Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 11 de fevereiro de 2018 às 21:18

Notas da semana de Marques Mendes

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O ex-ministro e antigo líder do PSD fala sobre o “trambolhão” das bolsas, o congresso do PSD e o acordo na Alemanha para a formação de governo.

O TRAMBOLHÃO DAS BOLSAS

 

  1.       Tivemos esta semana um pequeno susto com as Bolsas. Houve uma queda brutal nas Bolsas americanas, que contaminaram a seguir as Bolsas asiáticas e europeias.
  •          Muito boa gente pensou: vem aí nova crise! Eu diria que não. Para já, aparentemente, são os investidores preocupados com a eventual subida das taxas de juro.
  •          Mas, no futuro, é inevitável. A crise voltará, só não sabemos quando. Isto é cíclico.

 

  1.       E a grande questão que se nos coloca é: estamos a fazer tudo o que é possível para estarmos preparados para enfrentar um futuro de dificuldades? E a minha resposta é: NÃO. Três exemplos:

a)      Precisávamos de estar a crescer acima de 3%, mais do que a média da Zona Euro. Em 2018 e 2019 vamos divergir. Não vamos convergir. Temos mais de 20 países da UE a crescer mais do que nós. Se não convergimos em tempo de vacas gordas, quando vamos convergir?

b)      Precisávamos de diminuir mais rapidamente a nossa dívida pública. E não estamos a fazê-lo. Este é o nosso grande calcanhar de Aquiles.

c)      Precisamos de investir mais na competitividade do país. A prova aí está, divulgada pelo INE – apesar da grande subida das exportações em 2017, pelo segundo ano consecutivo, as importações cresceram ainda mais, agravando, pois, o défice da balança comercial de mercadorias.

 

 

ATENÇÃO AO INTERIOR DO PAÍS?

 

  1.       Três factos desta semana:

a)      PM a anunciar no Inverno a estratégia para combater os fogos do Verão.

b)      Governo a ir de encontro às exigências da Peugeot/Citröen de MaNgualde.

c)      Altice a investir em fibra óptica em vários municípios da Serra da Estrela.

 

  1.       O que é que estes três factos têm de comum entre si? Uma preocupação com o investimento no interior do país.
  •          É muito positivo que António Costa, pela primeira vez, faça da prevenção dos incêndios uma questão estratégica.
  •          É muito positivo que o Governo não faça ouvidos de mercador às exigências da Peugeot/Citröen de Mangualde, mesmo quando as exigências soam a chantagem.
  •          É muito positivo que a Altice – tão criticada habitualmente – se empenha numa nova estratégia de investimento no interior.

 

  1.       Por que é que isto sucede?

a)      Primeiro: porque os incêndios de 2017 foram um choque e mostraram que não podemos continuar a viver como dois países divorciados um do outro;

b)      Segundo: a obsessão saudável do Presidente da República em prol do interior está a começar a dar resultados. Todos querem corresponder ao "sobressalto cívico" que o Chefe do Estado introduziu em Portugal;

c)      Terceiro: Parece que alguma coisa está mesmo a mudar. A prova é que dentro de algumas semanas ou meses, o país pode vir a surpreender-se de novo com as medidas que Miguel Cadilhe está a preparar com vista a propor um conjunto articulado de incentivos ao desenvolvimento do interior de Portugal (um choque fiscal).

 

 

MUDAR AS LEIS LABORAIS?

 

  1.       Nesta que é a polémica do momento, há três posições em confronto:
  •          Os sectores mais à direita, acompanhados de Bruxelas, querem ainda mais liberalização das leis laborais;
  •          O PCP e o BE, ao contrário, querem voltar ao tempo pré-troika;
  •          O Governo quer mudar, mas pouco.

 

  1.       Pessoalmente, acho que a legislação laboral não é uma prioridade.

a)      As leis laborais estão a impedir o combate ao desemprego? Não, porque o desemprego continua a cair. Já está em 8,1%.

b)      As leis laborais estão a fomentar emprego precário? Não. Segundo o INE, 78% do empego criado nos últimos dois anos é emprego com vínculo permanente.

c)      As leis laborais geram emprego mal pago? Não. Segundo o INE, nos últimos dois anos, os salários abaixo de 600€ baixaram; os salários entre os 600 e os 900€ e acima dos 1800€ aumentaram.

 

  1.       Em boa verdade, as prioridades neste momento deviam ser outras:

a)      Primeiro: investir nas qualificações – precisamos de emprego qualificado.

b)      Segundo: fomentar o investimento – temos de crescer mais.

c)      Terceiro: apoiar a recapitalização das empresas – o programa Capitalizar continua no papel.

 

  1.       Em conclusão:
  •          Há uma agenda política que insiste nas leis laborais. É a do PCP e do BE.
  •          E há uma agenda nacional que reclama outras prioridades.
  •          A haver mudanças, a posição do Governo é a mais equilibrada: mexer apenas no banco de horas individual e no incentivo aos contratos permanentes.

JUSTIÇA ESTÁ A CONTROLAR A POLÍTICA?

 

  1.       Nos últimos tempos, com vários casos de justiça (inquérito a Centeno, operação Marquês e caso LEX), instalou-se nalguns sectores a ideia da "judicialização da política" – ou seja, a ideia de que a justiça está a querer controlar a política ou, ainda pior, a ideia de que a justiça está a substituir-se à oposição.

 

  1.       Acho esta ideia um completo disparate.

a)      Primeiro: a justiça pode ter muitas falhas (como se viu no caso Centeno e nas fugas ao segredo de justiça). Mas está a cumprir o seu papel. E, no essencial, está a cumpri-lo bem, investigando o que houver a investigar.

b)      Segundo: a ideia de que ajustiça se substitui à oposição é uma fantasia. Claro que a oposição não tem existido. Este vazio pode dar mais visibilidade à acção da justiça. Mas a justiça não está a preencher esse vazio. A justiça não está a ser politicamente orientada.

c)      Terceiro: a justiça está mais activa porque esse é um sinal dos tempos.

  •          Intervém em mais casos, porque a lei alargou o seu campo de intervenção.
  •          Intervém de forma mais constante porque andou durante anos demasiado adormecida.
  •          Intervém de forma mais visível porque os alvos de investigação são mais mediáticos.

d)      Quarto: o mesmo se diga do futebol. A justiça não está a meter-se no futebol. Está, e bem, a investigar o futebol. Veja-se o caso do Benfica.

  •          O Benfica queixa-se de ser perseguido pela justiça. É um disparate tão grande quanto o disparate de Sócrates acusar a justiça de o perseguir.
  •          O Benfica passa maus bocados, em termos de imagem e credibilidade, por culpa própria e não por culpa da justiça. Ninguém sabe se tem alguma culpa no cartório. O que se sabe é que se pôs a jeito.

O CONGRESSO DO PSD

 

  1.       Vamos ter dois congressos dentro do Congresso:
  •          Na abertura e no encerramento vamos ter o Congresso de Rui Rio. É o momento mais importante – o momento dos seus discursos.
  •          No sábado teremos os discursos dos futuros pretendentes à liderança. Mais do que fazerem oposição a Rio, vão marcar-se uns aos outros.

 

  1.       Quanto ao novo líder, há que distinguir: dificuldades, vantagens e desafios.

a)      Dificuldades – São sobretudo três:

  •          Primeiro, as condições políticas muito adversas. António Costa está em alta e dificilmente vai cair do pedestal.
  •          Segundo, as críticas vindas da direita. Rui Rio vai ser provavelmente o líder do PSD mais atacado pela direita. Por um lado, porque é um líder mais ao centro; depois, porque os saudosistas de Passos Coelho na imprensa não vão facilitar-lhe a vida.
  •          Finalmente, pode ser vítima de si próprio: Rio não tem um grande poder de iniciativa; e a relação com a comunicação social e a justiça são pontos críticos da sua actuação.

b)      Vantagens – São igualmente três:

  •          Primeiro: o efeito novidade. Não tem nada a ver com o passado do PSD. Nem o passado da troika nem o passado do diabo.
  •          Segundo: os consensos de regime. Há 12 anos que não há Pactos de Regime. Com Rio haverá. E isso, sendo bom para o país, é muito importante para o líder da oposição: dá-lhe credibilidade.
  •          Terceiro: o efeito Cavaco. Rio tem algumas semelhanças com Cavaco dos anos 90: na autoridade e num certo discurso populista. E até as críticas que lhe fazem são semelhantes à que então faziam a Cavaco: a ideia de algum provincianismo. Só que os tempos são outros: se souber corrigir-se em relação às críticas e potenciar as outras características, pode ter vantagem.

c)      Desafios:

  •          Tem de arrancar em força – O PSD está paralisado há demasiado tempo. Tem de ter dois discursos fortes e um calendário de iniciativas marcantes para o futuro.
  •          Tem de fazer clarificações estratégicasUm exemplo é a votação do próximo OE. Faz algum sentido que, tendo votado contra 3 orçamentos da geringonça, o PSD admita viabilizar o último? Não faz sentido e Rio deve clarificar desde já.
  •          Tem de ter causas e prioridades – Tem de ter um discurso político novo em matéria de economia; tem de ter um discurso político novo no domínio social; tem de definir quais os acordos de regime que quer negociar e não esperar ir a reboque de Costa.

A DESPEDIDA DE PASSOS COELHO

 

  1.       Numa liderança longa – quase 8 anos – há três sinais marcantes:

a)      Foi um mau líder da oposição – é verdade;

b)     Mas foi um bom Primeiro-Ministro e fez história – tirou o país da bancarrota;

c)      E fez agora, no final, uma transição impecável. Vai ser, seguramente, homenageado como deve ser no Congresso.

 

  1.       O que vai ou não ser Passos Coelho, politicamente falando, no futuro?

a)      Pode voltar a ser PM;

b)      Pode ser candidato presidencial.

c)      Depende de duas coisas:

  •          Da sua vontade. Admito que, se pudesse escolher e tivesse condições, gostava de voltar a ser PM. É um executivo, por excelência.
  •          E depende das circunstâncias. Há 10 anos, quando foi para Bruxelas, dizia-se que Durão Barroso regressaria para ser Presidente da República. 10 anos depois, a profecia não se concretizou.

 

O GOVERNO ALEMÃO

 

  1.       A Alemanha vai ter, finalmente, um novo governo de Bloco Central. A chamada Grande Coligação – CDU/SPD.

 

  1.       Há GANHOS e SEQUELAS a assinalar:

a)      Ganhou Merkel – Porque evitou um governo minoritário ou novas eleições;

b)      Ganhou o SPD – Perdeu nas urnas, mas ganhou o mesmo número de ministros que a CDU, ganhou o poderoso Ministério das Finanças e ganhou tempo para se recompor eleitoralmente;

c)      Ganhou o Presidente francês – Este governo é, de todos os que se imaginavam, o que mais se aproxima das ideias de Macron para a reforma da Zona Euro.

d)      Ganhou a Europa e Portugal – Para o projecto europeu e para os países do sul o novo governo alemão é um bom aliado.

 

  1.       Mas há várias sequelas:

a)      Merkel sai fragilizada – Não teve grande resultado eleitoral e andou sempre a reboque dos acontecimentos. Será provavelmente a sua última experiência governativa;

b)      Schultz sai de rastos – Há um ano era um prestigiado Presidente do Parlamento Europeu. Um ano depois, nem Presidente do PE, nem líder do SPD, nem ministro.

 

  1.       Listas transnacionais chumbadas no PE

a)      Boa notícia para Portugal. Só favorecia os países grandes.

b)      Todos os partidos portugueses contra – só o PS se dividiu (a favor lá fora, dividido cá dentro).

c)      Grande oposição do PPE – o que ajudou Portugal.

Saber mais e Alertas
pub