Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 17 de maio de 2017 às 19:30

[710.] Prémios "Escolha do Consumidor" 

Os "prémios" de que a gente nunca ouviu falar e que não sabe como são atribuídos marcam presença há décadas na publicidade e em comunicados de imprensa das marcas "premiadas".

Toda a empresa gosta de ganhar prémios. Se forem afamados, melhor. Se não forem, paciência, sempre dá para fazer uns anúncios e conseguir umas notícias de jornalistas ingénuos a partir de "press releases" que não são escrutinados em redacções.

 

Lembrei-me desses "prémios" ao ver um reclame de Cofidis congratulando-se a si mesma, por ter recebido "pelo 5.º ano consecutivo a Escolha do Consumidor". Como não sei o que isso é, procurei na internet. O site da "Escolha do Consumidor", que atribui este e muitos mais prémios, informa que este nome corresponde à "única marca que premia [sic] marcas, onde [sic] o consumidor é ouvido em todas as fases de avaliação - identificando os critérios de satisfação mais importantes para o consumidor e avaliando produtos e serviços de acordo com esses critérios e colocando sempre em comparação directa todas as marcas concorrentes em cada categoria. A verdadeira Escolha do Consumidor." O texto não indica como é feita a avaliação: quantos consumidores são contactados, por que processo estatístico (sondagem? amostra representativa?), como é o consumidor ouvido, quais são "todas as fases de avaliação", "quais os critérios de satisfação mais importantes para o consumidor". Nada. Apenas o texto que acabo de reproduzir. O texto também não diz qual o prémio, inferindo-se que é apenas a sua própria divulgação.

 

Na lista dos premiados de 2016 aparecem 104 empresas e na de 2017 nada menos que 124 empresas! Tantos "prémios"! Tanta empresa maravilhosa a prestar serviços maravilhosos ou a vender produtos maravilhosos! Mais um pouco e eram premiadas todas as grandes empresas de cada ramo, sem sabermos efectivamente por quem nem como.

 

Esta empresa "Escolha do Consumidor" teve um programa na RTP3, canal de informação do Estado, no qual espraiou a informação comercial num programa de "informação" em género de magazine "livre e independente", como só pode ser no operador do Estado. Este programa, segundo o site, era patrocinado por Médis, Direct, Multiópticas, Electrolux, Glassdrive, Bébé Confort e Millennium BCP. Curiosamente, todas estas empresas foram "premiadas" pela empresa "Escolha do Consumidor" em 2017. Que feliz coincidência! Faz-me lembrar, também só por coincidência, uns "prémios" de que tive conhecimento directo, muito utilizados pelas marcas "ganhadoras" na publicidade nos 70 a 90, que se ganhavam a troco do pagamento de despesas - só se ganhava se se fosse recebê-los à cidade no estrangeiro onde estava sediada a empresa que os atribuía - e para lá ir receber o prémio era preciso pagar as despesas à própria empresa que os atribuía. Era muito interessante: para se receber o prémio, pagava-se o prémio. Centenas de empresas recebiam uma carta a dizer que o tinham recebido, mas, depois de congratular o destinatário, a carta dizia que o prémio só se tornava efectivo se se lá fosse recebê-lo, depois de pagar a conta. Assim tipo Nobel, não é?, que para se receber é preciso ir a Estocolmo.

 

No site de "Escolhas do Consumidor", a empresa diz estar em mais três países, Angola, Espanha e Polónia. Infelizmente, não dá acesso ao site angolano. É certamente um efeito do vírus Wannacry no meu Mac. Mas, ó coincidência maior!, não é que algumas empresas premiadas em Portugal o são também em Espanha e na Polónia? Impressionante. Estou certo de que também nesses "o consumidor é ouvido em todas as fases de avaliação - identificando os critérios de satisfação mais importantes para o consumidor e avaliando produtos e serviços de acordo com esses critérios", se bem que nunca especificados. Enfim. O que não percebo é como há ainda empresas que aderem a isto. 

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