Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 17 de outubro de 2017 às 22:07

4.467

4.467 é o número dramático de pessoas que morreram em excesso na época de gripe entre 2016/17. Em excesso significa a mais do que num ano normal de gripe. Deste total, 715 morreram devido à vaga de frio, isto é, morreram de frio.

Estes dados são os publicados no relatório anual do Programa Nacional de Vigilância da Gripe elaborado pelo Laboratório Nacional de Referência para o Vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Departamento de Doenças Infeciosas e pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, em colaboração com a Direção-geral da Saúde. Abaixo reproduzimos a figura 27 do referido relatório em que é bem visível o pico anormal de mortes.

 

4.467 é um número grande. Maior do que toda a população do concelho de Vila de Rei; maior do que todos os habitantes dos municípios de Barrancos e Alvito juntos. Exatamente 30 concelhos portugueses abrigam menos pessoas do que as que num curto espaço de dois meses, entre Dezembro de 2016 e Janeiro 2017, morreram em excesso.

 

Um drama equivalente ao de desaparecer em dois meses toda a população de Gois ou de Mesão Frio.

 

A larga maioria destas pessoas podia ter sido salva, já que se trata de mortes que vão para lá das habituais em épocas de gripe. Muitos destes portugueses e portuguesas brincariam com os netos, apoiariam os filhos, contribuíriam para a sua comunidade, se tivessem conhecimento da campanha de vacinação ou das tarifas sociais da eletricidade absolutamente necessária para se aquecerem.

 

Nestes casos, falhou a comunicação. A informação literalmente vital não lhes chegou a tempo.

 

Porquê? Na maioria dos casos porque os meios usados pelas entidades públicas foram inadequados. As campanhas de vacinação usam em grande profusão os meios de comunicação social (imprensa, rádio, televisão, internet, etc.) e o sistema de saúde, especialmente através dos centros locais, dos hospitais, das farmácias. São meios apropriados para a maioria da população.

 

Mas insuficientes e inadequados para uma extensa franja de portugueses pobres, envelhecidos e muitas vezes iletrados.

 

Para chegar a estes compatriotas é necessário recorrer a formas de comunicação que envolvam interação pessoal, que pode ser levada a cabo por instituições locais como os bombeiros, os escuteiros, as IPSS, ou outras, para garantir que todos estão informados acerca dos cuidados a ter e de como a eles aceder, eventualmente com ajuda. 

 

Este é um erro que muitas entidades fazem: o de sobrestimar o poder da comunicação social, esquecendo-se de franjas alargadas da população/mercado. No caso das empresas, esse erro resulta em menor volume de vendas. No caso da saúde, esse erro é pago em vidas humanas.

 

Além da falha de comunicação outras explicações haverá que convém detetar, analisar e corrigir. Estranhamente, nem o Governo nem a oposição de direita parecem interessados em trazer este tema para o debate público.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar