António José Teixeira
António José Teixeira 09 de fevereiro de 2018 às 13:00

Folha de assentos

Podemos acumular desaires pelo mundo, podemos perceber-lhe a carência de racionalidade, ainda assim ripostarão os que tomam a medida a muitos indicadores de progresso: o mundo está melhor. As catástrofes não calaram os optimistas, o que não quer dizer que o caderno de encargos da sustentabilidade não esteja a ficar mais pesado.
iluminismo. Andam por aí uns "novos optimistas", o que não deixa de ser um atrevimento! Tempos aziagos propiciam tudo menos grandes esperanças. O ponto de partida da nova argumentação volta a ancorar no terramoto de Lisboa, em 1755, numa manhã de Todos os Santos, que ecoou mundo fora e se tornou interrogação filosófica. Nem por isso inviabilizou o optimismo das Luzes. A catástrofe sem explicação alimentou o medo, mas não quebrou o ciclo de progresso. Hoje, por mais que denunciemos as desigualdades, as guerras, o aquecimento global, a incerteza dos mercados, há quem nos aponte para as grandes transformações. É o caso de Steven Pinker, um psicólogo canadiano que estudou em Harvard. Num ensaio prestes a ser publicado, que se intitulará "Enlightenment Now. The Case for Reason, Science, Humanism and Progress", toma a medida a uma série de indicadores de progresso: alimentação, segurança, esperança de vida, coeficiente intelectual… Melhorias significativas. Pinker entusiasmou muitos que já o leram. Bill Gates diz que é o melhor livro que já leu, o que lhe permite dizer que "o mundo está cada dia melhor, ainda que às vezes não tenhamos a sensação de que assim seja". 

optimismo. O novo optimista Steven Pinker não está só, como não estiveram Voltaire e o seu Pangloss, no "Cândido". Vale de pouco dizermos que "vivemos no melhor dos mundos possíveis" se olharmos apenas para o seu sofrimento. Numa entrevista ao El País, o historiador sueco Johan Norberg alinha pela mesma filosofia positiva. Armado pelo livro "Progresso: 10 Razões para Olhar o Futuro com Optimismo", conclui que vivemos na melhor época da história da Humanidade. As explicações estão nos indicadores económicos, sociais e políticos. Percorre as revoluções que atravessaram os últimos séculos e olha confiante para o conhecimento, a tecnologia, os negócios e as fronteiras que ultrapassamos nos nossos dias. Norberg é um liberal, acredita num triângulo virtuoso em que se cruzam iluminismo, liberalismo e globalização. Ainda assim, um optimista preocupado com a política, com a contestação da economia aberta e do liberalismo. Talvez se estejam a exagerar os riscos, o que será uma garantia de futuro. Optimismo não evita cautelas. 

tejo. O que está a acontecer no rio Tejo não é muito diferente do fogo que ataca a floresta. Os novos/velhos problemas com que o território nos confronta comportam mudanças climáticas, mas sobretudo desleixo persistente. Não se desinvestiu apenas na floresta, desinvestiu-se nos recursos hídricos. Desinvestiu-se nos serviços de proximidade, na fiscalização, até a monitorização se degradou. Chegámos ao ponto de o Estado nem sequer conseguir recolher amostras junto à descarga de uma das empresas poluidoras. É pressuposto que os rios consintam função económica, mas esta não pode pôr em causa a vitalidade da água. O que acontece há muitos anos é a utilização dos rios como fossas para os dejectos urbanos e industriais. Aumentam-se as licenças poluidoras quando os caudais dos rios diminuem. A irracionalidade é flagrante, o crime evidente, mas o Estado revela dificuldade em proteger os nossos interesses. Em tempo de aquecimento global, de seca extrema, a causa maior da política deve ser o território. A protecção dos rios é o começo e o prolongamento da nossa vida. Há suspeita de crimes graves no Tejo. Que faz o Ministério Público? 

débil. Theresa May prossegue o calvário do Brexit com a convicção de um condenado. É cada vez mais incompreensível esta marcha, pois não se vislumbram vantagens para o divórcio. Os enganos da campanha do referendo cedo ficaram a nu, mas a decisão foi tomada e nada parece invertê-la. Poucos têm a coragem de defender um novo referendo com informação clara e fundamentada. Em causa está a soberania britânica, mas ela não é indissociável do projecto europeu. Será tanto mais forte quanto ligada à Europa. O interesse é comum. Theresa May está politicamente débil, saiu mais fraca das últimas eleições, só se mantém no seu posto porque não há interessados na negociação do Brexit. O seu governo está paralisado e não tem uma ideia de futuro a apresentar aos britânicos. Tão contestada como cautelosa. Ao mesmo ritmo das sondagens, cada vez mais arrependidas do Brexit. 

compromisso. Formar governos nas democracias ocidentais tornou-se mais difícil. Há menos polarização, menos diferenciação, há sobretudo um grande desgaste político nos eleitorados. Encontrar soluções estáveis, duradouras, exige muita concertação pós-eleitoral e muita capacidade de compromisso. É o que acontece na Alemanha, há mais de quatro meses sem governo e que esta semana terá encontrado, finalmente, uma solução. Conciliar CSU, CDU e SPD parecia missão impossível, até porque os sociais-democratas tinham prometido não reeditar a coligação com os cristãos-democratas. Quando dois partidos de alternância se confundem durante muitos anos as suas identidades correm perigo. Por esse motivo sobram muitas dúvidas e oposições entre os militantes do SPD, que irão ter a última palavra. Contudo, talvez a governabilidade da Alemanha e, não menos importante, a governabilidade da União Europeia agradeçam o compromisso.

petróleo. A venda do negócio do petróleo da Partex, a empresa energética da Fundação Calouste Gulbenkian, significa mais do que a mera opção por energias limpas e outras áreas de negócio. Já só representava 18% das receitas, mas era a ligação que restava ao começo da história de Calouste Sarkis Gulbenkian e ao negócio do petróleo no Golfo Pérsico. Foi ele que o configurou, e reconfigurou, há um século. Em 1892, depois de uma viagem entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, publicou um livro em que se detinha na importância do petróleo e que chamaria a atenção do sultão otomano. Foi o início de uma aventura em que Gulbenkian se tornou a figura-chave dos negócios do petróleo ao arquitectar o mapa estratégico da indústria. Fez pontes entre americanos, franceses, britânicos, alemães, holandeses e russos, tornando-se o "Mister Five per Cent". Refez o seu mapa do petróleo - conhecido como o mapa da linha vermelha - depois da I Guerra Mundial. Não mudou radicalmente até hoje. Foi o dinheiro do petróleo que ajudou a constituir uma das maiores colecções privadas de arte. E a Fundação Gulbenkian como a conhecemos. 


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Mr.Tuga Há 2 semanas

Muito bom o paragrafo "Tejo" !!!!!!

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