Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 24 de maio de 2017 às 19:17

[711.] Surf

A nova campanha do detergente Surf volta a utilizar o homem como objecto sexual para manter o velho estereótipo da mulher no lar.

O que parece uma subversão dos estereótipos é apenas a sua repetição, mas trocando a habitual mulher protagonista por um homem.

 

Quer o anúncio em imagem fixa quer o vídeo na internet se centram na imagem de um modelo musculado (a musculatura está acentuada digitalmente no anúncio fotográfico, enquanto no vídeo se chega a ver um "pneuzinho" na barriga).

 

O reclame de imagem fixo vai mais pelo simbolismo. O homem está meio deitado num relvado, numa posição incómoda que favorece a exposição do corpo. O verde da relva e o azul do céu estão exagerados - são cores "publicitárias" -, para acentuar a eficácia do detergente para a roupa e a alegria que aquilo tudo provoca. Pelo ar esvoaçam umas bolhas com flores, que se explicam pelo texto do slogan: "Detergente roupa com explosão de perfume." A camisa branca, toda aberta, para se ver o tronco, as pernas abertas e o olhar directo para a câmara são os três elementos que garantem a relação directa e a oferta de si à observadora. Com a mão, o modelo segura uma embalagem do detergente. A embalagem está sabiamente colocada em frente da zona do órgão genital, substituindo-o, como se um e outro se equiparassem. Um anúncio de Planta com o mesmo recurso a um homem-pão também colocou a margarina no lugar do órgão genital.

 

Há um elemento adicional que traduz facilmente a ideologia da campanha de Surf. Junto das pernas abertas, como se entre elas, está um cão. Aliás: uma cadela: a coleira tem o nome: "Marota". A Marota é a observadora, a mulher. A cadela simboliza a fidelidade e a obediência; ela está literalmente aos pés do modelo e detergente, quase entre as pernas. Se o homem está a fazer de Surf, a cadela está a fazer de observadora do anúncio.

 

A internet permite fazer anúncios em série sem ter de pagar aos canais de TV. O "Capítulo III" desta saga em vídeo é menos simbólico. Cria uma narrativa, semelhante às da campanha de 2016. Nesta ficção, o modelo é "o Vizinho" que três mulheres jovens espiam da varanda da casa em frente. O modelo, na varanda, cheira a roupa lavada e diz que o perfume de Surf "desperta todos os sentidos - e atenções". As vizinhas não estão apenas a cobiçá-lo. Estão todas em acção com alguma coisa em forma fálica: uma bebe um sumo com uma palhinha na boca, a segunda come pipocas (que são "explosivas", como o homem e o perfume do detergente), a terceira espreita o vizinho por um óculo (se fosse um binóculo a simbologia fálica já não funcionaria). O que vê ela? O movimento de câmara passa do tronco do homem (ele está sempre de tronco nu) para a embalagem de Surf a seu lado. São uma e a mesma coisa.

 

Enquanto ele passa a ferro (o sonho de qualquer mulher, presume-se) e a "Marota" o segura com os dentes nos blue jeans, elas batem-lhe à porta. Ele põe uma camisa no ombro, sem a vestir. "Olá, vizinho! Está uma linda tarde e…" Ele responde com uma pergunta: "E querem passá-la comigo?" Nisto olha para a câmara e pisca o olho. É tudo muito, muito maroto, como a cadela, porque o que ele está a dizer é para elas passarem a tarde a passar-lhe a roupa a ferro - com ele, o homem que é Surf. Ficção como esta, só na Disney: ter um homem assim, que, além dos seus atributos físicos, faz as tarefas do lar enquanto elas o comem com os olhos e, por substituição, o bebem com palhinha e o mastigam em forma de pipoca.

 

Resumindo e concluindo: minhas queridas, quando forem à drogaria, comprem o homem-Surf, tragam o sonho sexy, tragam o seu perfume explosivo e, já sabem, quando puserem a roupa a lavar e passarem a ferro as camisas brancas dos maridos ou namorados, que não são assim atraentes, ou a vossa roupa, se não tiverem homem, façam as vossas tarefas caseiras com alegria e sonhos explosivos. Que sonho lindo, passarem a ferro enquanto imaginam ter um macho daqueles, que faz a lida da casa e trata bem da Marota, a mulher-cadela! 

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comentários mais recentes
nin 27.05.2017

Quando o Surf apareceu, e já lá vão uns bons anos, um puto arrogante da pub nacional garantiu que ia arrasar rápidamente a concorrência. Graças à excelência da pub que o puto arrogante ia fazer. Não arrasou ninguém.
Quanto a estupidez, o "é bom sujar-se" do Skip também não lhe fica atrás.