Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 12 de outubro de 2017 às 22:30

3.908 páginas sobre uma cultura de saque

Mesmo sabendo o que sabemos sobre a era de José Sócrates, ler a lista de alegados crimes e o modus operandi dos alegados corruptores e corrompidos na acusação do Ministério Público é um exercício de espanto.

Não são só os tortuosos esquemas de pagamentos e levantamentos do dinheiro - descritos com detalhe pelos procuradores - que chocam. O que o Ministério Público descreve vai muito além disso: é uma cultura de saque em grande escala comandada a partir do chefe do Governo, o tipo de coisa que até aqui julgávamos acontecer só no terceiro mundo.

 

A acusação dos procuradores tem muitas histórias dentro: como Sócrates trabalhou a favor de Salgado para este fazer uma ordenha sistemática da Portugal Telecom, em prejuízo do interesse público; como Salgado fabricou grupos como a Ongoing e meteu a administração da PT no bolso; como Sócrates trabalhou a favor do Grupo Lena para este conseguir mais contratos públicos, em prejuízo do interesse público; como Sócrates, através de Armando Vara, instrumentalizou a Caixa Geral de Depósitos nesta estratégia de extracção, em prejuízo do banco (e do interesse) público.

 

No meio da complexidade de tudo isto, a atenção mediática tende a concentrar-se em José Sócrates e, logo a seguir, em Salgado. Mas este não é um caso de uma ou duas pessoas. A acusação indirecta que se pode extrair das 3.908 páginas assinadas pelos procuradores é a todo um regime. Como escreveu João Miguel Tavares, no Público, Sócrates não ascendeu sozinho, não governou sozinho (tal como Salgado não exerceu o seu enorme poder a solo). Fora do governo, Sócrates teve quem o defendesse no topo da justiça, nas empresas dos grandes negócios, na cultura, na minha classe profissional, na indústria do comentário e, claro, no seu PS.

 

Esta defesa aguerrida - e o apoio dos eleitores - foi resistindo a todos os sinais. Sobre Sócrates: o caso Freeport, o caso Cova da Beira, o caso da licenciatura (parecido com o que demitiu Miguel Relvas e que no meio dos 31 crimes de que é acusado Sócrates parece brincadeira de criança). Sobre a sua acção política: a enorme concentração de influência sobre o financiamento à economia (via Estado e via banca: Caixa, BCP e BES), os planos e as acções para controlar a comunicação social, a formação de um núcleo de empresas do regime. A defesa durou mesmo além da detenção de Sócrates. E se hoje já muito pouca gente se atravessa por ele - que ainda não foi julgado - é porque as suas explicações são obviamente frágeis ao lado da torrente de acusações do Ministério Público.

 

É importante dar relevância tanto ao caso em si como à cultura à volta de Sócrates (e, noutro tabuleiro, de Salgado) não por uma qualquer perspectiva de ajuste de contas. É importante para aprender com a experiência - o nome pomposo que se dá à acumulação de erros - deste caso inédito na democracia portuguesa. A negação de apoio público ao BES em 2014 ou a acção mais musculada do Ministério Público neste e noutros casos sinalizaram uma mudança. Mas a ausência quase total de contrição por parte dos ex-defensores de Sócrates - com destaque para o silêncio do PS, um partido crucial na vida política portuguesa - e a tentativa de normalização da acusação são maus sinais. Devem inspirar preocupação sobre a capacidade futura de constatar que o rei vai nu - e, se for o caso, de apear o rei. No plano político, este é o ponto-chave de todo este caso.

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

A memória política é sempre venenosa. Depois de 25 abril 74 temos muita matéria, infelizmente, no âmbito do gamanço da coisa pública, desde Melancia e Macau, até Sócrates com o apoio sofredor de Mário Soares, pois este sabia do que se tratava, do que tinha sido feito.

azevedos Há 3 semanas

Não acrescentou o Zeinal Bava....

Mr.Tuga Há 3 semanas

"julgava acontecer só no 3º mundo" ?!?!?!?

E onde pensa que está ?!?!?!
Os INCÊNDIOS e as noticias diárias da famelga do chutador Pato Ronaldo e da cantareira POPi manNdona são o quê ?!?!

Luis Miguel Há 3 semanas

Portugal anda em estado comatoso ou melhor corruptoso... a operação Marquês é apenas a ponta do Iceberg, todos os governos têm os seus pecadilhos, mas acho que o maior cancro está nas Câmaras, ainda que em menor escala, mas vezes 300 dá um grande bolo...