Manuel  Falcão
Manuel Falcão 09 de fevereiro de 2018 às 10:11

A esquina do Rio

Durante alguns anos, a Câmara Municipal de Lisboa cobrou uma taxa de protecção civil que agora se veio a comprovar ser ilegítima - apesar de, na altura da sua criação, várias vozes terem alertado o PS de que estava a entrar no território da ilegalidade.
Back to basics
É muito perigoso para um político, candidato a um lugar, dizer e prometer coisas de que as pessoas se possam vir a lembrar.
Eugene McCarthy

Abusos
Durante alguns anos, a Câmara Municipal de Lisboa cobrou uma taxa de protecção civil que agora se veio a comprovar ser ilegítima - apesar de, na altura da sua criação, várias vozes terem alertado o PS de que estava a entrar no território da ilegalidade. O valor cobrado ao longo de três anos, e que os contribuintes tinham de pagar por transferência bancária ou multibanco, da sua conta directamente para a conta do município, vai ter um percurso mais árduo para quem quiser receber a devolução. Em vez de aplicar o princípio da restituição pela mesma via, através de transferência para as contas dos contribuintes, a Câmara optou por fazer a devolução por vale postal, o que implicará que os cidadãos vão perder tempo em filas numa estação dos CTT para levantar o numerário ou terão de ir a uma agência bancária depositar o vale. O que levará um autarca a proceder desta forma senão o princípio de que para tirar dinheiro às pessoas tudo deve ser fácil, para o devolver tudo terá de ser difícil?  Este é, no fundo, mais um abuso de poder de Fernando Medina e da sua equipa, uma prova da falta de respeito pelos munícipes, uma espécie de punição - e, quem sabe, o secreto desejo de que haja quem se esqueça de ir rebater o vale postal a tempo e horas. A devolução total prevista será de 58,6 milhões de euros que foram ilegalmente tirados aos lisboetas pela equipa de Medina - a tal que se gaba de fazer bem as contas. Para cúmulo, a Câmara decidiu isentar-se a si própria do pagamento de juros referentes ao tempo em que ficou com o dinheiro alheio. Eis em acção o programa de Medina: cobrar rápido o que é ilegal, devolver devagar, sem juros e com dificuldade, o que é devido aos lisboetas.

Dixit
"Eu não sou daqueles que dormem com um olho aberto. Eu, quando durmo, tenho os três olhos fechados."
Bruno de Carvalho

Semanada
 O excesso de álcool causa cinco acidentes por dia e as autoridades prendem diariamente 50 condutores com valores proibidos  existem mais de oito mil sem-abrigo em Portugal  um terço das crianças portuguesas entre os três e oito anos vêem telenovelas quase todos os dias e 38% usam a internet com regularidade  12,6% é a percentagem dos jovens portugueses entre os 18 e 24 anos que em 2017 não tinham concluído o 12.º ano nem estavam a frequentar qualquer grau de ensino  os crimes contra pessoas, com destaque para ofensas à integridade física, ameaças e coacção, estiveram na origem de quase metade dos 147 casos de internamento de jovens em centros educativos verificados em 2017, um aumento de 7% em relação ao ano anterior  em 5.090 escolas, só 88 têm a maioria dos seus alunos sem negativas  a Câmara Municipal de Montalegre decidiu manter a trabalhar um técnico superior que terá desviado mais de 61 mil euros dos cofres da autarquia entre 2015 e 2016   Diogo Gaspar, suspeito de desvio de bens do Museu da Presidência, vai trabalhar, a seu pedido, na Direcção-geral de Cultura do centro em projectos ligados ao património  segundo o Tribunal de Contas, a Autoridade Nacional da Protecção Civil não controlou como foram utilizados os 68 milhões de euros entregues em 2016 aos bombeiros  em 2017, houve 139 pessoas que mudaram de sexo no registo civil e, ao todo, foram 514 nos últimos sete anos  oito anos depois de ter sido aprovada por unanimidade no Parlamento uma resolução para reduzir os riscos sísmicos, o diploma continua na gaveta sem regulamentação nem aplicação; a Associação de Diplomatas contestou a designação de Sampaio da Nóvoa para a UNESCO, criticando a opção do Governo por um embaixador político. 

Folhear
A 21 de Fevereiro de 1925, nascia a revista The New Yorker. Na capa estava um homem, vestido à moda da época, de cartola e com um monóculo a espreitar uma borboleta que esvoaçava na sua frente. 93 anos depois, a edição de aniversário deste ano mostra a evolução dos tempos: é a imagem de uma mulher, negra, vestida a rigor, e a encarar à mesma uma borboleta esvoaçante, ainda com um monóculo na mão. The New Yorker, hoje propriedade de um dos grandes grupos editoriais norte-americanos, a Condé Nast, criou uma sólida reputação de qualidade de escrita e rigor de conteúdos. Além de ser um guia sobre o que se passa nos palcos, museus e cinemas de Nova Iorque, a revista inclui ensaios sobre temas contemporâneos, artigos de fundo sobre política, partidária e nacional, além de reportagens e investigações e, por vezes, a publicação de contos ou "short stories" inéditas de alguns dos grandes nomes da escrita norte-americana. Nesta edição, que assinala o 93.º aniversário, há exemplos de tudo isso. A secção "The Talk Of The Town" é a que aborda a actualidade - nesta edição, em torno do mais recente discurso de Trump, sobre o Estado da União. Destaque ainda para uma reportagem sobre uma expedição solitária à Antárctida, e a evocação dos 200 anos sobre a criação de Frankenstein por Mary Shelley em 1918, contando como tudo então aconteceu. Finalmente, prova de que a publicidade também pode ser conteúdo editorial é a campanha da Emporio Armani, baseada no conceito de "story telling": "Everyone has a different story... and everyone wears Emporio Armani" e que ocupa as quatro primeiras páginas de publicidade desta edição. Vale a pena ver a edição digital, à venda na App Store para iPad por 9,99 euros. 

Gosto
Treze anos depois de ter sido considerado o Chef D'Avenir, em 2005, José Avillez foi agora o primeiro português a vencer o Grande Prémio da Arte da Cozinha da Academia Internacional.

Não gosto
Do comportamento de Bruno Carvalho em relação aos sócios na recente assembleia-geral do Sporting e do ultimato que lançou para fazer impor as suas propostas. 

Ver
João Fernandes, que trabalhou com Vicente Todolí em Serralves e depois o substituiu, esteve ligado ao crescimento de Serralves enquanto palco da arte contemporânea e, há uns anos, decidiu aceitar o desafio de ser subdirector do Museu Rainha Sofia, em Madrid. Agora, nessa qualidade, foi o impulsionador da exposição "Pessoa. Tudo é uma forma de literatura", que pretende dar a conhecer obras e grandes nomes do modernismo português. Ali estão apresentados cerca de 300 peças, das quais 150 de pintura e desenho, de nomes como Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, ou Santa-Rita Pintor, algumas apresentadas pela primeira vez fora de Portugal. Além da exposição, que fica até 7 de Maio, o programa inclui uma série de actividades paralelas, de conferências a ciclos de cinema - recordo que a ARCO Madrid decorre este mês, entre 21 e 25 de Fevereiro, reunindo 211 galerias de 29 países - coincidência que potencia também o alcance desta mostra de cultura portuguesa em Espanha. Outras sugestões: na Galeria Belo-Galsterer, até 29 de Março, obras de Manuel Tainha e um projecto de Jorge Nesbitt (Rua Castilho 71). Na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, nos Açores, Daniel Blaufuks expõe "O Monte dos Vendavais" e, em Lisboa, na Galeria Francisco Fino, José Pedro Cortes mostra as suas novas fotografias, sob o título "Planta Espelho" (Rua Capitão leitão 76, ao Beato).

Arco da velha
Uma mulher de 48 anos permitiu que o seu filho de dez anos conduzisse um automóvel na via pública, no meio de Torres Vedras, e a brincadeira só terminou quando foi detida pela PSP. 

Ouvir
Aos 72 anos, Sérgio Godinho faz o seu 18.º álbum de estúdio, o primeiro nos últimos sete anos e seguramente o melhor deste século. O arranque não podia ser melhor - uma canção-manifesto intitulada "Grão da Mesma Mó", com letra de Godinho, música de David Fonseca, tocada por este e por Nuno Rafael, que produz o disco e está musicalmente presente por todo o lado. Ao todo, são dez canções - nove originais e uma versão de "Delicado", um tema de Márcia, uma das mais interessantes autoras e intérpretes portuguesas dos últimos anos e ao qual Sérgio Godinho se dedica numa interpretação tão pessoal que até parece um dos seus próprios clássicos. Outro ponto alto é "Maria Pais, 21 Anos", onde as palavras de Godinho se cruzam mais uma vez com as ideias musicais de José Mário Branco, naquela que é certamente a mais elaborada e emocional composição deste disco, não por acaso certamente uma espécie de retrato de uma geração para a qual ambos os autores olham com um agudo espírito de observação. Nuno Rafael, Pedro da Silva Martins, Filipe Raposo e Hélder Gonçalves assinam as restantes composições e apenas "Noites de Macau" é da autoria, na letra e música, de Sérgio Godinho, num arrebatamento inesperado e quase fadista. A produção, de Nuno Rafael, é exemplar no respeito pelo património de Sérgio Godinho e na sua abertura a sonoridades actuais. CD Universal. 

Provar
Os ovos são um dos alimentos mais fantásticos - não só pela riqueza da sua composição, como pela capacidade nutritiva que têm: em apenas 70 calorias, oferecem seis gramas de proteína e 13 vitaminas e minerais essenciais. Ao contrário do que se pensa, não têm uma influência negativa no colesterol do corpo humano - na realidade, um ovo por dia é um precioso auxiliar da alimentação saudável. Gosto de ovo de todas as maneiras, mas ultimamente eles são a salvação dos dias em que não sei bem o que hei-de jantar. Esta semana, experimentei uma nova tortilha. O primeiro passo é arranjar uma frigideira não aderente, razoavelmente funda que possa ir ao forno. A seguir começa o preparado: para duas pessoas, uso quatro ovos de tamanho médio, aos quais adiciono um pouco de água - na realidade, bater os ovos com água torna-os mais fofos e leves, impedindo que fiquem secos. Uma das minhas tortilhas favoritas leva meia curgete cortada em fatias da espessura de uma moeda de um euro, que salteio primeiro na frigideira, de ambos os lados, até começarem a escurecer. Adiciono depois os ovos, bem batidos, e por cima uma chávena de café de ervilhas (podem ser congeladas). Com a frigideira ao lume, misturo tudo bem e, no fim, deito uma farripas de presunto cortado fino e tempero com pimenta-preta a gosto e cebolinho. Deixo ficar em lume brando uns cinco/sete minutos até os ovos estarem mais ou menos sólidos e depois vão para o forno com o grelhador superior ligado no máximo durante outros 5 a 7 minutos. Isto deve ser o suficiente para a tortilha ganhar uma bonita cor sem queimar. Serve-se com uma salada e uns pickles (no meu caso, de pepino) e pão torrado. Em menos de meia hora, está pronto um belo jantar para duas pessoas.