Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 12 de julho de 2017 às 19:20

[717.] Interdesign, Tribù, Gandiablasco

Os anúncios de design de mobiliário são amiúde ilustrações involuntárias de solidão. Querem destacar ao máximo os produtos e evitam nas imagens colocar gente usufruindo e convivendo com esse móveis e acessórios, que é para o que eles servem.

Um belo anúncio de Interdesign, que me ordena que me apaixone pela minha casa, não tem ninguém. A fotografia mostra uma sala, com um sofá e dois maples, bem como um biombo de motivo forte, a preto e branco. A fotografia coloca ao centro um dos maples brancos, que quase parece suspenso no ar. Essa simetria, que é da imagem, não da sala, serve para sugerir sossego e harmonia, valores fundamentais nas imagens de decoração.

 

Dois anúncios de design de exteriores apresentam mulheres sós. O ser humano, nestas imagens, fornece a escala de dimensão dos restantes elementos e é um tractor do olhar, puxando o observador para dentro do que é mostrado. O reclame de Tribù diz no slogan "viver a boa vida no exterior. Ame-a, viva-a, partilhe-a." A mulher ao fundo do terraço está no centro geométrico da imagem, mas nem assim fornece harmonia ao conjunto. Está nervosa, coitada, de pé, com os pés cruzados, olhando para qualquer coisa nas mãos levantadas - será um telemóvel? - em vez de olhar para a paisagem gloriosa à sua frente. Ninguém no sofá de rua, ninguém nas seis cadeiras à volta da mesa, ninguém na piscina alongada, ninguém, só ela. Custa a crer que ela consiga viver a boa vida no exterior, amá-la, vivê-la e partilhá-la, embora, pela sua posição lá ao fundo, talvez esteja a partilhar alguma aflição na solidão do Facebook.

 

Esse anúncio também é bonito, mas o de Gandiablasco surpreende pela composição da imagem. Um plano aéreo, quase vertical, mostra parte de uma piscina e uma mulher sentada numa espreguiçadeira junto de uma pequena mesa da mesma linha de mobiliário. A piscina, vista verticalmente, parece um tapete, o que imediatamente atrai o olhar, e cria uma divisão radical na composição, estruturando a sua pureza geométrica, juntando-se-lhe a cadeira e a mesa em paralelismo rigoroso. O resto da superfície é o terraço, uniforme e monocromático, criando um vazio que fica sempre bem nas imagens publicitárias: realça os restantes elementos, acrescenta a estética, deixa o espaço e o olhar do observador "respirar". Nos anúncios deste género, então, os espaços vazios têm por acréscimo um significado material, ou não fosse ali o m2 muito caro.

 

E a mulher? Está de biquíni, sentada na cadeira, numa posição um pouco incómoda. Parece preocupada, como a do outro anúncio. Tem um pé arrepanhado. Também levanta a mão, num quase movimento que serve aos dois anúncios para acrescentar um pequeno simulacro de acção de que os publicitários de Interdesign prescindiram.

 

Esses movimentos subtis são acções, e as acções convidam à construção de narrativas. Que estará ela a fazer? Pegará numa espécie de livro (azul, como a piscina) de cima da mesa? Buscará a toalha de banho (branca, como o biquíni) num saco de vime próximo da mesa? Procura o telemóvel, como a outra? Não sei. Mas é difícil imaginá-la, assim tão só, a viver a vida boa no exterior, a amá-la, vivê-la e partilhá-la. Ou talvez os anúncios sejam para observadores masculinos, que olham de longe e de cima para as suas bonecas, tão bem que elas ficam na paisagem mobilada, ociosas mas num suave desassossego à espera deles.

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