Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 18 de janeiro de 2017 às 19:43

[693.] Mimosa: ter um segundo filho

Que um anúncio de leite de vaca mostre crianças é esperado. Mas a marca Mimosa tem um reclame que vai mais longe: convida quem já tem um filho a ter outro.

As imagens mostram crianças de três ou quatro anos acarinhando ou brincando com bebés de meses. A mensagem da voz-off é muita directa: "Aos olhos de uma criança, uma nova pessoa no mundo não é apenas mais uma pessoa: é a pessoa mais importante do mundo. Encare o novo ano assim. Não complique! 2017 vai ser bom. Bom com Mimosa. É parte de nós."

 

A mensagem diz aos casais com um filho que terem um segundo é importante para o primogénito. Como fazer? Não complicando. Um anúncio anterior, destinado a promover o consumo do leite da marca por adultos, já incluía a mensagem descomplicadora, mas tratando o observador por tu: "Não compliques!" Era a voz da criança para o pai.

 

A marca reagiu às notícias com estudos que indicam que o leite de vaca não é aconselhado a adultos. Portugal tem uma das taxas de fecundidade mais baixas do mundo. Em 1994, esse indicador "ficou, pela primeira vez, abaixo de 1,5 filhos por mulher, valor que é considerado crítico para a sustentabilidade de qualquer população, inviabilizando uma recuperação das gerações no futuro se tal nível se mantiver durante um longo período", segundo a Pordata. Em 2014, o número de filhos por mulher ficou em 1,23. Os custos financeiros são apontados por 67% das pessoas como razão principal para não ter filhos, seguindo-se a dificuldade de encontrar emprego. Oito por cento não espera vir a ter filhos. Um quarto espera ter apenas um filho, enquanto 51% esperam ter dois e 16% esperam vir a ter três ou mais.

 

O anúncio de Mimosa escolheu a maioria dos 51% e convida-os a apressarem-se, fazendo um segundo filho em 2017, tipo promessa ou desejo do novo ano. Para que isso aconteça, é conveniente que os casais esqueçam a situação económica, que não há meio de melhorar, pelo que a marca incita-os a não complicarem, pensando na vantagem de o primeiro filho ter um irmão.

 

A publicidade precisa de dar um empurrão à vontade de os casais terem um segundo filho porque os dados mostram que essa vontade existe, mas não se concretiza nem pela metade: cerca de 50% de homens e mulheres dizem querer ter dois filhos, mas actualmente só 14% deles e 17% delas efectivamente os têm. Como diz a especialista em natalidade Maria João Valente Rosa, "em Portugal o problema não está na passagem do não ter filhos para ter um filho, mas na passagem de ter um filho para o segundo filho". As razões invocadas pelos inquiridos incluem também as oportunidades providenciadas a um filho serem maiores do que a mais do que um, devido à economia familiar, bem com a vida mais atarefada e as dificuldades na vida profissional tendo vários filhos.

 

Assim, a publicidade de Mimosa transferiu a vontade do segundo filho dos pais para o primeiro filho: ele precisa de ter a seu lado "a pessoa mais importante do mundo", mais importante, pois, do que a própria mãe e o próprio pai. O anúncio não mostra adultos, apenas uma mão feminina, e noutro plano uma mãe com um bebé ao colo, mas sem se lhe ver a cara, pois o plano centra-se nas duas crianças. Apenas se mostram as crianças, aos pares, mas em sete dos planos do anúncio elas olham para fora de campo, para os pais. São estes, digamos, a própria câmara que filma, antecipando com a realidade das imagens o próximo filho, o que metade deles gostaria de ter, mas anda a complicar. O que é extraordinário é que, sendo a natalidade um problema nacional, não haja uma única campanha do Estado neste sentido e seja uma marca de leite a avançar com uma política que poderia ser do Estado. 

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
pub