, condições favoráveis ao exercício político. O financiamento partidário é muito sensível para a sustentabilidade das democracias. Daí a importância das decisões dos deputados e do Presidente da República. O veto das últimas alterações legislativas é um vexame para os partidos. Vexame merecido. Sabedores da profunda erosão que a política e os partidos têm sofrido, decidiram esconder o processo legislativo até à hora da votação. Primeiro erro. O segundo: acentuaram a ideia de privilégio e enfraqueceram ainda mais as já débeis condições de escrutínio e fiscalização. É antiga a violação repetida da lei. Boa parte dos partidos nunca teve contabilidade em ordem. Os processos de fiscalização arrastam-se anos e anos. A Entidade das Contas não tem meios para um escrutínio suficiente. A credibilização dos partidos não passa por facilidades, mas por transparência e contenção. Não questiono o financiamento público/privado dos partidos. Questiono a opacidade, o alimento gratuito do populismo e o mau exemplo que dão ao País.

Difamação. Daqui a poucos dias, o Southwestern Law School Campus de Los Angeles organiza uma conferência sobre "fake news" e "weaponized defamation". Advogados e juristas estão preocupados com os meandros daquilo que se pode designar como "difamação armada". Em tempo de Trump e de Putin, a cavalgada da comunicação é parte decisiva nas batalhas do poder e da dominação. A estratégia dos senhores das guerras contemporâneas passa pela difamação usada no ataque e na defesa. Ao ataque, dizendo o que quer que seja impunemente; à defesa, processando os media que se atrevem a criticá-los. Mesmo sendo certo que os tuítes de Trump nos costumam distrair do essencial, as batalhas nas redes têm contornos legais e políticos não negligenciáveis. Donald Trump será filho de Andy Warhol, como diz Bob Colacello, no sentido em que percebeu que também na política não há má publicidade. Vale tudo?

Confusão. O balanço internacional de 2017 do Guardian intitula-se "A era da confusão". A síntese não podia ser mais adequada quando se olha em pormenor para a geografia política mundial. Este foi o ano dos líderes durões e com grande ego. Trump, Putin, Xi Jinping, Kim Jong-un, Rodrigo Duterte, Erdogan, Maduro… a lista é grande e poderosa. O corolário de tudo isto, diz o Guardian, foi um sentimento de debilidade e fraqueza das democracias ocidentais e o desmoronar da estratégia internacional e da ordem legal estabelecidas no pós-guerra. O poder crescente da China e a regressão nacionalista e populista na Europa aumentaram os riscos. Se lhes acrescentarmos o enfraquecimento da liderança global americana e a dificuldade em lidar com Trump, a incerteza é quase absoluta. Os símbolos maiores da vertigem em que o mundo se colocou são Kim Jong-un e Donald Trump. A Coreia do Norte é a maior ameaça à segurança internacional. O azar é que em cada um dos lados da barricada há "um líder volátil, tolo e sem experiência". Este é o ponto de partida para o 2018 que agora começa. Trágico, caótico? Isso mesmo. Estamos na era da confusão.

Sabedoria. Gonçalo Ribeiro Telles é um dos homens mais marcantes na defesa do ambiente e do território. Criou zonas protegidas - as reservas agrícola e ecológica e as bases dos planos directores municipais -, desenhou jardins, parques e corredores verdes. Formou discípulos, como é o caso do arquitecto paisagista Fernando Pessoa, que fundou o Serviço Nacional de Parques e completou agora 80 anos. Numa entrevista ao Público, lamenta a desvalorização dos Serviços Florestais e o desordenamento do território. E aponta o dedo: "Não existe no ADN da maioria dos políticos o gene da sabedoria do longo prazo - todos querem fazer figura rapidamente". Isto na mesma altura em que o geógrafo Álvaro Domingues acaba de publicar "Volta a Portugal" (Contraponto) e nos confronta de novo com as paisagens de contraste que nos rodeiam. Registos do processo de desruralização em curso que documentam bem os paradoxos da ocupação da paisagem. Ribeiro Telles, Pessoa e Domingues: três homens que importa ler e ouvir quando urge colocar racionalidade nas decisões.

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comentários mais recentes
Em resumo 06.01.2018

O Sr. Jornalista vai continuar a transportar o andor do santo costa, pois está no seu ADN, e a ser fiel ao dono. .. há que pagar o bom tacho.

Pode continuar o Blá... Blá... do costume, ou seja, a cantar hosanas, uma vez perdida a credibilidade, está perdida para sempre...

?? 05.01.2018

Este diz sempre nim. É daqueles gajos que quer dar-se bem com Deus e com o Diabo. Detesto gente sem personalidade

Falas e não dizes nada, estás despedido 05.01.2018

Este como outros espremidos dão ZERO, temos que escorraçar esta trampa pseudo intelectual.

Anónimo 05.01.2018

Por mim este senhor deveria ser julgado por coberturas que deu ao sistema causador do atraso de Portugal. Em que alguns corruptos se aproveitaram.

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