Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 05 de julho de 2017 às 21:03

[716.] Cartazes das eleições autárquicas

Aproximando-se as autárquicas, os media rebolam-se a rir com os cartazes e outros materiais de propaganda criados por este país afora. Vale a pena observar esses anúncios políticos e reflectir sobre a sua divulgação nos media nacionais.

A maioria dos materiais vem da "província profunda" ou "país real". Ele são os candidatos que, de quatro em quatro anos, se apresentam em candidaturas diferentes, como Miguel Rodrigues, que começou em 2009 no PSD, passou em 2013 a independente e é agora candidato em Alijó pelo PS; ou Carla Leitão, que, nos cartazes, mudou de 2013 para 2017 do PSD para o PS na freguesia de Oleiros, mas não mudou de vestido na fotografia; ele é a candidata que se apresenta como "Prof.ª Raquel"; ele é a enigmática mensagem duma candidata do CDS em Água e Borralha, que diz no cartaz "Eu sou a Cris mas podes chamar-me Salomé".

 

Os exemplos sucedem-se. O PNR esmerou-se nos jogos de palavras. No Porto, terra das tripas enfarinhadas, a candidata propõe-se "fazer das tripas coração", mas o candidato em Almada atingiu o cume dizendo no cartaz que "a Candidatura Nacionalista" é "a melhor p'Almada". O que esta gente do PNR gosta de porrada!

 

Os erros de português também atraem a atenção dos media. Na Fajã Grande, nos Açores, o PS apresenta-se com o slogan "TODOS vamos fazer Fajã MAIS Grande". O erro será propositado, porque se trata de brincar com o próprio nome do concelho, mas esse particularismo escapa aos media lisboetas. Aliás, o mesmo desprezo - resultando de ignorância - encontra-se na gozação a cartazes que só atraíram em Lisboa por causa do nome das terras, como por exemplo, "Pelo PÓ, SEMPRE!", da candidatura autárquica do PS em 2013 na freguesia desse nome. O mesmo se pode dizer sobre cartazes, normalíssimos, em que aparecem os nomes das freguesias da Branca, Azias, Degolados, Tropeço, Pêga, Amor ou de Telhado, onde um candidato do PSD também se afoitou num jogo de palavras: "Com a união de cada telha construiremos um Telhado melhor."

 

A falta de qualidade do grafismo atrai a gozação com os cartazes "lá de longe", como se se devesse exigir aos caciques ou populares que concorrem em lugares recônditos que dispusessem das mesmas "agências de comunicação" que as câmaras de Lisboa e Porto e seus arredores.

 

Tenho vindo a seguir aqui o jornal online Observador, que recolheu os materiais na página de Facebook Tesourinhos das Autárquicas 2017, página que reúne e mistura materiais de propaganda autárquicos deste ano com os de outros anos e de eleições legislativas.

 

O gozo estende-se aos conteúdos. O candidato PSD-CDS em Celorico propõe (ou propôs noutra eleição?) "Comigo a ampliação do cemitério será uma realidade". E o PS de Modelos promete a "construção de casa mortuária". Os media urbanos podem não entender que para a população de uma terra não tão "sofisticada" como eles cuidar dos mortos é muito importante, pelo que estas promessas eleitorais fazem sentido.

 

Como desconhecem e decerto não tencionam visitar nenhuma destas terras (que horror!, só se for para fazer reportagens piadéticas!), revelam sem o quererem o seu desprezo pelo povo não-sofisticado.

 

Seria mais interessante analisarem o conteúdo da comunicação de candidaturas "sofisticadas" como eles. Só para dar um exemplo, aqui no meu concelho de Oeiras estamos à beira duma tragédia. Basta ver, lado a lado, cartazes do candidato do PS, Joaquim Raposo, e de Isaltino Morais, cujos passados, um na autarquia da Amadora, o outro em Oeiras, fazem temer o pior pelo dinheiro dos munícipes.

 

Raposo promete fazer uma quantidade de obras absolutamente alucinante, assinaladas num mapa. Obras é com ele. Até as promete no concelho vizinho de Lisboa. Já imagino os cadernos de encargos, as empresas a que serão adjudicados e os desvios nos preços. Morais tem um slogan bem arquitectado. Diz: "Isaltino. Inovar Oeiras de volta". O que ele quer é que a gente leia apenas "Isaltino de volta". Um filme de terror. Mas, como estes cartazes não são "engraçados" para jornalistas e facebuquianos "sofisticados", nem sequer os mencionam. 

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