Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 02 de Novembro de 2016 às 19:40

[684.] MAN, Suzuki, EA

A publicidade machista desapareceu de cena, quer porque já não estaria em sintonia com os valores morais actuais na sociedade, quer porque os próprios publicitários não os defendem.

Por isso chama a atenção uma pequena camioneta da marca MAN que se apresenta com o título "Porque isto não é para meninos". A fotografia, acentuando as cores térreas e cinzentas, mostra a carrinha num local inóspito, uma mina de recolha de inertes para obras. Do lado direito, num nível superior na imagem ao do próprio veículo, está a ponta do braço dum bulldozer com minério recolhido. Do mesmo lado, em baixo, vê-se a ponta duma das suas lagartas. A bocarra do bulldozer foi ali colocada para transmitir o ar ameaçador dum dinossauro T-Rex e, juntamente com as nuvens carregadas, sublinha que, de facto, nem o lugar nem aquele trabalho profissional são "para meninos".

 

Por baixo da fotografia, o título evoluiu na transmissão da mensagem: "Não é uma Van. É uma MAN." A proposta de venda singulariza-se, portanto, por não ser um veículo "para meninas" ou rapazolas, como seriam as outras vans, mas antes "uma MAN", ou, por analogia, "uma homem". Não é para meninos, é para homens. O homem pode, ou, como diz o slogan em alemão no final do anúncio, "MAN kann".

 

Este reclame, portanto, não disfarça o seu público com um deslocado discurso politicamente correcto - só um bocadinho, pois o título, se quisesse traduzir fielmente a sua verdadeira mensagem, deveria ser "Porque isto é para homens". A mensagem também significa que o modelo automóvel é resistente - enfrenta dinossauros assassinos numa mina deserta, mas fá-lo através da associação com o ser humano, antropomorfizando a carrinha, que é resistente como os "meninos" não podem ser. "Meninos"? Sim, os que antes povoavam a publicidade, lânguidos, efeminados.

 

Não há aqui, porém, mais machismo do que há feminismo em milhares de anúncios que realçam a feminilidade. Há um apelo à virilidade masculina, o que é diferente. A era (a moda?) da publicidade que mostrava homens femininos e mulheres dominadoras parece ter passado, sendo agora a tendência valorizar nas mulheres o que é feminino e nos homens o é que masculino.

 

Outro anúncio de veículos automóveis, da Suzuki, faz bom uso do duplo sentido da palavra "destino". Para publicitar o seu novo modelo S-Cross, titula o reclame assim: "Defina o seu destino." O "o" final é uma variante do ícone que serve na Internet para marcar locais que se procuram ou onde se está. O ícone é familiar a centenas de milhões por todo o mundo. É ele que "traduz" o duplo sentido do título: defina para que local quer ir, para que destino físico, e defina o que quer ser na vida, como se quer revelar aos outros, qual o seu modo de vida. O título está de acordo com o slogan da marca, "Way of Life!", "modo de vida", e o texto desenvolve a ideia do futuro destino/modo de vida ligado ao percurso quotidiano dentro do carro: "Transforme qualquer percurso num trajecto emocionante."

 

"And now for something completely different": a marca de vinhos EA pediu a cinco artistas para criarem a partir dos seus produtos. Músicos, um artista de rua, uma bailarina, um fotógrafo e um poeta. A campanha multimédia acompanha a alteração da imagem da marca. Destina-se à elite que aprecia a arte contemporânea, ou pelo menos a vê como moda na contemporaneidade, e para quem o vinho é também uma arte. O traço comum entre os dois mundos faz-se pela palavra "inspiração", que de acordo com o slogan da campanha, bebe-se. É a arte de beber vinho, mas o anúncio não quis exagerar com uma variante do slogan do tipo "A arte bebe-se". O texto diz que o vinho EA "quer ser este equilibrista, ponto de chegada da arte de fazer vinho e ponto de partida de todas as outras artes". Tendo em conta o público-alvo e tratar-se da renovação da imagem, a campanha resulta eficaz.


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