Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 20 de julho de 2017 às 00:01

[718.] "Diz Olá"

O slogan diz exactamente o que queria dizer: o slogan diz olá e dá ordem para o observador dizer olá. E diz ao mesmo tempo Olá, a marca, e diz para o observador dizer Olá, a marca.

Raramente um slogan tão curto e tão simples consegue dizer tanto parecendo tão pouco: "Diz Olá".

 

O anúncio televisivo glosa o slogan. Tem um daqueles narradores que põem gás hilariante na garganta antes de gravarem, para lerem as ordens aos consumidores com a voz mais alegre do mundo.

 

Um moço e uma moça estão no mesmo elevador e ele quer muito meter-se com ela, mas é envergonhado. A viagem será de muitos andares porque só no final do anúncio ele ganha coragem, depois de a voz off dizer e mostrar imagens de gente a quem diz olá. E diz a imensa gente. Diz à "Marta", na praia, diz ao merceeiro, o "João", diz ao "pessoal", diz ao "Tomás", um recém-nascido.

 

Terminam os casos concretos, porque a partir daí, a voz off, que é a marca a falar, entra em modo de filosofia de estilos de vida. "Diz olá a novos amigos, às festas e aos amores de Verão e a todas as histórias que daí virão". Esta rima é ilustrada por um rapaz que toca nas costas duma rapariga qualquer e logo-logo a beija na boca, como na canção dos Doors: "Hello! I love you. Won't you tell your name?"

 

Continua com "um olá de cumplicidade", desta vez de uma parelha homossexual, e "um só para enganar a saudade", recorrendo ao smartphone. Aparece um cão enquanto uma abre a janela, e a marca narradora ordena "Diz olá ao mundo e à vida", entrando de vez na filosofia cósmica. "Tantas são as coisas boas que começam com um simples 'olá!'" Este último já é dito pela voz off sincronizando com o actor que, terminando finalmente a viagem de elevador, ganhou coragem, entusiasmado pela marca, para dizer "olá" à morena.

 

Nem uma vez se fala em gelados, nem uma vez se vê gelados. Só o logótipo da marca, numa praia e no final, remete para os produtos, indirectamente, pois é preciso conhecê-la.

 

Dado que o slogan é genial, como genial é o nome da marca, cuja presença de seis décadas em Portugal faz dela um nome caseiro, não é necessário o produto, o que deve acontecer também noutros países onde está implantada. E, assim, a transposição do cumprimento olá para a marca Olá realiza-se por automatismo cerebral. O narrador diz que é fácil dizer olá, portanto, é fácil dizer Olá, portanto é fácil comprar Olá. A transposição cerebral visa que o observador se aperceba da mensagem da seguinte forma:

 

Parece tão simples dizer gelado Olá. Então porque não o dizemos mais vezes? Gelado Olá, Marta! Gelado Olá, João! Gelado Olá, pessoal! Gelado Olá, Tomás! Bem vindo ao mundo! Diz gelado Olá a novos amigos, às festas e aos amores de Verão e a todas as histórias que daí virão. Um gelado Olá de cumplicidade e um para enganar a saudade! Diz gelado Olá ao mundo e à vida, tantas são as coisas boas que começam com um simples gelado Olá!

 

Esta campanha começou meses antes, com uma das famosas "interacções" de marcas com pessoas comuns através, desta vez, de youtubbers, para tentar conquistar a rapaziada. Em mupis, a marca "convidou" os observadores a "dizer olá" a uma pessoa com sono, por exemplo, e isso é muito giro. Os youtubbers fizeram um vídeo a "incitar o movimento", destinado, qual Vaticano, a "espalhar a felicidade e a positividade", conforme li na Briefing. Basicamente, pôs miúdos a teclar entre si, sem quase mencionarem os gelados, pois estas campanhas de felicidade à força, através da publicidade, apesar do esforço, como neste anúncio televisivo, são amiúde rebuscadas e sem a criação de qualquer ligação substantiva entre o produto e a sublime mensagem filosófica hedonista. É que, "óvalhamedeus", tudo isto é apenas para vender gelados, pedaços frescos com açúcar e sabores. 

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