Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 02 de agosto de 2017 às 20:36

[720.] Portugal Economy PE Probe

O EBITDA é uma canção de amor e tradição? Um novo site sobre a economia portuguesa apresenta-se com palavras tipo EBITDA, "average", "forecasts" e "cash flow" preenchendo a superfície duma guitarra portuguesa.

Nos espaços mais pequenos aparecem vários sinais de percentagem e muitos zeros em vez dos parafusos em leque que prendem as cordas no braço.

 

A representação gráfica simbólica do site informativo www.peprobe.com junta, assim, termos correntes da economia e finanças, todos em inglês, com um dos mais tradicionais instrumentos musicais portugueses.

 

Para mim, foi inesperada esta junção do "Portugal em movimento" com um símbolo de ócio e prazer. Lembrei-me do "lapsus linguae" de Dijsselbloem sobre gastos em "mulheres e álcool" nos países do Sul da Europa. Ora cá está ela, a guitarra do fado, que noutros tempos foi assimilado ao povo da rua lisboeta, aos proletários e lumpemproletários, marinheiros e prostitutas. É o universo que José Malhoa pintou em "O Fado", há apenas 107 anos. A quem veja no quadro o fadista e guitarrista deixando a mulher espojada em enlevo castiço a seu lado, de cigarro na mão, de pernas abertas, um sapato a cair do pé em cima do banco na casa popular, dificilmente lhe ocorre algum "report" sobre a "net tax" ou a "core rate" do "market". Nem o desalinho dos corpos, os cabelos sem arranjo, a garrafa quase vazia na mesa, as manchas na parede podem assemelhar-se ao aprumo do site, que promete "informação objectiva, isenta", sobre a economia portuguesa.

 

Patrocinado por empresas e entidades majestáticas da pátria, como a CGD, a Galp, a REN ou a Gulbenkian, e altamente patrocinado pelo Presidente da República, o site agrega informação sobre a conjuntura económica, o Estado e o Governo, reformas estruturais e troika, banca e seguros, mercados financeiros, empresas e negócios e famílias e bem-estar. Pretende assim ser uma pordata.com especializada em economia e finanças, mas muito virada para donde vem o dinheiro neste início do século XXI. Daí as versões em inglês e chinês. O próprio nome do site é em inglês: Portugal Economy PE Probe.

 

Esta semana o destaque do peprobe.com vai para o turismo, que é o sector mais vibrante da actual economia portuguesa. A propósito, aparecem na página outros logótipos do tipo do da guitarra. No primeiro, de visitportugal.golf.com, vêem-se as silhuetas de quatro golfistas. Três deles estão encostados ao taco. Ócio e lazer, como os sugeridos pela guitarra do peprobe.com. No segundo, dos Wines of Portugal, um P de Portugal apresenta-se com uma enorme barriga, a estourar. É a gordura como símbolo da felicidade da vida de prazer e ócio. Aquele P já bebeu a garrafa toda, como os fadistas de Malhoa. Dentro da barriga do P, há uma sugestão dum coração em filigrana e desenhos de rendas tradicionais. A barriga da letra está tão prenhe de tradição que lhe rebentam as "águas", em baixo, e nasce ainda um pequeno desenho duma renda. O terceiro logótipo é de Prove Portugal, em inglês "taste". Este está mais voltado para uma dieta mediterrânica. Muito estilizado, sugere talvez um peixe, um pingo de azeite, talvez legumes e alguma especiaria. Nada que sugira um cozido, mas continuamos no mundo de ócio e prazer. O quarto logótipo diz "Riding the Portuguese Waves". Foge do esperado azul do mar, mas não é muito feliz no seu preto e branco e tipo de letra "tradicional", a lembrar o quê?, sei lá!, talvez "O Fado" de Malhoa.

 

Ah, porque a guitarra portuguesa regressa no logótipo de "Fado Património da Humanidade" e, porque não, "heritage of humanity". É um belo logótipo, escolhendo para o fundo o preto e vermelho, por acaso as cores fortes da saia da tricana do quadro de Malhoa.

 

E continuamos no ócio e prazer no último logótipo do friso em peprobe.com, o já clássico "Visit Portugal", com um banhista estilizado nas águas da praia. O desenho, com décadas, é um achado: metade do corpo do banhista em vermelho, metade em verde e a cabeça - esfera armilar! - em amarelo. As águas estão revoltas, o banhista levanta os braços, mas não é a pedir socorro, é prazer e ócio nas praias portuguesas.

 

Eis, em símbolos iconográficos, a ideia que vendemos de nós mesmos: um país para turistas. António José Saraiva escreveu há uns 40 anos que, à falta de iniciativa, seríamos um povo de bandeja na mão a servir estrangeiros. Foi um profeta antes de se falar em EBITDA.

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
pub