Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 12 de outubro de 2016 às 20:40

[681.] Mercedes-Benz, Ryanair, Novo Banco

Mas onde é que o mundo vai parar? Quando a Mercedes-Benz anuncia um carro a 10.990€ podemos esperar a Terceira Guerra Mundial, a eleição de Trump ou o conserto da geringonça.

É o modelo Citan Furgão, e a marca que era de luxo quer ser convincente na foto que ilustra o anúncio: num ambiente aldeão fashion, em contraluz dourado com ramagem fresca compondo o enquadramento, o furgão revela-se em azul natureza atraindo seis pombos de rua em calçada antiga ladeada por tendas de produtos agrícolas numa feira limpa.

 

Este cenário ecomaquinal serve de fundo para uma mulher jovem, de rabo empinado em jardineira creme e cabelo entrançado sobre o peito direito, olhando-me com sorriso ao desafio enquanto me entrega a chave da furgoneta num porta-chaves em que brilha o metálico logótipo da marca. Como quem diz: é possível, é Mercedes-Benz e é para ti, como é para mim, que sou tendeira. O texto ajuda a convencer o leitor da nova verdade: "Marque já o seu test drive e confirme, acima de tudo, que está a conduzir um Mercedes-Benz." Sim, acima de tudo, confirme este sonho, um Mercedes pechincha.

 

O anúncio cria o choque do observador para lhe abrir uma brecha no pensamento, uma epifania que o faz girar 180 graus nas coisas que são possíveis contra o quotidiano de actos repetidos e pensamentos presos em redondel. Por isso é eficaz este anúncio, como é o de Ryanair, que fala em "escapadinhas urbanas". Também uma rapariga, porque elas é que mandam, olha para o observador enquanto faz uma foto dum monumento. Chamou-me a atenção a expressão principal. Não são escapadelas, são escapadinhas, diminutivo que realça serem rápidas e baratas. Tem o preço, como o outro anúncio: "Desde 14,99€." E são urbanas, quer dizer, vais daqui para outra cidade, dois dias e já está. É um tu-cá-tu-lá com as viagens nos autocarros aéreos que persistimos em chamar aviões; o cidadão moderno já não viaja, desloca-se; vai a cidades europeias ao preço de bilhetes de cinema, pode ir a Paris como quem vai ao shopping. Mas a possibilidade, que existe na prática, precisa de existir no pensamento do consumidor. Daí que seja precisa criar esse choque de pensamento que a frase "escapadinhas urbanas" tão bem captou.

 

É preciso, de facto, pensar, para mudar de ideias. Um anúncio do Novo Banco tem essa necessidade tão premente que, num pequeno texto com 28 formas verbais, recorre oito vezes ao verbo "pensar". Duas vezes logo no título: "Pensa que os bancos dizem todos o mesmo? Pense novo"; e, no textinho, "pensar-se", "pensando", "pensada", "pensavam" e, a fechar, duas vezes "pense". O objectivo é que o leitor pense no Novo Banco como um "banco diferente". A ordem "pense novo", que aparece repetida para sugerir "pense diferente", também quer dizer, afinal, "pense de novo". Trata-se de um esforço notável para afirmar o banco, não como ex-BES, mas como novo, palavra que aparece também oito vezes no anúncio. Não é fácil esta dialéctica de se apresentar no mesmo reclame como "banco de referência" e, em simultâneo, como "novo não apenas no nome". Por isso, é preciso pensar de novo.

 

Terá sido o que fizeram os próprios publicitários do Novo Banco, porque o anúncio das "Soluções de Tesouraria" ilustradas por uma debulhadora abandonada (ver o artigo n.º677) foi substituído por um muito mais fashion, ilustrado - por quem? - por uma mulher jovem, pois claro, como os outros dois que me desassossegaram esta semana. Titulava-se o desaparecido reclame "Soluções de tesouraria para tornar os dias úteis, mais úteis", o tal que tinha a vírgula a mais. Os publicitários pensaram novo e de novo e substituíram essa frase, gramaticalmente manchada, pelo título "A ambição serve-se no dia-a-dia." Ficou bem melhor. Os próprios publicitários serviram-se da ambição, que depois nos prometem no anúncio.

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