Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 02 de janeiro de 2017 às 20:55

[690.] Porsche, BIG, Ballantine's, Oris

O que me pergunto sobre a filosofia barata de tantos anúncios é se a) são eficazes e b) se os publicitários acham que serão eficazes ou c) se não têm imaginação para mais.

A Porsche tenta convencer o observador a ter "a coragem de mudar". No meu caso, teria de mudar de actividade. Talvez na criação de anúncios tivesse mais êxito financeiro do que na sua crítica. Não estando no meu horizonte, continuo a análise desta magnífica frase política ou religiosa, daquelas que só os grandes como Jesus, Napoleão ou Marx saberiam escrever: "As grandes ideias podem mudar a sua forma de pensar. Mas só a coragem pode mudar o mundo."  Deverá ser preciso alguma coragem, ou pelo menos uma boa conta bancária, para comprar o novo Panamera da Porsche, mas por que raio nos dizem os publicitários que é preciso coragem "para mudar o mundo"? Porquê o mundo? Como se muda o mundo visitando o site da Porsche, como vem no final do texto? Três vezes em poucas frases se recorre ao conceito de "coragem". Será que a Porsche tem medo de não vender muitos exemplares deste modelo? Seja como for, o que irrita é a ideia de "mudar o mundo" comprando um automóvel topo de gama.

 

A publicidade do banco BIG preferiu a versão lamechas da filosofia da mudança. O slogan diz que "a vida já lhe deu os melhores conselhos financeiros." E quais foram? Na fotografia estão dois jovens que parecem irmão e irmã. Por trás estão umas fotos de duas crianças. São eles, de certeza, porque a filosofia desses protagonistas até vem entre aspas: "Eu sempre disse à minha irmã: escolhe fazer o que gostas. Dá 150%. Sê a melhor. Porque o dinheiro vem quando se é bom."

 

Bem espremida, esta filosofia tipo Alexandra Solnado ou Gustavo Santos diz o seguinte: sê tu mesma; dá o máximo (mais de 100% é difícil, mas já sabemos como os publicitários são uns exagerados); deixa-te ser explorada a fazer o que dizes que gostas; sonha que hás-de ser recompensada pelo teu esforço. A frase mais filosófica é a que diz que o "dinheiro vem quando se é bom". Não é certo. Nem fica claro o que significa "ser bom". Bom no trabalho? No que se escolhe porque se gosta? Ou bom de coração, bom com bondade? O elemento visual poderia levar a pensar que o que interessa é ser bom para os outros, mas o texto conduz à ideia de que o que interessa é ser bom para si mesmo. É a ética século XXI.

 

A marca de whisky Ballantine's convida o observador a "permanecer verdadeiro" ("stay true"), o que é um truísmo muito na linha da filosofia Alexandra-Gustavo que também se observa nos "reality game shows" quando os concorrentes repetem, um atrás do outro, que "eu sou eu mesmo". Somos todos superverdadeiros, ou julgamos ser. Por isso, o relojoeiro suíço Oris vai pelo mesmo caminho quando escolhe para slogan "real watches for real people". Os publicitários portugueses traduziram a frase por "relógios reais para pessoas reais", o que é dar muita realeza ao que no original parece querer dizer "verdadeiros relógios para pessoas verdadeiras".

 

Como a publicidade é de modas, é impossível prever quando acabará esta xaropada filosófica, mas certo é que já cá anda há algum tempo. É uma ideologia tipo "posts" no Facebook daqueles de quem se preocupa muito com a desgraça alheia e que se mostra como realmente é, quer dizer, nem se preocupa além de um "post" politicamente correcto nem escolhe qualquer imagem que o ou a desfavoreça.

 

A preocupação verdadeira do nosso tempo é, como sempre, com a tentativa de se mostrar preocupado com os outros quando se está preocupado consigo mesmo e a tentativa de parecer verdadeiro ou autêntico quando tudo empurra, como sempre, para a representação do Eu no espaço público. Todos queremos dizer que "eu sou eu" quando, na realidade, "eu sou outro daquele que represento, mas gostava muito de sê-lo". 

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