Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 12 de abril de 2017 às 20:40

[705.] Aspirina MicroActive 

Se os anúncios de imagens em movimento são quase todos narrativos, muitos há de imagem fixa que também procuram criar uma "estória" a partir de uma única imagem. É o caso de uma campanha de Aspirina. 

Um reclame em mupis de rua mistura a linguagem propriamente publicitária com a de banda desenhada. A imagem é dominada por uma mulher de meia-idade mas ainda photoshopicamente jovem e aloirada, como convém, sorrindo para o observador. Um enorme balão de banda desenhada atribui-lhe esta frase: "SALVEI o exame da Beatriz!"

 

E quem é a Beatriz?, pergunta-me o leitor. Ora, é fácil. A Beatriz é a rapariga que aparece numa fotografia diferente, na parte de cima do anúncio, com uma mala de estudante a tiracolo, um livro debaixo do braço e a outra mão na cabeça, com o habitual "ar preocupado" das telenovelas e fotonovelas. Está num corredor que parece com armários daqueles que há nas escolas - americanas. É estudante. É a Beatriz.  O balão com a frase "SALVEI o exame da Beatriz!" está por cima da foto da nossa Beatriz, para nós percebermos que a foto da Beatriz com dor de cabeça foi tirada antes de a senhora a salvar. A fotografia com a Beatriz é um "flashback". A senhora de meia-idade é, concluímos nós, que somos espertos, a mãe da Beatriz, e a jovem na fotografia com a mão na cabeça é a Beatriz antes de a mãe a salvar. Conseguimos ainda reconstituir a elipse que não cabe no anúncio de imagem fixa. É, imagino, assim:

 

- Está, mãe? Não consigo fazer o exame! E logo nesta disciplina, que é supé-difícil!

 

- Mas o que se passa, Becas?

 

- 'Tou cheia de dor de cabeça, mãe!

 

- Có-rror! Vou já prá-í! Levo-lhe aspirina!

- Aspirina?

 

- Sim, Becas, a da Bayer!

 

A mãe chega a tempo à universidade e a Beatriz faz o exame. Tem um 10, mas não interessa. A mãe salvou-lhe o exame. A conversa da mãe connosco, porque é para nós que ela fala, tem um toque egoísta, porque, no fim de contas, foi a aspirina que salvou o exame da filha. Mas já se sabe que as pessoas hoje são umas egocêntricas. Se eu encontrar a mãe da Beatriz, saúdo-a por ter ido à escola, mas repreendo-a por ficar com os louros devidos a Aspirina.

A campanha tem mais anúncios com a mesma narrativa-base. Num deles, é uma jovem quem diz "SALVEI o João para a grande final".  Fica-se com a ideia de que é a namorada do João. No "flashback" em fundo, o João está com as mãos na cabeça num estádio de futebol. Gostei de ver que a Beatriz é uma estudante aplicada e que o João só pensa na bola. Os publicitários lá sabem o que é a geração "mais bem preparada de sempre": as universidades estão cheias de raparigas e os estádios de futebol cheios de rapazes, mas as mães e as namoradas compreendem-nos.

O terceiro anúncio entra numa narrativa mais profissional. Aqui é um homem, jovem, de camisa branca, mas de mangas arregaçadas ("young professional"), que diz pelo balão de banda desenhada: "SALVEI a reunião da Sofia!" No "flashback", a Sofia, coitada, está por trás dele sentada em frente a um computador Apple (também é "young professional"), com os óculos numa mão porque tem a outra entre os olhos fechados, tal é a dor de cabeça. Mas sabemos o fim da história: a reunião correu bem à Sofia porque ele está a rir. Às tantas ainda vão jantar juntos, porque nas narrativas essas coisas acontecem.

 

Todos os anúncios mostram uma caixa de Aspirina MicroActive e o fundo verde da embalagem espalha-se pela imagem. O verde representa o equilíbrio e a retoma de energia, mas, como ao anúncio compete chamar a atenção, o balão de banda desenhada tem o fundo vermelhíssimo. No slogan "Aspirina salva o teu dia!" lá vem uma bolinha para indicar o ® de marca registada. De facto, Aspirina é um medicamento tão antigo e conhecido que a palavra se tornou… um genérico vocábulo para comprimidos analgésicos. Daí que os anúncios tenham de recordar graficamente que é um produto da Bayer, cujo logótipo aparece estrategicamente colocado no canto superior direito da imagem. E, nas mãos dos salvadores, foi acrescentada digitalmente a tablete de Aspirina MicroActive, em forma de trevo de quatro folhas. A marca diz que a tablete é mais pequena e divisível, mas pode ser que também tenha ajudado a dar sorte nas narrativas de salvamento da Sofia, da Beatriz e do João. Tudo o que ajude um "happy end" é bem-vindo. 

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